<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770</id><updated>2012-02-17T04:31:56.391Z</updated><title type='text'>KAPA</title><subtitle type='html'>&lt;p align="center"&gt;&lt;img src="logo.jpg"&gt;&lt;/p&gt;
Kem tem K sempre esK.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>56</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-5596628638236895041</id><published>2007-10-03T18:12:00.000+01:00</published><updated>2007-10-04T16:59:05.263+01:00</updated><title type='text'>O Lápis do Lopes</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp0.blogger.com/_xARSMtAEgWc/RwPXBr5FsqI/AAAAAAAAAA8/8AQY9SgbtpY/s1600-h/lopes0001.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117170025585029794" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_xARSMtAEgWc/RwPXBr5FsqI/AAAAAAAAAA8/8AQY9SgbtpY/s200/lopes0001.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;Por Graça Lobo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fotografia Inês Gonçalves &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Pedro Santana Lopes é uma daquelas figuras que andam sempre por perto. E quando menos se espera, emerge para dar largas à sua grande ambição. Este texto reflecte bastante da sua forma de pensar, da sua forma de agir, e como se relciona com alguns dos actores políticos mais proeminentes. Pedro Santana Lopes a frio...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Não é uma entrevista. É um duelo. Santana Lopes disse o que pôde. Está tudo aqui. Sem tirar nem pôr.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Como se sente nas suas novas fun&amp;shy;ções? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;PEDRO SANTANA LOPES: Sinto-me bastante bem, mas ando muito cansado. Neste momento dá-me muito mais traba&amp;shy;lho do que eu julgava. A cultura é um departamento tão grande como os outros e só tem um membro do governo para tomar conta, enquanto os outros departamentos têm três e quatro... Eu nunca fui do género de funcionar a dizer “Ai, sabem, passo as noites no gabinete”, como às vezes os membros do governo dizem “Chego às sete da manhã e saio às onze da noite”. Detesto essa imagem porque acho que é uma imagem de falta de organiza&amp;shy;ção, mas de facto não consigo sair de lá cedo. Sei que a minha antecessora saía de lá às sete da tarde, pelo que me dizem e ela própria me dizia; quando aceitei o lugar pensei: “Bem, isto não deve ser... deve ser algo não muito exigente”. Mas estou absolutamente submerso, absolu&amp;shy;tamente submerso!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Eu já lhe vou perguntar, obvia&amp;shy;mente, sobre as linhas gerais da sua política cultural, ou da política cultu&amp;shy;ral do professor Cavaco Silva - não sei de quem é a política cultural deste governo, se é sua, se é dele. E iria talvez fazer-lhe outras perguntas, como por exemplo: acha que é um homem importante?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: P6r ser Secretário de Estado. Por ser Secretário de Estado tout court.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Depende do conceito de importân&amp;shy;cia. Julgo que sim, no sentido em que tenho responsabilidades importantes, que me estão atribuídas: as decisões que tomo mexem com a vida de muitas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acha que é mais importante do que, por exemplo, um actor? Para o seu país?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Para o meu país? Julgo que não. Do que um actor, julgo que não. Para mim a dimensão do contacto com o público, com muitas pessoas é que mede o sentido da importância.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Entre aspas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. ... entre aspas, daquilo que fazemos. O sentido em que se diz normal&amp;shy;mente que a pessoa é importante ... eu julgo que depende disso: depende do modo, do grau em que mexemos com a vida de outras pessoas e não só com a nossa. Um actor, um leitor, um escritor, um membro do governo, um cantor lírico, alguém que faça bem ao espírito, que mexe com o quotidiano - material ou não -, com a educação, com os locais de trabalho das pessoas, é certamente alguém importante para os outros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Então porque é que tem tanto desprezo e mostra tanto desprezo - desprezo, dá&amp;shy;-me a ideia que o termo é esse - por certos criadores ... pelos criadores portu&amp;shy;gueses, pelos artistas portugueses que eu considero que são as pessoas mais impor&amp;shy;tantes, muito mais importantes que os políticos?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Mas porque é que acha que eu tenho desprezo, ou mostro desprezo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: A sua atitude é uma atitude de pro fundo desprezo, o seu ar é um ar arrogante e não citarei factos ocorridos comigo. Mas posso, por exemplo, perguntar porque é que teve a grande ousadia de não responder a uma carta que lhe foi enviada pelo poeta Mário Cesariny. Por acaso foi sobre o Centro Cultural de Belém, mas podia ser sobre a tasca da esquina; só que foi uma carta enviada pelo poeta Mário Cesariny, que é só o maior poeta português vivo, com o Herberto Helder. Porque é que Vossa Excelência teve a ousadia de não lhe responder?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu julgo, enfim, eu procuro tratar as pessoas sem estabelecer diferenças entre elas ... Eu procuro ... Devo dizer-lhe que tenho uma preocupação extrema em responder a toda a correspondência que me dirigem, e até costumam dizer - as galerias, as entidades que promovem as mais variadas iniciativas - que nunca houve um responsável pela cultura que telefonasse todos os dias a dizer se vai ou se não vai, a agradecer o convite. Agora há cartas, quando as pessoas me comuni&amp;shy;cam certos factos ... Entendo por vezes que as pessoas não querem respostas. E lembro-me dessa carta, foi quase no prin&amp;shy;cípio do exercício destas funções. Lem&amp;shy;bro-me que a registei devidamente, como já recebi outras cartas de grandes vultos da cultura portuguesa. A algumas cartas respondi, outras entendi que eram alertas que me eram dirigidos e agradeci ... Eu não sou ... Eu sei que tenho essa imagem, é algo que os meus amigos todos dizem, e que me surpreende imenso: tenho uma imagem de enorme antipatia - dizem até que em termos políticos é algo a que eu devo ter atenção -, de arrogância, de sobranceria, e de facto não sou nada assim. Procuro ser agradável, correcto com as pessoas. Não gosto de ser antipá&amp;shy;tico. Agora, sou uma pessoa muito fechada ao princípio e as pessoas depois quando me conhecem vêem que sou uma pessoa completamente diferente da imagem que acho que passa na televisão ou nos jornais. Todas as pes&amp;shy;soas que estão comigo me dizem: “Eu não podia consigo!”&lt;br /&gt;Essa carta, lembro-me que a tomei como um alerta em relação à acção cultural. Li-a duas, três vezes, mas achei que era uma pretensão da minha parte pôr-me a escrever cartas a um grande vulto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Sabia que era um grande vulto?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sei. O Mário Cesariny sei que é um grande vulto ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Conhece a poesia dele?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Conheço. Eu gosto muito de poesia, sabe? Mas ... não ... é por… cos&amp;shy;tumo ler o que ele escreve e às vezes ele não escreve só poesia. Costumo, não: leio, já li, mas ... não é por isso, não é por pensar. .. Por exemplo, recebi aqui há tempos uma carta do Manoel de Oliveira - não estou a fazer comparações - mas não tive a preocupação de lhe responder.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Diga lá o que vai fazer ao Museu de Etnologia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. O Museu de Etnologia, devo dizer para já que não gosto do nome. Acho que é um nome carregadíssimo, que ninguém ... é um nome excessivamente científico &amp;shy;entre aspas - e que não é atractivo para as pessoas o irem visitar. Eu vou manter o diploma que o meu gabinete fez, revo&amp;shy;gando a integração do Museu de Arte Popular enquanto tal, como julgo que devo manter o Museu de Etnologia, embora talvez com outro nome. Eu não quero acabar com o Museu de Etnologia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: A quem é que quer agradar?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. A quem é que quero agradar? Não tenho uma preocupação muito ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Como Vossa Excelência disse uma vez que não queria agradar a Gregos e Troianos, quer agradar aos Gregos ou aos Troianos?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Os Gregos ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Quem são os Gregos e quem são os Troianos?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu não os defino. Eles definir&amp;shy;-se-ão no fim da minha actuação como Secretário de Estado da Cultura.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: É o que se verá em 1991.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Se ganharmos as eleições, se o senhor Primeiro-Ministro me quiser man&amp;shy;ter neste cargo, eu terei todo o gosto em continuar. Posso lhe garantir: é ... é um commitment, é um compromisso que tenho comigo próprio. Eu acho que são fasci&amp;shy;nantes os anos que aí vêm e vou enqua&amp;shy;drá-los como tal. E em todas as áreas: na cultura, no cinema, no teatro - o teatro é para mim um desafio enorme; já lhe disse isto no Dia Mundial do Teatro e você na altura não acreditou ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: O senhor não disse nada; quem disse tudo foi o Primeiro-Ministro. E disse tudo muito mal dito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. O senhor Primeiro-Ministro era a estrela do dia. A minha função era chegar-me para trás, como nos filmes ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Desculpe, não estou nada de acordo! No que respeita à Cultura, a estrela - se é de estrelas que se trata - é o senhor! O senhor é que é o Secretário de Estado da Cultura. O senhor Primeiro-Ministro devia estar calado e não falar de coisas que não sabe. Estou convencida que Vossa Excelência talvez ache que sabe tudo; e está convencido que sabe, que tem ideias e soluções para os problemas enormes que existem. Agora de certeza que o senhor Primeiro-Ministro não só não sabe como não se sabe expri&amp;shy;mir. O que é grave!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Talvez o Primeiro-Ministro não tenha o mesmo grau de concentração e formação nessa área que cada um dos responsáveis desses departamentos. Eu ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Porque é que está sempre calado? Desculpe interrompê-lo, mas tenho de o fazer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Interrompa à vontade.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Porque é que está sempre calado ao pé do Primeiro-Ministro? Porque é que quando foi para o Parlamento Europeu estava sempre calado, com ar de menino bem comportado atrás do professor Cavaco Silva? Porque é que quando está o Primeiro-Ministro se cala, sendo o Secretário de Estado da Cultura? Porque é que deixou, porque é que admitiu que fosse o Primeiro-Ministro a dizer aquelas coisas no Dia do Teatro? E porque é que não nos disse o que pensa, porque é que não falou para nós? Não sabemos nada do que é que pensa! Percebe? Não o conhecemos de parte nenhuma. O senhor não faz parte do nosso universo. Caiu, apareceu-nos aqui e ficámos todos, quer no teatro quer nas outras áreas, a dizer “mas o que é isto que agora nos apareceu?” E pronto. Tem 33 anos, pão é nenhum velhadas horroroso, tem até bom aspecto, já é bom ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Mas não pertenço ao universo ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Não. Não tem nada a ver connosco.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Em relação a pertencer ao uni&amp;shy;verso, eu isso já tive a oportunidade de conferir e estudar... Nenhum dos meus colegas da cultura, nas Comunidades Europeias ... Eu não sou sempre uno, per&amp;shy;tenço ao que chama o universo ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Mas não me respondeu: como é que caiu aqui?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não sei, não é cair: foi o Primeiro&amp;shy;-Ministro que se lembrou, que me convi&amp;shy;dou. E eu devo dizer: a cultura ... Vamos lá ver. .. aliás o doutor Lucas Pires, na sua opinião um Ministro da Cultura exce&amp;shy;lente ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Na minha opinião.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Pronto, na sua opinião. Ele é originário até das mesmas áreas do que eu; é um homem da Universidade, da Faculdade de Direito, da ciência política exactamente de onde eu sou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Que curso é que tirou?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Direito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E com que nota?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Acabei com 15, na Clássica de Lisboa. Fui sempre um dos melhores alunos do meu curso. Tenho quase pronta a minha dissertação de mestrado, para depois seguir para o doutoramento. Quando fui para o Governo da primeira vez tinha 29 anos; depois fui para o Parlamento Europeu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: É natural: tinha por trás o maior partido português ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu sei. E foi como sabe: não falei na campanha porque o meu partido assim o entendeu - e eu achei bem, embora tenha sido um papel custoso, que eu fiz com todo o sacrifício. Mas eu acho que nos devemos sacrificar por causas colec&amp;shy;tivas, projectos colectivos. Trabalhei muito com o doutor Sá Carneiro. Eu era o seu assessor jurídico quando ele era Primeiro-Ministro. Era um gaiato, como se diz em certas zonas do país. O doutor Sá Carneiro, lembro-me, na altura dispensou a segurança e zangou -se com a polícia. E eu andei a fazer de guarda-costas dele; ele não aguentava, por causa da coluna, levar pancada nas costas quando estava no meio das pes&amp;shy;soas e eu, como era mais alto, lá andava sempre com os braços à volta, e adorava fazer o que ele me pedisse. Lembro-me que à noite - nunca escrevi isto; um dia hei-de escrever, tenho já muita história para contar, com quase 34 anos -, à noite ia ver o colchão dele, se ele tinha a tábua para as costas, e ia pôr-lhe um bocadinho de whisky que ele gostava e nunca me cairam os parentes na lama, pelo contrário. Com o professor Cavaco Silva (e para a maioria das pessoas era também um personagem caído do céu ou de outro sítio qualquer), andei a correr o país com ele, de ténis e calças de ganga, dentro do carro, escon&amp;shy;dido, a escrevinhar-lhe discursos e inter&amp;shy;venções de terra para terra, quando ainda não havia mais ninguém... Porque pouco depois passaram a ser milhares à sua volta e foi nessa altura que eu pedi para sair para o Parlamento Europeu. Estávamos a caminhar para ganhar e eu, quando vejo aparecer muita gente, gosto de me pôr de lado, gosto de fugir, de desaparecer. Detesto multidões; não é multidões, detesto é... ver chegar muitos, quando eles chegam com as malas, sabe qual é a sensação? Por isso fui para o Parlamento Europeu. E para pela primeira vez poder estar à vontade, pedi para sair do governo, que é coisa que ninguém sabe.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acha que tem vocação para ser Secretário de Estado da Cultura?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Acho... acho. Acho que um político não deve pensar que é capaz de executar todo e qualquer cargo, embora eu entenda a política ou tenha uma visão que muitas vezes os inte&amp;shy;lectuais não gostam. Eu julgo que um político tem de ser alguém com uma formação razoá&amp;shy;vel ... uma formação e informação razoável e, depois deve ter uma capacidade de decisão e sentido político.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acha que é um homem culto?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Considero-me um homem culto. Não... não... enfim. Não vou repetir afirmações incor&amp;shy;rectas que algumas pessoas fizeram quando eu tomei posse, mas não me considero um intelectual, nem o pretendo ser. Ainda no outro dia dizia por graça ao Primeiro-Ministro, “Não pense que me tornei num intelectual que nunca fui”. E ele olhou para mim com uma cara tipo “Agora, também este!”... Mas enfim... é o lugar que eu mais gostei de ocupar até hoje. É um lugar fascinante.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Desculpe interrompê-lo: que esperança nova é que Vossa Excelência veio trazer ao teatro ?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não sei. Mas quanto mais não seja, eu defini e vou concretizá-lo, duas prioridades muito fortes na minha actuação: o património, a defesa do património...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E o teatro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. E o teatro. E até expliquei porquê. Você é que se calhar não lê o que eu digo. Aliás não tem obrigação nenhuma de ler...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Leio, leio! Quando vejo, leio. Não ando à procura, mas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu disse-o já em entrevista, disse até em mais do que uma... mas talvez só em uma tenha vindo a público. Disse “O teatro é a área em que eu senti mais mágoa” - e já o disse ao Primeiro-Ministro, que aceitou a minha formula&amp;shy;ção -, eu comparo o estado em que está o teatro ao estado em que estão alguns dos nossos monumentos: estão a desagregar-se. No caso do teatro, é por falta de ânimo, que é o principal. As pessoas estão muito magoadas com os vários revezes que sucederam, segundo me têm dito, principalmente desde o 25 de Abril; olhe, mesmo o Raul Solnado dizia, no outro dia, ao Rui de Carvalho: “Temos mais saudades no que respeita à maneira como éramos tratados no antes 25 de Abril do que no pós-25 de Abril, porque de facto no pós-25 de Abril só fomos aproveitados, utilizados e espezinhados”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Esses não têm nada de que se queixar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Talvez não tenham, não sei, mas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Esses, esses dois.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Pronto, esses dois. Mas eu sinto isto em todo o lado: sinto no teatro de revista, sinto no chamado teatro comercial...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Não há teatro comercial em Portugal. Era bom que houvesse.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Praticamente não há. É aquela área que eu julgo que tem mais do próprio povo. Eu julgo que o teatro, enquanto expressão artística oralmente transmitida também, julgo que é aquela que tem uma relação mais directa com a identidade cultural de cada povo e que é impossível a forma de expressão teatral... é difícil, é por isso que eu julgo que quando há uma grande diferença de tipo cultural de civili&amp;shy;zações, as representações teatrais não têm grande sucesso de uma civilização para outra. Isso ainda aconteceu na Europália, por exem&amp;shy;plo, com o teatro japonês em 1989. Era difícil. As pessoas têm uma maneira de se exprimir, de se falar, essa arte de representar tem de corresponder a quem... - enfim, estou a falar com quem sabe -, mas o representar é tradu&amp;shy;zir de facto a maneira de estar, de ser, de falar dos cidadãos, das pessoas, dos membros com&amp;shy;ponentes de uma comunidade, de um povo; isso não se transplanta de um sítio para o outro. E o teatro é o que está mais dependente, de facto, do modo como se mexe cada país em relação a cada área artística, e eu senti-o completamente abandonado e julgo que é uma constatação de facto: são os espaços, são os equipamentos, são as pessoas, está tudo num estado a precisar de intervenção, atenção e cuidado urgente.&lt;br /&gt;Agora, vim encontrar um estado de coisas com que eu não concordava nada e demorei alguns meses a tomar algumas decisões porque tive imensos problemas de consciência, e continuo a ter, em pôr a minha assinatura em coisas com que não concordo e que vêm preparadas de há muitos anos mas que eu acho que não podem nem devem continuar a ser...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Quais, se não é indiscrição? Em relação ao teatro, que é onde estamos agora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Em relação ao teatro, posso dizer-lhe desde já que acho que não faz sentido o modo como está articulado o Teatro Nacional D. Maria e a Direcção-Geral de Acção Cultu&amp;shy;ral. Foi algo que já senti, acho que não faz sentido termos um teatro nacional que funciona por si, para um lado, e termos uma entidade que toma conta ou lida com o resto das compa&amp;shy;nhias, completamente por outro lado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Então como é que havia de ser?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu julgo que tem de haver uma enti&amp;shy;dade... O Teatro D. Maria II deve estar inte&amp;shy;grado no Teatro Nacional numa... entidade.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Isso é perigosíssimo, sabe?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P .S.L. O que é que é perigosíssimo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: É perigosíssimo em relação a um Teatro Nacional, que seja uma directora geral ou um director geral a ter a responsabilidade do que se possa passar. Não acha que os teatros, nacionais ou não, devem ter à frente, como principais responsáveis, as pessoas do teatro?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não, eu não ponho isso... Acho que o director geral pode ser uma pessoa do teatro. A minha ideia é que haja uma combinação de pessoas com os dois tipos de perfis: pessoas que sejam do meio e - acho que fazem sempre falta - pessoas que não sejam do meio. Porque estão mais à vontade para decidir face aos grupos que existem. Porque é como em tudo, na Cultura é como em tudo: também no meio da engenharia, no meio dos advogados, há os seus grupos, há as suas listas, cada um tem os seus amigos que cristalizam ao longo dos anos. E se cada um deles é chamado por vezes a decidir, a justiça não é tão grande como a que se pode obter de outra maneira. O que não faz sentido O director do Teatro Nacional hoje em dia… O Teatro Nacional pode e deve ser um teatro com um elenco permanente, como é o nosso Teatro Nacional, o que não acontece em todos os teatros nacionais... sendo um teatro com um elenco permanente, procurando que seja um pólo dinamizador de uma actividade que está quase morta. E está quase morta porque os espaços estão quase mortos, os equipamentos podres, não existem. Eu julgo que este ano vamos ter, de uma vez por todas, de canalizar muita verba para o investimento em espaços e equipamentos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Então e depois o que é que acontece aos actores, aos encenadores, aos cenógrafos por&amp;shy;tugueses - que ainda há alguns bons, não somos todos péssimos - se o senhor vai investir o dinheiro a arranjar os teatros todos? O que é que a gente vai fazer, para onde é que nos manda?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Mas não acha... Para já responda: não acha que se tem de investir nos espaços?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acho que o senhor tem de ir buscar mais dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Ah! Pois, o problema é esse! Pudera eu... Estou-lhe a dizer... se eu tivesse...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acho que tem de ser mais bem aconse&amp;shy;lhado!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Se eu tivesse o orçamento... Se tivesse o orçamento que tinha este ano, não tinha hipótese de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não sou muito aconselhado, sabe"&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Sei.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não é que não ouça muito as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Eu sei que não é nada aconselhado. Eu sei que não gosta que o aconselhem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Tenho ouvido muito as pessoas, mas tenho a mania de decidir sozinho. Não quer dizer que não procure ouvir. Não parto nada do princípio que eu sei. Não parto nada desse estado de espírito, parto de contrário: eu não sei&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Então se não sabe, quem é que o informa?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não... Eu peço os documentos, peço estudos e depois leio; leio, estudo, analiso, vou aos sítios. É o que as pessoas me dizem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Eu, de facto, já percebi que a sua cabeça anda muito depressa. Podemos fazer aqui uma pausa. Estou a maçá-lo"?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não está a maçar nada. Eu gosto muito de conversar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Gosta?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu? Até às tantas da manhã, todas as noites. Largo daqui...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Nos Stones?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Mas não só. Também...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Sobretudo nos Stones?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sobretudo nos Stones, porque eu gosto muito de música romântica.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Quando é que lê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Leio normalmente quando me deito. Leio muito já deitado e leio... Depende; olhe, hoje em dia leio muito no carro, quando ando com motorista, que é algo que eu tenho desde a primeira vez que fui para o governo. Não é por vaidosice, acho que é dos investimentos mais rentáveis que existem na civilização actual: poder ter alguém que conduza o carro, porque poupa imenso tempo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Pois, pois.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Pois é, mas leio muitas coisas ao mesmo tempo. Sou incapaz de estar a ler só um livro. Leio muitas coisas ao mesmo tempo e não as leio de seguida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Já me vai dizer o que é que lê, que eu gostava de saber. Mas o que é que me disse que vai escrever?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu não disse nada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Disse, disse.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Você escreveu um livro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Publiquei dois, embora tenha escrito um. Eu não quero nem escrever livros muito depressa nem plantar uma árvore muito depressa, sou um bocado ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: O que é que quer, então?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Tenho 33 anos, quero ir fazendo aquilo que gosto, acho que deve ser a nossa procura na vida. Já começo a sentir a necessidade de escrever... não quero chamar memórias, mas de pôr no papel... porque acho que nesta altura entramos noutra fase da vida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: O que é que acha que faz de si um homem perigoso, de quem, politicamente, se tem medo, de quem o professor Cavaco Silva tem medo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sou muito detestado, não tenho dúvida nenhuma sobre isso; sente-se em sectores da Imprensa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Importa-se com o que diz a imprensa?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Importo-me.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acha que é injusto? Acha que está a ser maltratado nos jornais?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Até agora acho que a imprensa está a ser muito simpática comigo e com o Secretário de Estado da Cultura. A generalidade das pessoas, o que me tem dito é que eu - pode não ser assim - dei um pouco a volta às coisas desde que entrei. As pessoas, em entrevistas e con&amp;shy;versas, têm-me dito que dei um pouco a volta no ambiente quando entrei na Cultura. O ambiente hoje é completamente diferente. As pessoas vinham à espera que eu viesse fazer não sei que acções de selvajaria política e a pouco e pouco estão agradavelmente surpreendidas com o modo como tenho exercido as minhas funções.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Volto à minha pergunta: porque é que é um homem politicamente perigoso para o professor Cavaco Silva?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não, para ele acho que não sou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: O que é que quer? Quer ser Primeiro&amp;shy;-Ministro? Acha que vai ser Primeiro-Ministro?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Ah, não sei, não faço ideia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: É rico?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não, não sou. O bem que tenho, o único, é esta casa que vê e a propriedade em que está.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Mas vive bem, relativamente?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Olhe, tenho encargos. Basta ter esta propriedade no Alentejo para ter vários encargos. Posso dizer-lhe, as minhas contas bancárias - que tenho em dois ou três bancos - ou estão a zero ou estão negativas. Não tenho dinheiro hoje em dia para as responsabi&amp;shy;lidades que tenho por mês. Pago uma renda de casa de 100 contos - não arranjei mais barato - mas tenho uma casa razoável no Areeiro, num prédio de 30 ou 40 anos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Onde é que vivia antes? Vivia em Lisboa?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Vivi na Costa de Caparica, vivi em Carcavelos, vivi na Quinta da Luz, porque como adoro o mar, sempre que posso estou ao pé do mar. Não tenho mais bem nenhum. Não tenho mais conta nenhuma. Detesto ter contas a prazo, nunca tive dinheiro para isso. Só ganhei dinheiro uma vez: foi no Parlamento europeu. De facto, aí ganha-se muito bem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E um social-democrata convicto?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sou um social-democrata de profunda inspiração liberal, profunda inspiração liberal. Mas devo dizer-lhe que sou muito relativista em matéria de ideologias e acho que elas não acabaram mas estão todas em substituição. Neste momento, considero-me em fase de interlúdio, em matéria de ideologia. Também acho que todas elas... por exemplo: esta moda do liberalismo, eu acho que é uma moda.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Qual o actor ou actriz com quem o senhor almoça, ou tem alguma relação de amizade?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Almoçar ou jantar não costumo fazer muito, mas aquele com quem tenho uma rela&amp;shy;ção mais próxima e há mais tempo, embora hoje não muito frequente, é o Herman José.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Ah! E pintor?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Pintor... Relação próxima, que me lembre, com nenhum. Há o Saramago da pin&amp;shy;tura, o Rui Manso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E escritor?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Tenho ali um quadro dele de que gosto muito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E escritor?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Escritor com que me dê? Nenhum.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E músico?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Estou a pensar nos meus amigos... se algum deles é músico ou escritor...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Não, um músico português com quem o senhor almoce ou jante, com quem goste de conversar, que seja das suas relações.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. É um músico controverso, mas é uma pessoa que é mais das minhas relações (embora isto levante especulações com os pro&amp;shy;blemas que há na música hoje em dia); é o Adriano Jordão. É com ele que tenho uma relação mais próxima.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Quer dizer, não tem relações nenhumas de amizade?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Hum...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: ...ou de intimidade ou de ...nada, com ninguém que faz parte do universo do qual o senhor é Secretário de Estado. Estou a dizer bem ou não? Está de acordo comigo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Estou... está a dizer bem, mas pense no seguinte: eu tenho a minha maneira de ser e sempre foi... como não tenho nenhum amigo na política a não ser o Durão Barroso que andou comigo na Faculdade e que foi para a política.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E o Antóno Pinto Leite e o Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. O Marcelo Rebelo de Sousa. Sim, mas o Marcelo, como sabe, é um caso de amizade muito especial. Com toda a gente, não é comigo. Eu acho que ele sabe ser amigo das pessoas, mas não é um amigo de todos os dias&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Mas onde eu quero chegar é que o senhor não tem nenhuma relação particular de amizade com ninguém que faz parte do universo do qual é Secretário de Estado, percebe?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sim... Eu não faço tenções de mudar nunca, nunca fiz. Dizia-lhe há pouco, não mudei minhas amizades por causa da política, nem pelos cargos que exerço. É pelas circunstâncias da vida. Jogo futebol aos sábados de manhã com as mesmas pessoas com que jogo há vinte anos... Não frequento os meios... houve uma época, em que me atribuíam um excessiva preocupação porque eu apareci muito... O meu amigo Marcelo Rebelo de Sousa punha-me constantemente na Olá! Então, as pessoas tinham a ideia que eu adorava festas sociais, que adorava jantares, cocktails ou recepções, que é uma coisa a que vou tão pouco quanto possível. Gosto muito de dançar e gosto muito da noite. Gosto imenso de estar acordado quando ninguém está. De andar em Lisboa, quando Lisboa está a dormir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: O senhor é Secretário de Estado da Cultura está em contacto com um universo mais interessante, mais rico, com as pessoas mais fascinantes que o seu país tem. Como é que não aproveita isso? Mesmo para si, pessoalmente&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Eu detesto que as pessoas tenham o sentimento que estou a utilizá-Ias ou às funções em que estou. Quero continuar exactamente a mesma pessoa e a fazer o que fazia. Só tenho uma obrigação: é procurar ler muito mais, estudar muito mais, informar-me muito mais sobre aquelas que são as minhas áreas de preocupação. É a única mudança. Detesto que as pessoas pensem “agora este aparece ou telefona. É Secretário de Estado da Cultura aproveita para aparecer em meios que nunca frequentou ou para se dar com pessoas que nunca lhe ligaram.” Detesto que pensem isso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acha que as pessoas são assim tão más?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sim. Acho que as pessoas são más.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Acha que as pessoas são más?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Acho. O Português diz sempre mal. É maldizente por natureza. Dou-lhe um exemplo, a outro título: quando o doutor Sá Carneiro &amp;shy;que foi a pessoa com quem tive uma relação humana das mais interessantes da minha vida - me convidou a trabalhar com ele, era a pessoa com quem eu mais queria trabalhar. Tinha vinte e dois ou vinte e três anos na altura, mas nunca... Porque isso é uma coisa que imponho a mim mesmo, interiormente... e lutei por ele, lutei na altura contra os Inadiá&amp;shy;veis, fui ao congresso do partido fazer um discurso... Mas lembro-me que quando passava por ele - e apesar de ter uma admiração louca por ele, já eu era presidente da Associação Académica de Direito -, nunca olhei para ele. Detestava que ele pensasse que me estava insinuar ou a fazer-me engraçado, ou a aproxi&amp;shy;mar-me para tentar. .. Nunca! Nem sequer - &amp;shy;tenho a consciência tranquila - dirigi os olhos para ele. Até o dia em que me chamou e disse: “Gostei muito do que você disse e gostava que a partir de hoje trabalhasse sempre comigo. E pronto, aí sim, fiquei a trabalhar com ele. Portanto funciono assim com as pessoas. Se têm a gentileza de me convidar, eu normal&amp;shy;mente vou sempre. Agora, não convidam, não apareço. Sigo muito o ditado português “À boda e baptizado, não vás sem ser convidado”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E casado?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Fala inglês e francês?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Inglês, francês e alemão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Ah. E leu Proust?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Já li há muitos anos, já não me lembro: É como se não tivesse lido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Foi os Ensaios que leu?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Já não me lembro. Lembro-me que lia muito essas empreitadas quando andava no liceu e estudava filosofia. Dedicava-me a elas de alma e coração.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: E Joyce? Leu o Finnegan’s Wake e o Ulisses?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Não?! O Secretário de Estado da Cultura não leu o Ulisses nem o Finnegan’s Wake?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não, não li.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Qual foi o último livro que leu?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não há último.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Português?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Ah, o último português? O último português é impróprio que se diga, mas foi uma releitura das Memórias de Salazar do Franco Nogueira. E estou a ler também... li o do, como é que se chama... do Miguel Fernandes Jorge...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Qual foi a última peça que viu em Portugal, sem ser o What Happened... ?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Sem ser essa, além do Renaissance Theater...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Gostou do Renaissance?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Gostei, gostei ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Gostou do Rei Lear e não gostou do Midsum&amp;shy;mer’s night ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Gostei, gostei. Infelizmente só fui à estreia, depois perdi o Rei Lear, que foi uma estupidez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Que é que pensa do teatro independente? Qual é o grupo que acha mais eficaz, mais profissional?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Isso acho que não devo dizer, nem fazer comparações nas funções em que estou, nem dizer qual é o pintor de que mais gosto ... gosto bastante de pintura, mais do que es&amp;shy;cultura, devo confessar. Embora haja escul&amp;shy;tores de quem sou fã. O Rodin fascina-me, mas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: João Cutileiro, gosta?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Gosto, gosto do Cutileiro, embora ...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Pessoas de esquerda, tem algum precon&amp;shy;ceito contra elas?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. Não, não tenho nenhum.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;K: Gosta que apareçam com iniciativas ou gosta de ter as suas próprias iniciativas?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;P.S.L. As duas coisas. Têm-me impressio&amp;shy;nado imenso o número de iniciativas... Nunca pensei que houvesse tantas. Isso tem si&amp;shy;do a maior surpresa para mim nestas fun&amp;shy;ções&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;in K, nº1, Outubro de 1990&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-5596628638236895041?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/5596628638236895041/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=5596628638236895041&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/5596628638236895041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/5596628638236895041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2007/10/o-lpis-do-lopes.html' title='O Lápis do Lopes'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_xARSMtAEgWc/RwPXBr5FsqI/AAAAAAAAAA8/8AQY9SgbtpY/s72-c/lopes0001.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-2817016773801174934</id><published>2007-01-30T17:06:00.000Z</published><updated>2007-01-30T17:22:02.704Z</updated><title type='text'>Está na cara</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp2.blogger.com/_xARSMtAEgWc/Rb99n6POhRI/AAAAAAAAAAk/hzOcl0rSNUU/s1600-h/cara.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5025873833770255634" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_xARSMtAEgWc/Rb99n6POhRI/AAAAAAAAAAk/hzOcl0rSNUU/s320/cara.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 115%; FONT-FAMILY: 'Calibri','sans-serif'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-ascii-theme-font: minor-latin; mso-hansi-theme-font: minor-latin; mso-bidi-theme-font: minor-bidi; mso-fareast-language: PT; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-language: AR-SA; mso-no-proof: yes; mso-fareast-: minor-latinfont-family:Calibri;font-size:11;"  &gt;&lt;?xml:namespace prefix = v ns = "urn:schemas-microsoft-com:vml" /&gt;&lt;v:shapetype id="_x0000_t75" stroked="f" filled="f" path="m@4@5l@4@11@9@11@9@5xe" coordsize="21600,21600" spt="75" preferrelative="t"&gt;&lt;/v:shapetype&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;Texto:&lt;/strong&gt; Miguel Esteves Cardoso&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em bom português, a expressão “Estás com boa cara" significa exactamente: "Ultimamente tens andado com má cara." A partir de uma certa idade, a cara י muito importante. De nada interessa uma pessoa sentir-se bem, ou estar bem, ou mesmo ser bem. Em Portugal, todos os check-ups do mundo não valem o olhinho arguto de um transeunte que diz "Estás com má cara".&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A nossa civilização baseia-se numa ideia tripla:&lt;br /&gt;1.Tudo está na cara.&lt;br /&gt;2.A palavra "cara" é feminina.&lt;br /&gt;3. A mim não me enganas tu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas podem fazer o que quiserem, mas ninguém liga ao que elas fazem. Para os portugueses só interessa a cara que têm. Pode ser-se arquitecto mas se calha ter "cara de quem nunca fez um desenho na vida" está lixado. Pode nunca ter provado uma pinga de vinho na vida mas se alguém afirma que é alcoólico e há outro que diz "Tem cara disso ... " pode considerar-se bêbado para todos os efeitos. Pode ser a pessoa mais amistosa e gregária do mundo, mas se tem "cara de poucos amigos" toda a gente foge dele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A cara mais interessante é a "cara de caso", que não tem tradução possível nas outras línguas. Trata-se da cara de quem acaba de passar por certa experiência sem se querer, pelo menos à partida, descoser. Em português, a exclamação “Estás com cara de caso... " significa a interrogação "O que é que se passou?"&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;No Brasil, que é Portugal levado às últimas consequências, sem complexos nem mariquices de qualquer género, chega-se ao ponto de reduzir um indivíduo ao semblante, usando-se "cara" para dizer "pessoa". O mais engraçado é que, sendo "cara" do género feminino, se diz "o cara". Imagine-se que se dissesse "o bochechas". Não, porque "o bochechas" até se diz. De qualquer forma, é estranho que se diga “o cara", referindo-se um homem, mas não se diga “a cara" quando se fala de uma mulher. Não? Em Portugal limitamo-nos a dizer "Minha cara amiga", que poderá não querer dizer, ao contrário do que se pensa, “Minha querida amiga", mas sim "Minha carinha amiga", como quem diz "Minha carinha laroca". Também não? Então pronto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A confusão sexual à volta da cara é característica. Uma das coisas que mais me preocupa e encanta é a questão dos géneros na língua portuguesa. No corpo humano é encantador como masculino e feminino se complementam. Os olhos estão com as sobrancelhas, o nariz está com as narinas, a boca está com os lábios, as orelhas estão com os ouvidos, o queixo está com as mandíbulas e o cabelo está com a cabeça. Para cada coisa arrapazada há uma coisa arraparigada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta sintonia prolonga-se no resto do corpo. As pernas são claramente femininas, mas são interrompidas pela solidez masculina dos joelhos. As belinhas barrigas das pernas, todas curvilíneas e insinuantes, encontram de bom grado a robustez machista dos tornozelos. As mãos, espalmadas e bonitas, não passam sem os dedunchos decididos e meninos. Aliás, é engraçado como tudo o que é ossudo e rijo tende a ser masculino (tornozelos, pulsos, joelhos, cotovelos, pescoço, ombros, dedos, quadris) e tudo o que é arredondado e fofinho tende a ser feminino (bochechas, nádegas, maminhas, ancas, pernas, barriguinha). Em tudo se encontra um equilíbrio yin-yang, facilmente explicável com filosofias da treta. Excepto numa coisa. Por que carga de água é que os órgãos internos mais importantes são todos do género masculino? Que lição há aqui para aprender? O coração, o fígado, os rins, o cérebro, os nervos, os intestinos ... até o sacana do útero é masculino! A representação feminina ou é superficial (a pele), trivial (laringe, faringe, vesícula) ou óbvia (vulva, vagina, trompas). O que é que isto quererá dizer? Que são os homens que trabalham, lá nas profundidades da casa das máquinas, enquanto as mulheres se limitam a dar a cara? Tudo isto é muito complicado e sabe-se lá se levará a algum lado. Os estrangeiros ficam fascinados. O Sol é masculino mas as estrelas são femininas. A Lua é feminina mas os planetas são masculinos. O mar é masculino mas a água é feminina. O fogo é masculino mas a chama é feminina. A terra é feminina mas o solo é masculino. Se há uma lógica interna na atribuição sexual das coisas é a seguinte: a matéria e o fundamento das coisas tendem a ser masculinos, mas a ideia, a aparência e a coisa em si tendem a ser femininas. Por outras palavras, os homens estão, mas as mulheres são.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;É um exercício fabuloso. A casa é feminina mas o lar é masculino. O sexo e o amor são masculinos mas a paixão é feminina. O ciúme é masculino mas a inveja é feminina. A Pátria e a Nação são femininas mas o Estado e o Povo são masculinos. Os órgãos de soberania são masculinos (Governo, Presidente, Parlamento, Tribunais) mas os conceitos em que assentam são femininos (Democracia, Representação, Política, Filosofia). Aliás, quanto mais se persiste mais se percebe que tudo o que é masculino tende a ser um tanto ou quanto mais foleiro e mais básico do que o feminino. Não há nada a fazer. A diferença entre as mulheres e os homens continua infelizmente a ser a diferença entre o que importa e o que parece importar. Os homens dão a cara, mas são as mulheres as mais descaradas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Está na cara. É tudo muito complexo. Com que cara se fica quando se explica a um estrangeiro que "ter má cara" não é o mesmo que ser "mal encarado", e que nem uma coisa nem outra tem a ver com o conselho "Encara bem os teus problemas" ?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aliás, não é por acaso que as mulheres não podem ter “boa cara". Não é que não gostassem de ter. Mas é feio uma senhora "Ó Clotilde, estás com boa cara, pá! Faz quase tanto sentido como dizer que estão rijas ou para dar e durar. Às mulheres diz-se apenas que estão “bonitas” mesmo quando é mentira: De qualquer modo, mesmo que não seja, ficam sem saber se estão com boa cara, que é o que interessa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;À medida que se envelhece, vai-se percebendo que a grande divisória da humanidade não é entre os ricos e os pobres, não é entre os sábios e os analfabetos, não é entre os pretos e os brancos, não é entre os crentes e os infiéis, não é entre os antigos e os modernos, não é entre os esquerda e os de direita, não é entre os novos e os velhos, não é entre os rurais e os citadinos, não é entre os trabalhadores e os patrões, não é entre os compatriotas e os estrangeiros. Não. Não é. É entre as mulheres e os homens. Porque é que Deus fez um mundo. com dois sexos, se se estava mesmo a ver que não ia funcionar?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;E porque é que tantas línguas agravaram o problema? A vantagem da língua inglesa é óbvia. É verdade: como é que se explica a um inglês a frase portuguesa "Ele há cada uma !"?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;in K, nº 7, Abril de 1991&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-2817016773801174934?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/2817016773801174934/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=2817016773801174934&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/2817016773801174934'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/2817016773801174934'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2007/01/est-na-cara.html' title='Está na cara'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp2.blogger.com/_xARSMtAEgWc/Rb99n6POhRI/AAAAAAAAAAk/hzOcl0rSNUU/s72-c/cara.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-116803662699506370</id><published>2007-01-05T22:37:00.000Z</published><updated>2007-01-05T22:47:09.428Z</updated><title type='text'>Instituições: O Bilhar</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://bp1.blogger.com/_xARSMtAEgWc/RZ7UPkyTR6I/AAAAAAAAAAM/NS8FzNA_JNE/s1600-h/bilhar.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5016680398975092642" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_xARSMtAEgWc/RZ7UPkyTR6I/AAAAAAAAAAM/NS8FzNA_JNE/s320/bilhar.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Fotografia:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;Mariana Viegas&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span xmlns=""&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Chegou o tempo de agir. Espalhados por esse mundo, grupos de homens adultos, liderados pelo neogrunho Robert Bly, dançam ao som de batuques, erguem falos de madeira, perdem-se na floresta, discutem o yin e o yang e o conceito do Novo Homem. Deste &lt;em&gt;hippiesmo &lt;/em&gt;mal assumido e recauchutado dizem ser o futuro do sexo masculino. É preciso pensar. A &lt;em&gt;male-bondage &lt;/em&gt;ideal é a que primeiro é feita de pai para filho, e depois em instituições saudavelmente criadas para o efeito. Para o verdadeiro equilíbrio masculino encontramos por exemplo os bares, o barbeiro, o alfaiate ou as salas de bilhar. O bilhar é o mais nobre dos jogos. Notem, par favor, como digo &lt;em&gt;jogo &lt;/em&gt;e não &lt;em&gt;desporto. &lt;/em&gt;No bilhar não há competição gratuita nem fatos de treino. É um concurso de perícia e inteligência e pode-se (deve-se) jogar de &lt;em&gt;smoking, &lt;/em&gt;é uma actividade palaciana que dá tanto prazer a quem o joga como a quem vê jogar. Permite conversar, beber e fumar. É perfeito.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;Pode-se não gostar muito da França, mas é preciso agradecer-lhe a invenção deste jogo. As primeiras carambolas foram dadas no chão, com bolas bastante maiores do que as utilizadas actualmente. As mesas e as primeiras regras surgiram por altura do reinado de Luís XIV, e a partir daí ganharam grande popularidade nos meios aristocráticos. Mas os grandes praticantes surgiram nas salas de bilhar situadas em cafés e outros lugares públicos, onde os verdadeiros grupos masculinos se reuniam sem preocupações de identidade.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;O jogo de bilhar tem diversas modalidades: a partida livre, o jogo de quadro (de 47 ou 71 centímetros, a 1 ou 2 golpes) e os espectaculares jogos por tabelas. Observar um bom jogador de bilhar a três tabelas é ver poesia em movimento.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;A mesa de bilhar e uma peça lindíssima. Os puristas jogam sobre uma superfície de ardósia (espessura mínima de 45 mm), coberta pelo pano verde. As tabelas laterais são feitas de &lt;em&gt;caotchouc &lt;/em&gt;e têm uma altura de 36 a 37 mm. A madeira que as cerca deverá possuir incrustações de embutido (diamante), colocados em intervalos regulares. Admite-se que a marca do construtor da mesa possa aparecer nessa superfície, mas longe das incrustações. A mesa de bilhar ideal devera possuir um termóstato que elimine a humidade das ardósias e dos panos, mantendo-os a uma temperatura constante de 25°c. As bolas são preferencialmente de marfim, com um diâmetro de 61 mm. São três: duas brancas e uma vermelha. O objectivo do jogo é efectuar o maior número de cara bolas possível. Isso acontece quando a bola do jogador toca nas outras duas, e devera ser feito de acordo com a modalidade que se está a jogar.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;Os homens portugueses não têm desculpa para não jogarem mais bilhar, a não ser a escassez de salas em condições. Mesmo assim, Portugal tem boas tradições bilharistas, e actualmente o dr. Jorge Theriaga é o 8º no ranking europeu e 18º no mundial, é um exemplo a seguir.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;O bilhar (com as suas variantes &lt;em&gt;snooker &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;pool &lt;/em&gt;ou &lt;em&gt;eight bal) &lt;/em&gt;é um jogo masculino. Não é misoginia, é verdade. As mulheres, infinitamente superiores a nós em outras coisas bastante mais importantes, não sabem pegar num taco. Ficam feias, desajeitadas. Sujam-se de giz e aborrecem-se de morte. Rasgam panos e acham graça. As salas de bilhar são dos pouco universos sérios que ainda nos restam, para desabafarmos angústias e alegrias entre carambolas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;por&lt;strong&gt; Nuno Miguel Guedes&lt;/strong&gt; (Agradece-se a colaboração da Federação Portuguesa de Bilhar)&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;SALAS DE BILHAR LISBOETAS&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;AS MELHORES:&lt;br /&gt;Ateneu Comercial de Lisboa&lt;br /&gt;Sport Lisboa e Benfica&lt;br /&gt;Snooker Clube (variante snooker e eight ball)&lt;br /&gt;Associação Lisbonense dos Amadores de Bilhar&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;EM DECLÍNIO:&lt;br /&gt;Jardim Cinema&lt;br /&gt;Emecê&lt;br /&gt;Rialto&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;MORTAS, MAS NÃO ESQUECIDAS&lt;br /&gt;Café Monte Carlo&lt;br /&gt;Café Gelo&lt;br /&gt;Café Palladium&lt;br /&gt;Café Chave d'Ouro&lt;br /&gt;Café Colonial&lt;br /&gt;Café Império&lt;br /&gt;Cervejaria Portugália&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-116803662699506370?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/116803662699506370/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=116803662699506370&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/116803662699506370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/116803662699506370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2007/01/instituies-o-bilhar.html' title='Instituições: O Bilhar'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_xARSMtAEgWc/RZ7UPkyTR6I/AAAAAAAAAAM/NS8FzNA_JNE/s72-c/bilhar.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-114502061302108053</id><published>2006-04-14T14:12:00.000+01:00</published><updated>2007-01-05T22:57:38.760Z</updated><title type='text'>Consumo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Consumo1-740349.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: pointer; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Consumo1-736244.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Consumo2-778113.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: pointer; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Consumo2-774375.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;in K nº 18, Março de 1992&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-114502061302108053?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/114502061302108053/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=114502061302108053&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/114502061302108053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/114502061302108053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2006/04/consumo.html' title='Consumo'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-113605984371705566</id><published>2005-12-31T20:08:00.000Z</published><updated>2006-12-12T23:40:26.350Z</updated><title type='text'>Norte Nome de Portugal</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte1-772827.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte1-770386.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Fotografia: Inês Gonçalves&lt;br /&gt;Texto: Miguel Esteves Cardoso&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=";font-family:Garamond;font-size:12;"  lang="PT-BR" &gt;&lt;span style=";font-family:georgia;font-size:100%;"  &gt;Primeiro&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:Garamond;font-size:12;"  lang="PT-BR" &gt;&lt;span style=";font-family:georgia;font-size:100%;"  &gt;, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;         &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. &lt;st1:personname productid="Em Viana do Castelo" st="on"&gt;Em Viana do Castelo&lt;/st1:personname&gt; está tudo à vista. A luz mostra tudo o que h&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;á para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;o&lt;/span&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte-725566.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte-724697.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; verde mais escuro, que se vê&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-s&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;e &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;branco ao &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;olhar. Até o gr&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;anito das casas. Mais verdades. No Norte a comida é melhor. O vinh&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;o é melhor. O serviço &lt;span style=""&gt;é melhor. Os preços são mais baixos. Não é &lt;/span&gt;difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. M&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;as há uma verdade maior. É que &lt;span style=""&gt;só &lt;/span&gt;o &lt;span style=""&gt;Norte existe. &lt;/span&gt;O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; inteiro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Nort&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;e, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos liv&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;re, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores s&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;ão um caso à parte. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - &lt;/span&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte2-749068.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte2-745995.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, &lt;i&gt;Continente&lt;/i&gt;&lt;span style=""&gt;. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;No Norte&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; português, semi-arrependido, como quem não que&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;r a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alec&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;ri&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;m. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável,&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; em que os versos, desd&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;e o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as rapa&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;rigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas,&lt;/span&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte4-718080.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte4-716899.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; de carrapito perfeito, que tê&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;m os olhos endurecidos de quem passou a vida a&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; cuidar dos outr&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;os. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira,&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porq&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;ue me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu,&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte". Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;defender Portugal no mundo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Este sacrifício c&lt;/span&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte3-755330.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/norte3-754375.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;olectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder perte&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;ncer a uma &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;terra maior, é comovente. No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana n&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;ão são tão autênticas como as de Ponte de Lima. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: left;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;st1:personname productid="Em Ponte de Lima" st="on"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Em Ponte de Lima&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; dizem que a vila de Amarante ainda é mais &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como no&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;m&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;e&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt; de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do P&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;orto. É a maneira que têm de dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior da&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;s naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamo&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;s todos?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=";font-family:Garamond;font-size:100%;"  lang="PT-BR" &gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:georgia;font-size:100%;"  &gt;in K, Nº 2, Novembro de 1990&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-113605984371705566?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/113605984371705566/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=113605984371705566&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/113605984371705566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/113605984371705566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/12/norte-nome-de-portugal.html' title='Norte Nome de Portugal'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-113035448887871932</id><published>2005-10-26T20:14:00.000+01:00</published><updated>2005-10-26T23:06:40.946+01:00</updated><title type='text'>Aníbal Cavaco Silva</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/cavaco-774478.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/cavaco-773085.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Por Vasco Pulido Valente&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Finalmente. O Grande Criador da Democracia de Sucesso. O Líder Incontestado da maioria dos portugueses, o modelo do Novo Homem Português fala à K. São confissões, revelações, soluções e provocações várias. Vasco Pulido Valente foi conversar com o nosso Primeiro-Ministro. O resultado são nove páginas para guardar. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;1. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;K: Nestes seis anos, o que é que aprendeu?&lt;br /&gt;Aprendi muito e mudei muito. Ganhei uma grande resistência psicológica, que, aliás, julgava que não tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Resistência a quê?&lt;br /&gt;À crítica, aos ataques, à pressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E à ansiedade?&lt;br /&gt;Sobretudo à ansiedade.. Senão, vivia permanente atormentado. Se não conseguisse separar as coisas e dizer «Acabou aqui o trabalho, começa aqui o descanso», continuava na cama a pensar nos problemas do governo. E nos fins-de-semana. Sempre. Mas, com o tempo, ganhei resistência psicológica. Ajuda muito ter a consciência tranquila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não o incomoda a condescendência da burguesia portuguesa consigo?&lt;br /&gt;Sei o que a burguesia portuguesa pensa de mim. Não venho da «cultura de cocktail», como toda a gente sabe. Depois da Figueira da Foz, percebi que tinha entrado, de uma forma inesperada e radical, num novo universo e que, se não me adaptasse depressa e não surpreendesse, era crucificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Gosta da burguesia portuguesa?&lt;br /&gt;Respeito as diferenças; respeito o direito à diferença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Gosta ou não gosta?&lt;br /&gt;Depende das pessoas. De algumas gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E os ares de superioridade dos «intelectuais&gt;,? Não o afectam?&lt;br /&gt;Alguns julgam-se uma vanguarda esclarecida. O pior, para eles, é que se enganaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Em quê?&lt;br /&gt;Fizeram, por exemplo, previsões catastróficas sobre o que ia suceder ao País e a mim, pessoalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E as insinuações sobre a sua cultura?&lt;br /&gt;Sou especialista de determinados assuntos, não sou de outros: e não pretendo fingir que sou aquilo que não sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E não se irrita?&lt;br /&gt;Não. Acho algumas dessas pessoas bastante azedas e um bocado frustradas. Mas não me irrito. Continuo a minha vida com toda a normalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Considera ainda a política «a pirueta, o floreado, a retórica»? Palavras suas.&lt;br /&gt;Da campanha eleitoral, com certeza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Da pré-campanha.&lt;br /&gt;De um período de luta, portanto. Repare, quando fui eleito presidente do PSD, em 1985, os portugueses estavam cansados de um excessivo verbalismo, de promessas vãs, de políticos muito hábeis em jogadas palacianas. Procurei, de facto, tirar benefícios desse estado de espírito, do desejo de outro estilo e de outros métodos. Hoje é diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não concordo. Nomeia constantemente ministros sem experiência política.&lt;br /&gt;Há quem não aceite os meus critérios de escolha dos ministros. Para mim, a capacidade de análise política ou, por exemplo, de falar muito bem não chega para fazer um bom governante. Acima disso, valorizo a capacidade de executar um programa, de realizar uma obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Uma obra política, em todo o caso: o que implica estabelecer prioridades, gerir conflitos...&lt;br /&gt;..gerir expectativas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: ...e por aí fora, coisas que a competência profissional não inclui. Caso contrário, qualquer economista competente e sensato podia acabar em Primeiro-Ministro.&lt;br /&gt;Bem, em Portugal, até aconteceu. Mas não. Com certeza que não. Não é assim. O papel político do Primeiro-Ministro, e dos ministros, é evidentemente essencial. Claro que tenho ministros, por assim dizer, «mais políticos» e outros menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Gosta de mandar? Não de «mandar para fazer», pura e simplesmente de mandar.&lt;br /&gt;Nem por isso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: A sério?&lt;br /&gt;Nem por isso... De resto, existe a ideia errada que o Primeiro-Ministro «manda», que «manda» em tudo. Não manda: as instituições tornaram-se muito mais independentes e o poder tornou-se muito mais difuso. Não está centralizado nesta sala. Os autarcas mandam, os reitores das universidades mandam, os chefes de empresa mandam, os chefes sindicais mandam... imensa gente manda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E o Primeiro-Ministro manda.&lt;br /&gt;Um pouco. O Primeiro-Ministro é um coordenador. Fornece orientações. Normalmente não declara: «quero isto» ou «não quero aquilo», leva a que se faça isto ou a que não se faça aquilo. Por mim, tento que as decisões não resultem apenas da minha convicção pessoal. Procuro munir-me de informações para que as decisões sejam as mais correctas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E esse trabalho dá-lhe prazer?&lt;br /&gt;Dá-me prazer fazer coisas. Ser Primeiro-Ministro às vezes cansa-me. Cansa-me viver muito fechado entre estas quatro paredes. Não pode imaginar como é.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;2. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;K: Criou o «novo homem português»?&lt;br /&gt;Isso são expressões que se usam. Mas vejo nos portugueses de hoje, ou pelo menos em muitos portugueses de hoje, diferenças significativas em relação ao passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Quais?&lt;br /&gt;São mais autónomos, menos dependentes. O grau de dependência do Estado, por exemplo, diminuiu muito comparado com o que era em 1985. As pessoas já não olham o Estado como uma espécie de apólice de seguro que protege de tudo. A sociedade civil tem uma forra extraordinariamente maior do que há cinco ou sei anos, embora não tão grande como noutros países, claro. Apesar disso, agora existem verdadeiras instituições da sociedade civil. Poucas e fracas? Talvez. O facto é que existem: e que reivindicam e apresentam propostas com autonomia crescente. Com autonomia crescente, sem dúvida nenhuma. Dantes falava-se da «libertação da sociedade civil». Neste momento, prefiro falar do «fortalecimento da sociedade civil». Acho mais apropriado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Desconfio bastante desse fortalecimento.&lt;br /&gt;Não conhece bem o País. O espírito do País é de reivindicação, de exigência. Não suponha que os empresários ou os professores ou os portugueses em geral se inibem comigo. Um dia destes fui a uma escola primária, levanta-se um aluno e grita: «O Cavaco». Quem pensaria. Um aluno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Um inconsciente.&lt;br /&gt;Não. Um sintoma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Segunda diferença do «novo português».&lt;br /&gt;O cepticismo crónico, a apatia, a falta de confiança das pessoas nas suas capacidades passaram. Ou começam a passar. As pessoas acreditam que podem vencer e que vale a pena lutar, não partem já derrotadas como antigamente. Há outro ânimo. Em 1985, dizia-se que as nossas empresas iam ser esmagadas pelas empresas espanholas. Não foram. Isso contribuiu muito para mudar a atitude dos empresários. Os jovens empresários e os jovens agricultores estão mais abertos a enfrentar uma concorrência muito difícil. Mas não desistem. Querem ganhar e acham que de facto vão ganhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não está a projectar os seus desejos na sociedade portuguesa?&lt;br /&gt;Em parte, evidentemente. O meu discurso é um discurso político: um discurso de esperança e de ambição. Tento estabelecer uma meta, dar um certo impulso à sociedade, porque as sociedades tendem a mudar lentamente. Se o Primeiro-Ministro aparecesse com um ar miserabilista, triste, acabrunhado, desiludido, vencido, seria um desastre: a desmoralização geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E com um excessivo optimismo não corre o mesmo perigo?&lt;br /&gt;O optimismo não me parece excessivo. Reconheço as dificuldades que existem. O perigo era permitir que o País se desmoralizasse por causa delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Terceira diferença do «novo português»?&lt;br /&gt;Tornou-se exigente. Exige qualidade. Nos políticos. Nos bens culturais e materiais. Nos serviços. Em tudo. Mas também podia acrescentar que o «novo português» é descomplexado, liberto de preconceitos, valoriza a diferença, etc.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;3. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;K: Que é o pior defeitos dos portugueses?&lt;br /&gt;Acho difícil responder a essa pergunta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: São indisciplinados? Reivindicativos?&lt;br /&gt;Não; nem indisciplinados, nem reivindicativos de mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Conservadores?&lt;br /&gt;Obviamente, gostaria que fossem muito mais abertos à inovação. Admito que sou confrontado com um certo conservadorismo, no sentido de resistência à mudança. Embora as coisas tenham melhorado, para mim não melhoraram tanto quanto deviam. Há ainda uma excessiva «acomodação às situações», E uma certa carência de iniciativa, de agressividade, de gosto em «fazer bem». Que se nota até em pormenores triviais. A casa de banho do aeroporto de Zurique está limpa; a do aeroporto de Lisboa, não. Porquê? Não é possível? Questões de cultura, provavelmente. Em Portugal não se reconhece o mérito, a sanção não funciona...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Em Portugal, não se pune o fracasso.&lt;br /&gt;A impunidade caracterizou este país durante anos e anos. O que ajuda a explicar a tendência para a «acomodação». Uma das minhas grandes preocupações consiste precisamente em reduzir o grau de impunidade. Mas não se reduz a impunidade por decreto. Tem de se combater na política, na economia, no trabalho, em todos os domínios. Durante imenso tempo, por exemplo, Uma pessoa competente e uma pessoa incompetente recebiam o mesmo ordenado e, às vezes, a incompetente era mesmo promovida com mais facilidade. Espero que, a pouco e pouco, isso acabe e que a sanção seja efectiva: a sanção política, moral, profissional, económica...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: O Primeiro-Ministro Cavaco Silva não pune os ministros que falham.&lt;br /&gt;Não puno? Essa é a sua ideia, não é a minha. Nunca revelei, e não posso, nem tenciono revelar, o critério que uso para escolher e julgar os meus colaboradores, incluindo os ministros. O que não significa que não siga um critério estrito, desde 1985.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Trata muito bem os ministros que demite.&lt;br /&gt;Não se sai do governo necessariamente por incompetência. Existem razões políticas, que às vezes só por si obrigam a mudanças. E, de resto, quem não é bom ministro pode ser óptimo administrador ou outra coisa qualquer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;4.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;K: Onde está a Direita e onde está a Esquerda em Portugal?&lt;br /&gt;Foram desaparecendo... foram desaparecendo. Hoje é difícil identificar claramente uma Esquerda e uma Direita em Portugal. As transformações do mundo arrasaram as barreiras ideológicas. E em Portugal, desculpe que lhe diga, também contribuí um pouco para isso. O eleitorado tornou-se fluido e move-se com uma facilidade inconcebível há meia dúzia de anos. Quem imaginava que milhares de eleitores comunistas pudessem vir a votar em mim, ao mesmo tempo que milhares de eleitores do CDS?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: No essencial, o que o separa do CDS e do PS?&lt;br /&gt;Custa-me a responder a essa pergunta. Não sei bem o que são hoje esses partidos e mesmo o que é o próprio PSD. Não há conjuntos coerentes de ideias identificáveis como a ideologia do CDS, ou do PS, ou do PSD. Há uma interpenetração. O PSD defende algumas políticas que o CDS defende e políticas que o PS também defende. Parte das minhas políticas passa por ser de Esquerda e outra parte por ser de Direita. E, para não ir mais longe, olhe que até o PS do Dr. Jorge Sampaio propõe pontes privadas. Hoje, na prática, prevalece o pragmatismo e a credibilidade pessoal dos governantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Então, nada o separa do CDS e do PS?&lt;br /&gt;Se quiser, posso dizer que não aprovo o liberalismo do CDS e que não sacralizo o mercado, ou que não aprovo o «intervencionismo económico» do PS, nem a ideia de que a justiça social se consegue só através da redistribuição. Mas confesso que seria um pouco forçado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Nestes seis anos de governo, enganou-se nas grandes orientações políticas.&lt;br /&gt;Enganei-me várias vezes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Nas grandes orientações políticas.&lt;br /&gt;Nas grandes orientações, acho que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Vê alternativas a essas orientações?&lt;br /&gt;Marginais. A interdependência na Comunidade Europeia é muito forte e a liberdade de escolha muito menor do que geralmente se supõe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E os limites do País?&lt;br /&gt;São o ponto de onde se parte e também condicionam fortemente a liberdade de escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não existe, portanto, uma estratégia viável diferente da sua?&lt;br /&gt;Em princípio, a de aperfeiçoar o sector público, em vez de tentar diminuí-lo. Não penso que desse bom resultado. Mas prefiro não tentar comparar a situação actual com uma situação hipotética, no caso de ter sido seguida outra orientação. Pessoalmente, acredito que seria pior. Outros acreditam que seria melhor: é uma opção sustentável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Descendo à terra, admite que o PS no governo fizesse uma política diferente da sua?&lt;br /&gt;Não durante muito tempo, embora os resultados fossem diferentes. Se tentasse, sucedia-lhe o que sucedeu ao presidente Mitterrand no primeiro mandato. O PS talvez começasse com uma política diferente, mal, passados doze, quinze, dezoito meses, teria de abandoná-Ia. A realidade não o deixava continuar. Mas os custos que daí resultariam seriam elevados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Nesse caso para que servem os partidos? Bastava o PSD.&lt;br /&gt;São precisas alternativas credíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: De pessoas?&lt;br /&gt;De pessoas, de métodos e de programa, pelo menos no embrulho. Repare que, no fundo, a oposição promete que vai executar as políticas do governo Cavaco Silva, ou políticas extremamente parecidas, só que diz muito melhor. Hoje ninguém tenta ganhar votos a vender o ideal da sociedade equalitária. Hoje não vale de nada repetir os velhos estribilhos: que os comunistas defendem os trabalhadores, que o socialismo traz a justiça social, que a cultura é de Esquerda. As coisas tornaram-se mais complicadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Dois políticos deste século que admire. Não diga Sá Carneiro.&lt;br /&gt;De facto, diria logo Sã Carneiro. Conheço mal a história da I República e, como economista, as minhas referências não foram naturalmente políticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Mais nenhum?&lt;br /&gt;Se lhe dissesse Duarte Pacheco, dizia porque ele também nasceu em Loulé e porque, pelo pouco que sei, era um homem com uma vontade de ferro, enérgico, aberto. Mas só por isso. Não estudei a obra dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Em política, não tem família.&lt;br /&gt;Há políticos que respeito - admirar não é a palavra - do meu partido e de outros. O Dr. Vítor Constâncio, por exemplo, ainda um jovem. O Dr.. Cunhal, mais velho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;5.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;K: O dr. Mário Soares começou a fazer-lhe uma espécie de fronda.&lt;br /&gt;Não. Isso é uma injustiça dos jornalistas em relação ao Presidente da República.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: A sério?&lt;br /&gt;Quem ler os jornais fica convencido que o Presidente da República não pára de pensar nas maneiras de criar problemas ao governo. Acho uma injustiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Ele não subiu o tom das críticas ao govemo?&lt;br /&gt;Até agora não, pelo menos às c/aras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não?&lt;br /&gt;Não. Como Primeiro-Ministro, considero que a atitude do Presidente da República não justifica reparos significativos. De resto, não me pronuncio sobre o assunto. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro têm de dar uma imagem de estabilidade ao País.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: O que não impede que o Dr. Mário Soares seja cada vez mais o centro da oposição.&lt;br /&gt;Quando o Governo e o Primeiro-Ministro entenderem que o Presidente da República se está a substituir à oposição devem tratar do caso com ele próprio e nunca, nunca, na praça pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: O Prof. Adriano Moreira disse, em 1987, que a sua maioria tinha transformado o regime num presidencialismo do Primeiro-Ministro. Se for eleito Presidente da República e essa maioria continuar, passamos ao presidencialismo puro. Ou não? Não. A Constituição não permite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Suponha que é Presidente da República, que nomeia o Primeiro-Ministro, que assiste aos Conselhos de Ministros...&lt;br /&gt;Só por convite do Primeiro-Ministro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Um Primeiro-Ministro do PSD, nomeado por si, certamente que o convidaria...&lt;br /&gt;Não acredito. De maneira nenhuma. Defendo o espírito e a letra da Instituição. Não se pode torcer a Constituição ao sabor das conjunturas eleitorais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Mas, nesta hipótese, a letra da lei seria respeitada, a prática é que mudaria;&lt;br /&gt;Com péssimos resultados. Sempre que o Presidente da República, seja ele quem for, membro do partido do poder ou chefe do partido da oposição, interferir nas competências do governo cria inevitavelmente instabilidade no País. O Presidente deve ficar confinado às suas funções. Cabe ao governo conduzir a política geral do País. O Presidente não dispõe dos instrumentos necessários para o fazer e, se o fizer, fá-Io-à por força pela negativa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Excepto na hipótese que lhe pus.&lt;br /&gt;Mesmo nessa hipótese, o Presidente depressa entraria em conflito com o Primeiro-Ministro. Quando sair deste lugar, espero que quem me suceder, do PSD ou não, não prescinda das suas competências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não acha a eleição directa do Presidente um resíduo do período «revolucionário»? Não preferia que o Presidente fosse eleito pela Assembleia da República?&lt;br /&gt;Não. Optámos por um modelo que funciona relativamente bem. Neste momento, não me atreveria a tocar-lhe. E note: ao contrário do que sucede em Espanha e em Inglaterra, em Portugal o Primeiro-Ministro não determina a data das eleições e a dissolução do Parlamento. Se o Presidente fosse eleito pela Assembleia, o Primeiro-Ministro ficava com certeza com mais poderes e, então, nem quero pensar no que diriam alguns senhores, que continuam com a cabeça povoada por certos fantasmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: A proposta de lei eleitoral do PSD não prevê círculos uninominais.&lt;br /&gt;Tratou-se de conseguir um equilíbrio entre a governabilidade e a representatividade. Os círculos uninominais asseguram facilmente a governabilidade, mas prejudica excessivamente a representatividade. Em Inglaterra, por exemplo, partidos com mais de 20 por cento dos votos, só elegeram 7 ou 8 deputados. Procurámos uma via intermédia, conservando a substância do sistema em vigor e propondo, entre outras coisas, círculos eleitorais mais pequenos, que aproximam os deputados dos eleitores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Esses círculos pequenos são ainda muito grandes.&lt;br /&gt;Nenhum pode exceder dez deputados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Dez são de mais.&lt;br /&gt;Não nos opomos a que sejam menos e estamos preparados para aceitar menos. Propusemos dez porque duvidamos que o PS concorde com o número inferior. De qualquer maneira, penso que era útil e necessário que a maioria absoluta na Assembleia correspondesse a cerca de 38, 39 por cento dos votos. Isso garantia a estabilidade e facilitava a alternância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Tenciona promover a regionalização?&lt;br /&gt;Quanto à regionalização, sou cauteloso. Não sou totalmente contra, mas sou cauteloso. Por causa dos bairrismos exacerbados e das clientelas políticas. Ao longo destes anos no governo, descobri várias vezes que os maiores defensores da regionalização queriam ser presidentes das regiões. Pessoalmente, preocupam-me alguns problemas. Primeiro, o perigo de recusar a fronteira económica para o interior do País. Se criarmos determinadas regiões no interior, é muito provável que o pólo de desenvolvimento económico delas fique em Espanha. Depois, o perigo da regionalização produzir uma nova classe política e uma nova burocracia. E, principalmente, o perigo de que apareçam em Portugal pequenos nacionalismos. A nossa unidade - linguística, religiosa, étnica... - é uma extraordinária vantagem. Precisamos de garantir sempre a coesão nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: As oposições insistem...&lt;br /&gt;Ainda por cima, hoje a regionalização tem de se ver a uma luz diferente. Vai-se de Lisboa ao Porto ou a Castelo Branco em duas horas e meia. Daqui a pouco tempo, também já não se leva mais de duas horas e meia do Porto a Bragança. As ligações do País não são o que eram há dez anos e não faz sentido tratar a regionalização como há dez anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: O que significa, na prática, «não ser totalmente contra a regionalização»?&lt;br /&gt;Não aprovo o velho modelo, o modelo do tempo em que todos os partidos estavam na oposição. E espero que a sensatez impere. Que seja feita para promover o desenvolvimento regional e não para servir outros interesses.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;6.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;K: Qual é, para si, o grande obstáculo ao desenvolvimento económico?&lt;br /&gt;Crescemos nos últimos anos a 4 por cento, uma boa taxa de crescimento. Mas reconheço: a Iniciativa e capacidade empresarial são escassas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Em quê?&lt;br /&gt;Sobretudo em matéria de internacionalização da economia. Muitos empresários pensam só no mercado português e deviam pensar no mercado europeu. E, para actuar no mercado europeu, não basta mandar daqui um telex a anunciar que se vendem sapatos ou outra coisa qualquer. Nada dispensa a presença efectiva no exterior e uma estratégia de internacionalização, visando principalmente a criação de circuitos de distribuição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Quanto a si, donde vem a fraqueza dos empresários portugueses?&lt;br /&gt;Da economia um pouco fechada à competição com um forte paternalismo estatal anterior ao 25 de Abril, e também posterior ao 25 de Abril; talvez da tradição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: O mercado obrigacionista está razoavelmente bem e o de acções está razoavelmente mal.&lt;br /&gt;A apetência pelo risco não é muito forte. Nunca foi. A Bolsa só teve uns picos em 1973 e em 1987. Apesar de sermos um dos países do mundo com maior taxa de poupança. Porquê? Porque basicamente os portugueses aplicam a poupança em depósitos a prazo. Entre 1974 e 1984, os únicos instrumentos financeiros que existiam eram, aliás, os depósitos a prazo e os títulos do Tesouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não me parece uma tendência muito animadora.&lt;br /&gt;Neste momento há muitos instrumentos financeiros à discrição e há sinais positivos. Por exemplo: 250.000 pessoas compraram acções das empresas reprivatizadas. Mas não se recupera de anos de atraso e desconfiança do dia para a noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: A modernização da economia não implica um aumento considerável do desemprego?&lt;br /&gt;Os economistas dizem que é praticamente impossível obter simultaneamente emprego, desinflação, crescimento e controlo das contas externas. Acredito que seja difícil, mas também acredito que hei-de conseguir realizar uma combinação bastante razoável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Como?&lt;br /&gt;A taxa de desemprego anda à volta dos 4 por cento. Se subir para 5 ou 6 ainda será a mais baixa da Europa. Em Espanha está a 15 por cento e não provoca traumatismos sociais graves. Claro que, em Portugal, muitas empresas vão fechar mas outras vão abrir. O que importa é os trabalhadores arranjarem novo emprego a curto prazo. No Vale do Ave, tem acontecido isso: o número de pessoas inscritas no desemprego é reduzido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não sobrestima a capacidade da iniciativa privada, que aliás lhe parece «escassa», e a mobilidade dos trabalhadores?&lt;br /&gt;Não. Com um forte investimento em infra-estruturas (que favorece investimentos de outra natureza), com um forte investimento estrangeiro (3 biliões de dólares por ano, dez vezes mais do que em 1985) com o investimento privado, que gostaria que fosse inovador e agressivo e com programas para promover a adaptabilidade dos trabalhadores, acho que se fará a modernização sem custos excessivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E os 18 por cento da população activa que continuam na agricultura?&lt;br /&gt;Uma percentagem muito alta, sem dúvida. E uma população sobretudo de idosos e de analfabetos que não encontrarão emprego na indústria e nos serviços. Existe para alguns deles a possibilidade de um programa de reformas antecipadas. E durante muitos anos ainda a agricultura terá um desemprego oculto e, por consequência, baixa produtividade. Mas não prevejo saídas em massa e desemprego em massa no sector.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Um notável optimismo.?&lt;br /&gt;Não, não sou é um profeta da desgraça. Já preveni a oposição: «se os senhores esperam para os próximos anos a grande recessão, o grande desemprego, a grande crise, acabam com um grande desgosto. Não contem com sapatos de defunto».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Como vê a economia portuguesa do futuro?&lt;br /&gt;Uma economia ecléctica. Com uma indústria sólida, que em vez de fundar a competitividade nos salários baratos e nos produtos de massa, a funde em «nichos» de produção tecnologicamente avançada. Com serviços diversificados - turísticos, financeiros, de seguros, de engenharia... Talvez com mais de 50 por cento da população activa nos serviços. Mas não uma pura economia de serviços.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;7.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;K: Cometeu erros?&lt;br /&gt;Cometi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Por exemplo...&lt;br /&gt;Por exemplo, a forma como introduzi a reforma fiscal, não antecipei a violência das reacções... injustas e de má fé muitas. Em todas as reformas principais julguei que a sociedade podia digerir a mudança mais fácil e rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não podia digerir a reforma do Estado?&lt;br /&gt;Recusei a filosofia da reforma global da administração. Sei onde leva: cria-se um grupo de trabalho, o grupo de trabalho transforma-se em direcção-geral, a direcção-geral em secretaria de estado e a secretaria de estado em ministério. E, no fim, não se avançou nada. Prefiro que se descubram e se extingam um a um os organismos inúteis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Extinguiu o mês passado alguns organismos inexistentes.&lt;br /&gt;A Direcção-Geral da Comunicação Social, inexistente? O INIC, inexistente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não. Mas não me Custava citar-lhe já mais umas dezenas, ou centenas, de organismos inúteis.&lt;br /&gt;E as pedras da calçada a levantarem-se? Cada vez que se quer fechar qualquer coisa - um serviço, um quartel - que devia ter fechado há anos, levantam-se as pedras da calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Com a sua fama de autoritarismo, tende a conciliar muito mais do que se supõe.&lt;br /&gt;O autoritarismo não passa de um rótulo. Confunde-se autoritarismo com determinação, com vontade de fazer, com desejo de assumir as responsabilidades. Como não viro a cara e não mudo de agulha ao primeiro obstáculo, chamam-me autoritário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Recua, pelo menos. Em certas áreas e: em certas alturas recuou. Ou não?&lt;br /&gt;Não sou um obstinado. Há vários caminhos e vários momentos para se chegar ao mesmo objectivo. Ao longo destes anos, claro que fui obrigado a esperar e a ajustar muitas politicas às circunstâncias, mas no essencial não desisti dos objectivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: No caso das propinas vai recuar?&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Por causa das propinas caíram na CE Vários ministros e governos.&lt;br /&gt;Não vou recuar, porque a situação actual é profundamente injusta e é contra os interesses dos estudantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Como apura o efeito das medidas que o governo toma?&lt;br /&gt;O acompanhamento da execução das medidas e o apuramento dos efeitos ou resultados está longe da perfeição: não me importo de admitir. Insisto muito com os ministros neste ponto. Não basta aprovar decretos. Existem milhares de decretos, vindos do passado, que ninguém sabe se foram aplicados ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E além dos ministros?&lt;br /&gt;Tenho assistentes que me ajudam a questionar os ministros. A imprensa ajuda um pouco. A minha experiência directa também, porque ouço muitas pessoas de fora. Tomo notas constantemente e pergunto constantemente como as coisas estão a correr. Agora mandei preparar «livros brancos»: um sobre o sector financeiro, outro sobre a privatização dos serviços públicos… &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;K: Por que não sobre a saúde e a educação&lt;br /&gt;Com certeza. O pior é encontrar pessoas para fazer os «livros brancos». Falo de pessoas independentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Que nota daria ao governo neste capítulo?&lt;br /&gt;Dou uma nota, mas com uma observação. Dou 10, mas acrescento que antes de 1985 dava 4.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;8.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;K: Portugal está na moda?&lt;br /&gt;A frase não é minha, é do Financial Times e do The Economist.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E significa?&lt;br /&gt;Significa que em Portugal existe estabilidade confiança, que vale a pena viver e trabalhar aqui, que vale a pena poupar e criar empresas. Usei essa frase porque neste nosso país às vezes valem mais as palavras que vêm do estrangeiro do que as ideias dos santos da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: «Estar na moda» significa que começamos a ser normais?&lt;br /&gt;No fundo, sim. Em comparação com um período recente da nossa história, em que éramos vistos como um pouco extravagantes, um pouco loucos irresponsáveis; em que andávamos pela mão do FMI, nacionalizávamos, subsidiávamos empresas falidas, fixávamos administrativamente as taxas de juro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;K: Que mais o preocupa no mundo?&lt;br /&gt;Como toda a gente, que se perca o controlo das armas nucleares tácticas e estratégicas da antiga URSS. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;K: Que riscos corre Portugal, em particular?&lt;br /&gt;Principalmente, riscos externos: um novo choque petrolífero seria terrível, ou uma recessão profunda dos nossos parceiros económicos da CEE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Riscos internos?&lt;br /&gt;A desarmonia institucional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não falou da oposição.&lt;br /&gt;Precisamos de uma oposição mais forte. Se ela não existir, aumentam as peregrinações ao Palácio de Belém para pedir ao Presidente da República que faça o que não lhe compete; ou aumentam as manifestações de rua. Prefiro a oposição partidária no seu lugar próprio: na Assembleia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Conta com o PS?&lt;br /&gt;Conto. A crise do PS não vai durar sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Se deixasse agora de ser Primeiro-Ministro, o que é que deixava?&lt;br /&gt;Deixava um país muito mais bem preparado para enfrentar os desafios do futuro e as complexidades da economia moderna: um paí mais sólido, mais confiante em si, mais decidido a avançar e em condições de continuar a avançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Já tivemos outras épocas de desenvolvimento e de optimismo e, no fim, falhámos. E se falharmos outra vez?&lt;br /&gt;Não ultrapassámos ainda o ponto crítico; não estamos ainda a coberto de situações imprevisíveis, de percalços. Como a Espanha, por exemplo. Para atingir a segurança dos países da frente, da Bélgica, da Holanda, falta ainda «um golpe de asa». Foi essa a razão por que continuei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Pensou em retirar-se?&lt;br /&gt;Pensei, muito seriamente, e resolvi continuar. Claro que em todas as pessoas há um pouco a ideia de que são insubstituíveis. No meu caso, não acho que fosse isso que me decidiu. Pensei: «esta luta é minha e tenho de fazê-Ia por mais quatro anos». Em 1995, Portugal já estará no SME e, portanto, qualquer governo fica perante duas alternativas: ou se porta sensatamente ou é expulso para a terceira divisão. Não acredito que alguém corra o risco de ser expulso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Por outras palavras, Portugal não é capaz de se governar bem sozinho?&lt;br /&gt;Já ouvi dizer que os Estados Unidos precisavam de um acordo com o FMI...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: Não me respondeu: a nossa ausência de disciplina interna, exige uma disciplina externa?&lt;br /&gt;A Europa Comunitária limita a tentação de adiar as medidas incómodas, atenua a tendência para a facilidade e a demagogia. Não acho mau. Nós hoje, na CEE, co-gerimos parcelas de soberania; conduzimos políticas interdependentes. Nenhum país conduz as políticas que lhe dá na real gana conduzir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;K: E os políticos portugueses inclinam-se excessivamente para a asneira?&lt;br /&gt;Se olhasse para o passado, diria que sim; se olhasse para depois de 1985, diria que não. Afinal os políticos também aprenderam... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;in &lt;/em&gt;K 12, &lt;strong&gt;Setembro 1991&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-113035448887871932?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/113035448887871932/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=113035448887871932&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/113035448887871932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/113035448887871932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/10/anbal-cavaco-silva.html' title='Aníbal Cavaco Silva'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-112812310319231173</id><published>2005-10-02T19:26:00.000+01:00</published><updated>2006-05-11T11:24:04.650+01:00</updated><title type='text'>O Regresso da Amante</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/amante-716712.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/amante-715260.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:100%;" &gt;Por M S Tavares&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;(por lapso, foi publicitado que este texto seria da autoria de Miguel Sousa Tavares, o que tal não corresponde à verdade. Este texto é da autoria de M S Tavares que nega totalmente qualquer ligação com o actual escritor/comentador. Desta forma, gostaríamos de apresentar as nossas mais sinceras desculpas a M S Tavares) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:85%;" &gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;A redacção do blog K&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;Estávamos todos sossegados a usufruir os direitos da liberdade sexual quando apareceu a SIDA para pôr termo à nossa condição. Reagimos mal e não ligámos nenhuma. Agora, que nos apercebemos de que o caso é sério e grave, demos a volta ao contrário e recuperamos um hábito ancestral: a amante. Ter uma amante. Que prazer renovado, esse…&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="FR"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Il y a des femmes qui que leur bon naturel et la sincérité de leur cœur empêchent d'avoir deux amants à la fois.&lt;/span&gt;&lt;i&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Alfred de Musset&lt;/span&gt;, &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="La Confession" st="on"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="" lang="FR"&gt;La Confession&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="" lang="FR"&gt; d'un enfant du siècle &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;O pânico causado pelo aparecimento da SIDA inflacionou os salários dos afortunados investigadores, dignificou o preservativo e fez renascer das cinzas dos promíscuos anos sessenta os prazeres da conjugalidade. Não há nada como o medo para pôr as pessoas no seu lugar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Contudo, poucos são os matrimónios em que, com o passar dos anos, um ou dois cônjuges não tenham dado pelo menos uma escapadela, vivido um caso, arranjado um caldinho, dado uma voltinha e até - aqui chegamos ao que interessa - tido uma amante à moda clássica. A SIDA terá assustado muitos, mas felizmente ainda há mulheres e homens que não arredam pé dos seus desejos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Ter uma amante é não só manter o respeito pelos laços matrimoniais como também a maneira de não se deixar a si próprio na prateleira. Dito de outro modo, não é o pecado da infidelidade que predomina, mas a renarcisação, na forma mais completa, que é voltar a começar com alguém o que ainda não se acabou com quem tudo tinha começado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Só quem não quer perder quem tem é que vive com naturalidade a vida dupla que ter uma amante requer. Conservar quem se ame sem abdicar de poder amar mais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Sem fazer pouco das juras de fidelidade, acontece que as razões que nos levam a desejar, gostar ou amar alguém além daquela a quem jurámos amor eterno, não são as mesmas que nos levam a mentir ou trair. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Esconder uma relação da outra não é o que dá prazer. É o preço para poder tudo guardar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Desejar, querer ou amar outra não significa necessariamente deixar de desejar, querer ou amar a nossa. Esta espécie de «quero tudo» (difícil de explicar e de ser compreendido pelas mulheres) é que provoca a perversão do engano. Infelizmente, para nós parece que não tem solução. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Há sempre alguém que nos pede uma mentira para a sua felicidade e a nossa culpabilidade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Esconder um caso ou o facto de ter dado uma voltinha não é tarefa particularmente difícil. Só é preciso ser rápido na sedução e não se deixar afeiçoar ao novo conhecimento. Qualquer libertino sabe isso. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.7pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Manter uma relação paralela é uma coisa completamente distinta. São necessárias algumas qualidades (ou defeitos, depende do ponto de vista), além de um sentido de responsabilidade particular. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.7pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Não achamos, como muita gente acha, que a qualidade principal seja a capacidade de mentir. Ter sinceramente duas mulheres que amamos e dividirmo-nos com dedicação não é coisa que se faça com base na mentira, é necessário carinho, dedicação e muitíssima atenção. Ser capaz de mentir só é útil nos casos, cada vez menos frequentes, em que ninguém sabe nada de nada. Aliás, sempre foram poucas as situações em que ninguém sabe nada de nada. Difícil em Portugal, impossível em Lisboa ou Porto, impensável em Braga ou Cascais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;É possível que a mulher legítima - por interesses pessoais, compreensão ou simplesmente amor - aceite a situação triangular sem levantar a perdiz e que apenas peça discrição. Mas é raro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;O lado maçador da infidelidade é a importância que a enganada (deixemos pelo momento a tradicional pouca capacidade de encaixe masculina, e continuemos a falar de um só ponto de vista) pode dar a esse facto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Mas aqui tocamos o centro do problema. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 8.15pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Poder-se-á amar duas mulheres simultaneamente ou, mesmo sem querer, estaremos a ser uns grandes filhos das nossas santas mãezinhas? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Isto é um falso problema, quando pelo menos uma sabe a verdade. Normalmente estamos obrigados a contar a verdade à mulher que menos amamos ou que chega em último lugar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Diga-se de passagem que nunca se conta toda a verdade a ninguém. (Este conselho vale mais que os 400 escudos que pagaram pela revista). Às vezes, nem a nós próprios. Raros são os casos onde a cumplicidade marital não é abalada por um ataque de sinceridade estupidamente confiante. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Se não dizemos a nenhuma das duas a pouca verdade contável, muito provavelmente estamos um pouco apaixonados e muito indecisos. Também existe, dentro desta alternativa, a variante de ser um grandessíssimo sacana, mas isso é mais natural em relacionamentos do tipo «escapadelas» ou «dar voltinhas». Raras vezes isso acontece dentro do sério vínculo que se estabelece com uma amante. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Se contamos alguma coisinha à nossa legítima, por mais inofensiva que possa parecer, estamos claramente a pedir-lhe por linhas tortas uma grande barraca direita. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Se informamos as duas da situação, é porque queremos que elas escolham. Prova irrefutável de cobardia ou de se querer ver livre das duas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Ficou claro, portanto, que o controlo da informação defende o verdadeiro objectivo. Ou seja: um esquecimento, um bufo, ou um estúpido podem estragar coisas que tinham dimensões inofensivas ou, pior ainda, fazer com que alguém fique magoado. Mas esse é o pesadelo típico dos homens que tentam ter o que não lhes deixam que tenham. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Temos a certeza que uma mulher nunca poderá compreender a psicologia sexual masculina. Aliás, é sabido que o homem também não percebe lá muito bem a da mulher. Mas sabemos que a uma mulher apaixonada não lhe interessa especialmente envolver-se com um outro homem. E sabemos que curiosamente um homem pode, apesar de apaixonado, ter um desejo doido por uma segunda, terceira, quarta, etc., sem pôr em causa o amor pela primeira. Se por algum azar há uma mulher horrorizada com este conceito, pedimos desculpa, mas as coisas são como são. Voltemos ao tema. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.05pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;As amantes, graças a Deus, &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;voltaram a ser uma alternativa. Terminaram as orgias, a promiscuidade do engate indiscriminado. Agora podemos amar a nossa mulher e ter outro amor. Não maior, que isso é difícil - mas talvez, com um pouco de sorte, não muito menor. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.05pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.15pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Caro leitor, sabemos que se pergunta: «E uma vida desse tipo é coisa para quanto mais ou menos?". Caro amigo, há uma variedade quase ilimitada de modalidades. Se o seu sonho é «protegê-la» totalmente, é claro que isso lhe pode custar caro. Mas também existe o estilo independente, semi-dependente, antes pelo contrário, etc. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.15pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.15pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;É evidente que o desafogo financeiro ajuda muito. Mas o que é que não se pode fazer quando se tem cacau? Algumas coisas, claro, mas nada que seja grave se se tiver um pouco de saúde e imaginação. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;O que de facto acontece é que as amantes existem novamente e em força, seja qual for a classe social. Aliás, dentro das classes mais conservadoras, a alta e a baixa, nunca deixaram de existir. Só a classe média perde o prazer do clássico na sua procura de parecer alta ou ao tentar &lt;i&gt;snobar &lt;/i&gt;as baixas. Sem esquecer o facto de que uma grande forretice abortará com certeza mais de uma potencial história de amor. Ficam na alegria efémera e auto-suficiente da escapadela ou da voltinha. Dificilmente encontraremos neles a intuição da amante, a vida paralela democraticamente partilhada, responsavelmente devota e regularmente erótica. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Aceitamos que o ponto fraco deste raciocínio é o que acontece se for ao contrário. Por exemplo: ela, a nossa, tem um amante mas continua a amar-nos apaixonadamente. Ele, o outro, é um bom amigo dela, um companheiro desinteressado e bem intencionado. Que é que se faz? Tentar perceber a relação? Ver se essa situação nos favorece? Pedir um certificado médico ao novo? '&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Não. Eu mato-o e a ela dou-lhe uma sova que nunca mais se irá esquecer na vida. Estão a brincar comigo ou quê? Foda-se! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;A &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;AMANTE NA INFÂNCIA&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=""&gt;(Dos &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style=""&gt;0 &lt;span style=""&gt;aos &lt;/span&gt;10 &lt;span style=""&gt;anos) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;É A MELHOR amante, a mais segura, a menos comprometida e exigente, e anima qualquer família moderna. Acima de tudo, porque ninguém acredita que uma criança com 6 anos tenha já a sua namorada de pleno direito e uma amante com quem brinca aos pais e às mães. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;No entanto, sabe-se - e em alguns países, nomeadamente nos EUA, há estudos sobre a matéria - que é entre os O e os 10 anos que o conceito de «segunda mulher» se adquire se interioriza. Nessa altura, a criança não tem necessidade de mentir, uma vez que a legítima não percebe o que se passa e «a outra» ainda menos. Ele, o pequeno macho, aproveita a confusão e diverte-se. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;LOCAIS DE ENCONTRO: Creches, autocarros do colégio, pátio da escola, festas de anos dos amigos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O QUE FAZEM: Brincam. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;POSSIBILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 1 &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 34.55pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;A &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;AMANTE COM BORBULHAS&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=""&gt;(Dos &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style=""&gt;10 &lt;span style=""&gt;aos &lt;/span&gt;20 &lt;span style=""&gt;anos) &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;ESTA é a fase crítica: em princípio, são dez anos de fidelidade canina e total ausência &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;de imaginação (atenção, referimo-nos aos homens. Quanto a elas, esta fase etária é das mais perigosas...). Os problemas do jovem - seja a borbulha, a fase, dos poemas e diários, ou a mania do desporto - impedem-no de se dedicar a mais do que uma namorada de cada vez. Geralmente, a partir dos 15 anos começam a conversar, nos cafés e no Loucuras, sobre a matéria, mas sem consequências. É só garganta. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Têm-se verificado casos raros de contra-indicações, normalmente associadas ao uso concomitante de drogas, baldas às aulas e interesses de carácter menos ortodoxo (do ponto de vista sexual, claro). &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.65pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.65pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;LOCAIS DE ENCONTRO: Pátios dos Liceus, PGA, Zona Mais, Sudoeste, Indústria (Braga). &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O QUE FAZEM: Nada. Dançam e bebem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 9. Dá sempre. Causa directa: inexperiência. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 36.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 36.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O PRINCÍPIO DA AMANTE&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=""&gt;(Dos &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style=""&gt;20 &lt;span style=""&gt;aos &lt;/span&gt;30 &lt;span style=""&gt;anos) &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;ATÉ aos 30 anos, &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;ter uma amante é não só uma excepção como uma grande aventura, rodeada de todos os perigos. É como fugir de casa aos 15 anos, tem o sabor de um fruto proibido (esta podia vir na &lt;i&gt;Grande Reportagem&lt;/i&gt;&lt;span style=""&gt;…)&lt;i&gt;, &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;e por isso mesmo tem um valor, numa escala de zero a dez, praticamente dez. A amante antes dos 30 é aquela com quem, na maioria dos casos, se chega à cama só no momento em que já se viu que está a acabar a história - ou, nos casos mais precoces, quando se descobre a tempo e horas que o primeiro casamento não é, geralmente, o último. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;O resultado, na maioria dos casos estudados, é trágico: uma vez confundidos os cérebros e os corações com a chegada da nova aquisição, diz-se à legítima o que se devia dizer à amante e vice-versa, trocam-se os nomes nos mais românticos jantares e chega-se mesmo ao ponto de convidar a amante a ser amiga da amada. Catástrofe à vista. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;LOCAIS DE ENCONTRO: Plateau, Kremlin, Swing, emprego de um ou de outro, bares indiscretos (Lisboa: Frágil, 3 Pastorinhos, Targus, enfim, os melhores). &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O QUE FAZEM: bebem sem moderação. Pontualmente têm-se registado casos de sexo. É frequente discutirem toda a noite. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 8. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.95pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;A &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;AMANTE ADULTA&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=""&gt;(Dos &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=""&gt;30 &lt;i&gt;aos 40) &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Aqui é que a coisa começa a dar certa: crescidos, já com um ou dois casamentos em cima, os homens aperfeiçoam uma técnica perfeita de acompanhamento de amantes e amadas. O processo mais escrupuloso - e aquele que aconselhamos - é esclarecer de imediato tudo com a amante: explicar que somos casados, que gostamos da nossa mulher, que não desejamos deixá-la, &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;mas &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;que temos um coração do tamanho do Empire State Building, onde cabem mais moças interessantes e bonitas. Se ela quer, óptimo. Se não quer, há mais quem queira. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.65pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Nesta idade, ter uma amante já não é uma aventura mas um dos primeiros sinais de maturidade, imediatamente a seguir à barriga (nessa altura ainda chamada de barriguinha), ao automóvel de cilindrada superior a &lt;st1:metricconverter productid="1400 C" st="on"&gt;1400 &lt;span style=""&gt;C&lt;/span&gt;&lt;/st1:metricconverter&gt;&lt;span style=""&gt;.C., &lt;/span&gt;e ao cartão de crédito cheio de contas de restaurante. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.65pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.65pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;LOCAIS DE ENCONTRO: dentro do carro, hotéis discretos, bares que abrem muito cedo (por exemplo, O Pavilhão Chinês).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.65pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.85pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O QUE FAZEM: almoçam e jantam, sexo. &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.85pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.85pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 4.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.85pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.85pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.85pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;A AMANTE &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;MADURA&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.6pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=""&gt;(Dos &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style=""&gt;40 &lt;span style=""&gt;aos 50) &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.6pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.6pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;É a idade de ouro da amante 'agora recuperada para a moda sexual do universo pós-SIDA. Momento de profissionalismo de fino recorte, a amante depois dos 40 tem a serenidade e a maturidade que falta às restantes faixas etárias. É geralmente uma mulher feliz com a sua vida dupla, que cultiva com prazer as virtudes do seu segundo homem. Ele, pelo seu lado, tem na amante a última prova de uma virilidade que a barriga, já proeminente, põe em causa. É o casal feliz. Ninguém tem já paciência, nesta idade, para chatear o outro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 2.6pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;No fundo, os amantes desta era são bons amigos que se entendem para lá do relacionamento profissional ou, muitas vezes, de amizade entre casais. A amante perfeita chega aos 40, não tenham dúvidas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;LOCAIS DE ENCONTRO: em todo o lado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;O QUE FAZEM: o que têm a fazer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;PROBABILIDADE DE DAR BROCNA (0/10): O. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;AMANTE ATÉ À MORTE&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=""&gt;(Dos &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style=""&gt;50 &lt;span style=""&gt;para a frente) &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;São mais frequentes os deslizes, as faltas de memória, a factura do hotel que vai no bolso da camisa para casa e a legítima amada descobre. Mesmo assim, é uma idade de bronze dos amantes: sem a preocupação fundamental do sexo, esta fase permite--nos recuperar o gosto pela conversa, pelo presente de charme, até pela surpresa de uma virilidade masculina que tem o seu encanto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Depois dos 50, ter uma amante é como ter um carro de corrida: convém pôr o motor a trabalhar de vez em quando, é preciso cuidar deste valor, mas pelo prazer de o manter, jamais pela vontade de acelerar. Esta é a idade do luxo e do prazer, na vida como no sexo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;LOCAIS DE ENCONTRO: Restaurantes de luxo, bares de hotel. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.7pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O QUE FAZEM: recordam, conversam e surpreendem--se mutuamente. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;PROBABILIDADE DE DAR BRONCA: (0/10): 3 (às vezes, a memória falha...).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;in &lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;K&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;nº17&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Fevereiro de 1992&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-112812310319231173?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/112812310319231173/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=112812310319231173&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112812310319231173'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112812310319231173'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/10/o-regresso-da-amante.html' title='O Regresso da Amante'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-112759431056833602</id><published>2005-09-25T23:02:00.000+01:00</published><updated>2006-10-31T01:22:00.643Z</updated><title type='text'>Atenção Judeus</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/judeu-759870.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/judeu-758692.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Por Carlos Quevedo e Nuno Miguel Guedes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;"...O rei de Portugal D. José I tinha ordenado que todo o português que tivesse sangue judeu deveria usar um chapéu amarelo. Alguns dias, mais tarde, o marquês de Pombal apresentou-se na corte com três desses chapéus debaixo do braço. O rei, surpreendido, perguntou-lhe: “O que quereis fazer com tudo isso?” Pombal respondeu que queria obedecer às ordens do rei. “Mas - disse o rei - porque tendes três chapéus? “ “Tenho um para mim - respondeu o marquês - outro para o grande inquisidor e um para o caso de Vossa Majestade desejar cobrir-se”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Cecil Roth, &lt;b style=""&gt;A history of The Marranos&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Este é o povo mais perseguido e paternalizado de todos os tempos. Do ódio gratuito à protecção oficial, conheceram tudo. Em Portugal também. Esta é uma pequena história de como nem sempre fomos de mui brandos costumes. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Não existe nenhum povo tão odiado nem tão protegido como o povo judeu. Consegue dividir a humanidade em extremos que vão do anti-semitismo primário e arreigado até à complacência mais miserabilista. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Como assinalou Leon Poliakov na História ido Anti-semitismo, mesmo as apologias do judaísmo viraram-se muitas vezes contra os seus autores, produzindo o efeito contrário. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Terá sido a arrogância do povo eleito que provocou esta tradição persecutória? Ou, pelo contrário, foi a humildade da vítima que criou o monstro de intolerância que é o anti-semitismo ancestral? A propósito, convém ter em atenção o que Poliakov afirma no livro já citado: "As perseguições que aguçavam o sentido de justiça dos judeus incitavam-nos também a deter-se nelas, às vezes até a deleitarem-se no seu papel de vítimas, coisa que de facto foi o seu papel do ponto de vista histórico; e não há dúvida que um semelhante deleite estimula a tentação dos verdugos." Tudo começou seis séculos antes de Cristo. É durante o primeiro exílio forçado na Babilónia, a primeira e mais antiga das Diásporas, que se formula a essência do judaísmo com a redacção definitiva do Pentateuco - os cinco primeiros livros das escrituras, que funcionam, como código religioso e legal para os judeus -, a lealdade ao Sião, o fim dos vestígios de idolatria; mas, sobretudo, o início da internacionalização do povo judeu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;A tradição internacionalista e cosmopolita do povo hebreu tem o seu verdadeiro início na altura da invasão Babilónica, em 586 a.C. Esta data coincide com o exílio em massa dos israelitas: estava estabelecida a primeira Diáspora. E é aqui que nasce o judaísmo como sistema de ideias. Os judeus integravam-se facilmente nos povos da Ásia Menor, África do Norte e Península Ibérica. Étnica e socialmente, a integração decorria sem problemas. Era o culto que acentuava as diferenças: o monoteísmo impedia-os de se renderem aos deuses romanos e guardar o &lt;i style=""&gt;Sabatt&lt;/i&gt; trazia-lhes situações complicadas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Muitos autores da antiguidade indignavam-se com o proselitismo activo dos hebreus. Para os cépticos, lembramos que o dever de pregar os ensinamentos de Deus já vinha dos Profetas. «Foi dirigida a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amati, a qual dizia: levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e prega nela...» (Jonas, I, 1-2). Outras provas da dispersão ou proselitismo hebraico são a existência de judeus etíopes, que há pouco tempo voltaram a Israel. Na China, encontram-se reminiscências da cultura hebraica na província de Honam - chineses que não comem carne de porco e que eram circuncidados. No Japão, palavras fora de qualquer etimologia tradicional provam a existência remota de judeus e templos abandonados têm inscritas as palavras "David" ou "Israel". Há quem diga que o termo “Samurai” vem de “Samaria”- uma região da Galileia -, interpretação que coincide com a tradição segundo a qual os Samurais descendiam de uma tribo vinda do extremo do continente asiático. Na Índia, ainda hoje existem os Beni Israel ou Shauvar Telis (prensadores de óleo de sábado) nas regiões de Bombaim, os judeus negros em Cochim e Malabar.&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Um Judeu chamado Jesus&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/judeu1-787209.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/judeu1-784783.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;O aparecimento do cristianismo foi o grande acontecimento na história do judaísmo. Uma religião que reivindicava o mesmo Deus, com uma militância proselitista irredutível e cujos targets eram absolutamente indiscriminados, só podia ser um terremoto para o pacífico povo judeu. Se conseguirmos pensar como os hebreus, os primeiros cristãos eram pura e simplesmente hereges. Sobretudo no início, a evangelização limitava-se ao próprio povo judeu, sendo por isso um problema absolutamente interno. Mesmo os romanos não faziam, até ao século 11, grande distinção entre judeus e cristãos. Mas são as características e idiossincrasia judaicas que sugerem um êxito limitado por parte dos cristãos e que os fez, de facto, dirigirem a mensagem de Cristo para os não-judeus. Do ponto de vista da lógica da sobrevivência religiosa, era mais inteligente por parte dos cristãos responsabilizar os judeus que o tinham renegado do que os romanos que o tinham de facto matado. Os romanos não só eram a polícia, a potência dominante, mas também o território. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Na origem do cristianismo podemos também prever o nascimento não do anti-semitismo mas do antijudaísmo. Com efeito, à medida que avançamos na história, encontramos esta constante negação cristã das suas origens judaicas. Pouco a pouco, tenta-se tudo para apagar da memória do povo cristão o estreito parentesco que os une aos judeus. Até o nome daquele que traíra o Redentor – Judas – é um derivado do patronímico da terra de origem dos judeus. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;É com o início da Primeira Cruzada, pregada pelo Papa Urbano II, em 1095, que encontramos registados os primeiros massacres contra os judeus. Se são conhecidos os objectivos comerciais das Cruzadas, também são conhecidos os benefícios espirituais - indulgências - com que eram contemplados os participantes de tais empresas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;O primeiro genocídio data do século XII. Foi na cidade de Rottingen, na Francónia, e por causa de uma hóstia profanada. Um tal Rindfleish amotinou a população que massacrou todos os judeus da cidade, alargando a sua vingança a toda a Francónia e Baviera. Fala-se de 100.000 judeus mortos. Com os massacres de 1096, começou a estação de caça ao judeu que teve o seu auge na Segunda Guerra Mundial. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Perante a legalização: do anti-semitismo com a lnquisição, os judeus, especialmente os judeus ibéricos, tinham poucas alternativas de sobrevivência. Emigrar era uma delas, mas poucos tinham a possibilidade de refazer uma nova vida num país estrangeiro. A conversão era mais acessível, mas nem sempre era uma garantia de salvar a vida. Era muitas vezes a possibilidade de escolha da maneira como se queria morrer. Os que decidiram mudar de confissão deram origem a uma nova categoria de fiéis: os cristãos-novos. É fácil perceber que um cristão converso perante a ameaça da fogueira não podia obviamente dar muitas garantias de fidelidade. "Deixava de ser um mau judeu para se tornar um péssimo cristão", como escreveu Menendez y Pelayo. Podiam acontecer duas coisas: ou o cristão pouco convicto acabava por adquirir essa convicção após uma ou duas gerações, ou fazia de conta que era cristão e praticava secretamente a fé do povo de Israel. Este segundo caso é um dos acontecimentos mais impressionantes da história da humanidade. &lt;i style=""&gt;Marranos&lt;/i&gt;: era como se chamavam estes judeus clandestinos. Abdicando exteriormente de tudo que os pudesse desmascarar, confundiam-se com os cristãos: nome, práticas, língua. Mas no fundo dos seus corações continuavam, tal como antes, a adorar apenas o Deus do Antigo Testamento. À ancestral culpa judaica alimentada por um Deus protector mas ciumento, autoritário e vingativo, estes criptojudeus juntaram um novo tormento: negar quem se adora para poder continuar a adorá-lo. Em Portugal, a comunidade de Belmonte tem uma história semelhante. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;NÓS, JUDEUS&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Desde a sua chegada à Península até aos dias de hoje, os judeus tiveram sempre um papel importantíssimo na vida de Portugal e Espanha. As primeiras provas documentais da existência de judeus no futuro território de Portugal datam do século VI ou VII da nossa era. Mas já trezentos anos antes a Igreja Católica mostrava a sua má-vontade com o povo hebraico ao estabelecer várias restrições aos cristãos no seu relacionamento com os judeus (Concílio de Elvira). No entanto, esta atitude claramente anti-semita nunca foi muito significativa no que diz respeito à convivência da população portuguesa com a comunidade judaica. Quando D. Afonso Henriques conquista Santarém, em 1147, serve-se da comunidade judaica que aí vivia como colonizadora e povoadora do novo reino que se formava. Aliás, quando o nosso primeiro rei entrega a Yahia Aben-Yaisch o controlo total da arrecadação das rendas públicas, inaugura a política proteccionista que continuará, com maior ou menor significado, até ao reinado de D. Manuel I. Os monarcas precisavam dos judeus, sobretudo por razões económicas: estes não só possuíam largas fortunas pessoais que ajudavam a corte a sobreviver, como também estavam obrigados a pagar pesadíssimos impostos e tributos Por isso ocupavam altos cargos públicos (normalmente associados com assuntos do Tesouro), contribuindo para manter baixa tensão entre a população cristã e a comunidade hebraica. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Os reis portugueses viam-se muitas vezes divididos entre as necessidades efectivas das suas cortes e o dever para com a Igreja Católica, que nesses tempos era &lt;i style=""&gt;lobby&lt;/i&gt; de respeito. Muitos foram os conflitos com o clero só porque os nossos reis não obrigavam os judeus a usar distintivos ou a pagar dízimos. D. Dinis, por exemplo, embora tenha decretado leis que punham em causa a palavra de um judeu contra a de um cristão, além de ter acatado as disposições do Concílio de Latrão, nunca se desviou da política geral de protecção dos judeus. O filossemitismo é imagem de marca dos soberanos nacionais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Mas a verdadeira manifestação de anti-semitismo dá-se com a expulsão dos judeus ordenada por D. Manuel I, em 1496. Isto seguiu-se à expulsão dos judeus de Espanha por D. Fernando e D. Isabel, decretada quatro anos antes. Muitos dos judeus espanhóis refugiaram-se em Portugal, o que veio a causar grande instabilidade social. As epidemias do final do século XV levam o povo a atribuir as culpas aos novos refugiados. Estes factores, adicionados às pressões dos Reis Católicos de Espanha (e às da Infanta Isabel, que só aceitaria casar com D. Manuel quando Portugal estivesse purificado de judeus) levam o rei português a decretar a expulsão em Dezembro de 1496. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Só que este decreto não tem o mesmo significado que o espanhol: D. Manuel sabia como os judeus são essenciais para um país em expansão territorial. Dentro da comunidade hebraica, para além de grandes fortunas, existiam grandes intelectos: médicos, matemáticos, cientistas. Por isso, dá ao judeu a possibilidade de ficar em Portugal mediante conversão, ao mesmo tempo que utiliza todos os recursos para forçar essa conversão. O prazo de expulsão é também maior: dez meses para abandonar o país, em contraste com os quatro meses espanhóis. Durante esse tempo, D. Manuel não faz preparativos para o embarque dos judeus; manda retirar as crianças judias às suas famílias e educá-Ias em famílias cristãs; isenta de inquérito ou perseguição religiosa todos os cristãos-novos durante vinte anos, o que na prática significava que mesmo depois de baptizados poderiam continuar a ser judeus; e, finalmente, no momento do embarque, manda baptizar à força os últimos renitentes. Assim, a maior parte dos judeus fica em Portugal como cristãos-novos. A comunidade judaica desaparece, enquanto entidade autónoma. Mas os judeus, as suas fortunas e as suas capacidades de trabalho, permanecem no país, ao serviço do reino. D. Manuel pode proclamar a "limpeza"de Portugal e ao mesmo tempo desfrutar do que sempre possuiu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Até ao estabelecimento da Inquisição em Portugal, o anti-semitismo viveu &lt;st1:personname productid="em crescendo. A Igreja" st="on"&gt;em  crescendo. A Igreja&lt;/st1:personname&gt; estimulava o ódio: em 1506, frades dominicanos chefiaram uma das maiores matanças feitas em Portugal contra os judeus. E tudo porque um cristão-novo teve a enorme infelicidade de tentar explicar um reflexo estranho que se via num crucifixo (provocado por um raio de sol, provavelmente) e que o povo via como sinal divino. Resultado: o infeliz foi levado para o adro e ali mesmo queimado. Seguiu-se uma tresloucada caça ao judeu que não poupou nem mulheres nem crianças. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Em 1536 surgiu a lnquisição. Embora tenha sido mais moderada em Portugal do que em Espanha, convém não nos enganarmos porque o anti-semitismo luso não era pouco. E a não ser a lusitana moderação, pouca diferença encontraremos entre a lnquisição portuguesa e a espanhola. Os números mostram bem que os rapazes do Santo Ofício não brincavam &lt;st1:personname productid="em serviço. De" st="on"&gt;em serviço. De&lt;/st1:personname&gt; &lt;st1:metricconverter productid="1536 a" st="on"&gt;1536 a&lt;/st1:metricconverter&gt; 1821 existiram 750 autos-de-fé em Lisboa, Coimbra e Elvas; foram julgadas cerca de 40.000 pessoas e mais de 30.000 foram condenadas. Dessas, 1175 seriam executadas por garrote ou queimadas vivas. É evidente que se compararmos estes números com os da Inquisição espanhola, a nossa padecia de uma piedade sem limites. Mas a tragédia está no facto de estes números terem existido. Ainda a propósito, e só como curiosidade, recordemos um estudo interessante de Alexandre Gusmão (irmão de Bartolomeu de Gusmão, o padre da Passarola Voadora), onde provava, através da análise das genealogias dos Grandes Inquisidores, que todos eles tinham uma maior ou menor dose de sangue judeu... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;O anti-semitismo conheceu grande popularidade no princípio do século. Em 1924, Mário Saa publica o célebre &lt;i style=""&gt;A Invasão dos Judeus&lt;/i&gt;. O título já dizia tudo, mas os nomes dos capítulos reforçam a ira anti-semita: "Invasão do Sangue", "Assalto à Riqueza", "Assalto ao Estado", "Assalto à Religião", "Assalto à Vida Mental". Nesta última parte, Mário Saa chega mesmo a contrapor os intelectuais não judeus (arianos) aos judeus, comparando-os através de sinais físicos. Entre a lista de intelectuais judeus, encontramos Fernando Pessoa, Raul Leal, António Ferro, Almada Negreiros. Com a exaltação dos nacionalismos favorecidos pelo Estado Novo, é fácil encontrar mais radicalismos anti-hebraicos &lt;st1:personname productid="em Portugal. Em" st="on"&gt;em Portugal.  Em&lt;/st1:personname&gt; 1948 (ano da constituição do Estado de Israel), o jornal &lt;i style=""&gt;A Nação&lt;/i&gt; - "semanário da actualidade política e literária" que ostentava um integralismo deturpado e um fascismo ferocíssimo - publicava na sua edição de 17 de Julho um artigo com o título "Os judeus... são judeus". Para bom entendedor, eis alguns excertos iluminados: "A guerra da Palestina, a proclamação do Estado judaico e a agitação que se apoderou de todo o mundo, acentuaram, com mais vigor que cinquenta discursos de Hitler, a realidade do problema judaico e a gravidade do mal." Assina o artigo &lt;i style=""&gt;Christianus&lt;/i&gt;... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;Terá a sociedade ocidental necessidade de um povo a quem odiar? Quer dizer, foram os judeus como poderiam ter sido os ciganos ou os loiros? Sem dúvida que não. O anti-semitismo não pode reduzir-se a uma mera questão racista. Porém, podemos pensar que um primeiro ódio religioso deu lugar a outro, este racista. Embora ainda não se tenha dito a última palavra sobre a hereditariedade genética, não acreditamos na transmissão de uma mentalidade ou característica hebraica. É ridículo. Mas acreditamos numa identidade ou personalidade judaica intrínseca a um povo que através dos séculos se habituou a ser o bode expiatório das comunidades em que vivia sem conviver. Infelizmente, é claro que os estereótipos anti-semitas transmitidos de geração em geração nos hão-de sobreviver. Shylock de Shakespeare continuará a ser O judeu. Também Horácio, Tácito, S. Tomás de Aquino, Maquiavel, Cervantes (este muito provavelmente um cristão-novo), Voltaire,. Dickens, Nietzsche, Pound e muitos mais, - contribuíram para a cultura anti-semita dando mais elementos para formar o judeu a abater. De Abraão até Marx, Freud e Einstein ou da Babilónia até Auschwitz este povo guarda muitas respostas. Mas nós não podemos deixar de procurar as razões da barbárie cometida através dos séculos. O judeu continuará a ter de demonstrar a sua inocência numa cultura que já o declarou culpado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;in &lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;K nº 5,&lt;/span&gt; &lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Fevereiro de 1991&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-112759431056833602?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/112759431056833602/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=112759431056833602&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112759431056833602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112759431056833602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/09/ateno-judeus.html' title='Atenção Judeus'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-112715221874797937</id><published>2005-09-19T18:47:00.000+01:00</published><updated>2005-09-19T18:50:18.753+01:00</updated><title type='text'>A capa da K</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Capa1-794567.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Capa1-789735.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Uma Capa Memorável...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-112715221874797937?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/112715221874797937/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=112715221874797937&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112715221874797937'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112715221874797937'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/09/capa-da-k.html' title='A capa da K'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-112708726420561818</id><published>2005-09-19T00:41:00.000+01:00</published><updated>2006-09-20T19:36:10.326+01:00</updated><title type='text'>Sr. Professor Vergílio Ferreira</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/srprofessor-776373.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/srprofessor-775447.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Por:&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pedro Rolo Duarte&lt;/span&gt;&lt;br /&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;  &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Sentado no seu cadeirão castanho, Vergílio Ferreira esperava um entrevistador. Apareceu-lhe um antigo aluno do Liceu de Camões. O professor voltou a falar-lhe no caderno diário, nas faltas, nos exercícios escritos. E voltou a dizer, como sempre, que nunca gostou de dar aulas, e que hoje vive apenas para escrever. Mas, por uma hora e meia, regressou ao passado e deu matéria. A matéria toda que o aluno queria ouvir. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;O PROFESSOR não sabia, não se lembrava do nº 2ó daquela turma mal comportada do 11º ano do Liceu de Camões. Mas eu lembro-me bem dele: caminhava pelos corredores de mãos atrás das costas, ligeiramente curvado para a frente e era assim que entrava na sala, sem um sorriso, uma palavra, até que todos estivessem sentados e calados. Então começava a correcção do trabalho de casa e mais uma aula densa, fria, chata, cheia de gramática e apontamentos e perguntas a que nunca sabíamos responder. Uma vez por outra, chegava um "ponto". Uma vez por outra, uma aula sem matéria para dar, só com o professor tentando o diálogo, falando das árvores da Praça José Fontana ou de um livro que devíamos conhecer. Naquela turma não gostávamos muito do professor &lt;b style=""&gt;Vergílio&lt;/b&gt; Ferreira e comentávamos o facto de ser público - estava escrito na &lt;i&gt;Conta Corrente &lt;/i&gt;- que ele detestava dar aulas. Detestei essa ideia e, tendo os seus livros em casa, comprometi-me a jamais lhes tocar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Até que um dia, há poucos anos, quebrei o compromisso e abri ao acaso um volume da &lt;i&gt;Conta Corrente. &lt;/i&gt;Devo ter lido algo deste género: &lt;i&gt;"E agora que fazer? Gostava tanto de levar até ao fim os dois livros começados. O romance. Sei agora mais claramente o que queria. O périplo de uma vida à procura da &lt;/i&gt;palavra. &lt;i&gt;Viemos ao mundo para a encontrar. A palavra total, a que nos diga inteiros, a que nos diga a vida toda. Procurei a minha e não a encontrei. E estou a chegar ao fim. Ou encontrei apenas a do silêncio. Ou a palavra enigmática que a mãe do narrado&lt;/i&gt;r &lt;i&gt;desse meu romance &lt;/i&gt;Para Sempre &lt;i&gt;lhe diz ao ouvido à hora da morte e ele tenta entender através da vida inteira." &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Comecei a ler os romances, os romances todos, tudo, e escrevi-lhe uma carta, que nunca mandei, a pedir desculpa por não &lt;span style=""&gt;o&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;ter lido antes. E agora estou à frente do escritor a contar-lhe esta história e a pedir-lhe, humildemente, que comente a minha própria atitude. Diz que "mais vale tarde do que nunca" e sorri, como só um professor sorri. Sentado num cadeirão castanho, rodeado de livros por todos os lados, o professor fala: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;É talvez a primeira vez que alguém dá essa ideia de mim, enquanto professor. Têm-me referido alguma austeridade, um homem de poucas palavras, mas a isso é contraposto sempre &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;professor afável e tolerante. Não me lembro de pretender ser rigoroso. Havia, é verdade, uma coisa que me incomodava muito, que era &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;aluno distraído, a conversar para &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;lado &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;mas sempre que &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;detectava, atribuí a mim a culpa, entendia que era uma deficiência, sentia-me vexado, diminuído. A minha reacção nunca era castigar &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;mas dizer coisas que interessassem &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;aluno, tentar segurá-lo e captar-lhe a atenção. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.5pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Mas era muito rigoroso, por exemplo, com a manutenção do Caderno Diário, coisa que rapazes com 17 e 18 anos já achavam que era exclusivamente da sua conta... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.5pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Ah, mas isso eram as regras do jogo. Eu tinha &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;hábito de, no fim de cada período, folhear os cadernos dos alunos, e acho que estava certo: se um aluno não tem &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;caderno diário em dia isso significa que está ausente das matérias, que não se interessou. O caderno diário é útil no dia-a-dia. Mas, sinceramente, nunca me julgaram assim tão rigoroso, embora ache natural que, se &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;senhor antipatizava comigo, não lesse a obra do escritor. Não sei &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;que hoje pensa do que pensava, mas presumo que, olhando da sua idade adulta para essa idade juvenil, algo se tenha alterado. Eu sempre fui contra &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;professor mandão, sempre descontente, marcando faltas de castigo, sempre fui contra tudo isso. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.75pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K: &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Embora detestasse dar aulas e assumisse essa opinião publicamente... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Olhe, nunca &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;ocultei porque cumpri sempre. Conheço professores que diziam gostar imenso de dar aulas &lt;/i&gt;- e &lt;i&gt;eram professores que não davam as matérias, não faziam exercícios, nada. Ora, como eu tinha a consciência tranquila de cumprir, de ensinar como podia &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;que tinha de ensinar, estava à vontade para dizer que não gostava de dar aulas, porque não gostava mesmo! Estou, por outro lado, convencido de que, se me pusessem perante as duas hipóteses &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;ser apenas escritor ou ser escritor &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;ter uma segunda actividade, por exemplo, ensinar &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;eu preferiria sempre a segunda. Dedicar-me apenas à actividade literária significaria afogar-me na escrita, na leitura, perder contraste. Assim, depois de uma manhã de aulas, sentia-me livre para começar outra coisa &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;a escrita saía mais original, mais virginal. &lt;/i&gt;Se &lt;i&gt;vivesse de manhã à noite mergulhado na tarefa literária, aquilo que escrevesse não teria a mesma vitalidade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Então foi importante, para a carreira do escritor, a actividade do professor? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Sem dúvida que sim. Sabe, quando era rapaz era melhor aluno a ciências do que a letras. Fui para letras porque tinha aprendido latim no Seminário e resolvi capitalizá-lo, pô-lo a render, tirando um curso que por outro lado eu presumia dar-me rapidamente uma colocação. Não escolhi mal. Hoje, possivelmente, teria optado por outra secção, talvez filosofia, ou românicas. Mas deixe-me dizer-lhe que tive prazer em algumas aulas, em alguns momentos. Em Évora, por exemplo, dei literatura todos os anos, e escolhia sempre uma aula por semana para aquilo a que chamava paleio, conversa. Nessa aula, eu falava-lhes de literatura contemporânea, arte, levava-lhes álbuns com quadros de Picasso, Matisse, e era estupendo... Já em Bragança, onde tinha estado um ano, na altura em que os americanos estavam na berra &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;- o &lt;i&gt;John dos Passos, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;Steinbeck, entre outros &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;eu dava a conhecer esses nomes, essas obras. A um moço de Bragança, que muitas vezes nem sequer tinha visto &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mar, falar-lhe de um autor que ele não conheceria tão depressa de outra forma era uma maravilha. Eu não gostava realmente de dar aulas, mas às vezes agradavam-me esses momentos, sobretudo quando sentia que os alunos estavam a abrir os olhos... isso &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;comovedor,&lt;/i&gt; &lt;i&gt;é emocionante... Agora, ir para uma sala dizer &lt;/i&gt;'ó &lt;i&gt;menino, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;sujeito, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;predicado, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;complemento’, &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;realmente uma chatice! É necessário, mas há coisas absolutamente necessárias que se não gosta de fazer, não &lt;/i&gt;é? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.75pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Tem a noção de que o seu &lt;i&gt;nome, &lt;/i&gt;no tempo em que estava no Camões, se confundia com o próprio Liceu? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Não, de maneira nenhuma. De resto, a pensá-lo teria sido já muito antes, quando estava em Évora, numa altura em que o meu nome já era conhecido.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Qual era a relação que estabelecia com os seus alunos? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Bom, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;é &lt;i&gt;outra matéria-prima, a de Lisboa, muito diferente da de Bragança ou até de Évora. A cultura faz-se com &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;ambiente, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;ambiente familiar, um filme que se vê, uma conversa no café, enfim, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mundo exterior. É evidente que um moço de Lisboa é mais desenvolvido, mentalmente, e por isso mais fácil de ensinar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Quando saiu o &lt;i&gt;Até ao Fim, &lt;/i&gt;depois do &lt;i&gt;Para Sempre, &lt;/i&gt;explicou os seus títulos referindo-se à degradação e perda dos valores por parte da juventude. Não consigo perceber a relação, tanto mais que já tinha deixado de dar aulas, já tinha abandonado esse convívio directo com os alunos... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Bom, deixei de dar aulas mas não deixei de estar atento ao que se vai passando. A verdade &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;é &lt;i&gt;que, quando era miúdo, eu e as pessoas da minha geração tínhamos pais &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;eu tinha os pais emigrados, mas tinha umas tias... que nos impunham os seus valores &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;e nós não discutíamos. Um miúdo não discute, &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;até certo ponto passivo e, no que diz respeito a valores que &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;transcendem, ainda discute menos. Mandam-no ir à missa e ele vai. A minha geração ainda encontrou determinados valores &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;por exemplo, políticos. Não podemos esquecer que &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;comunismo teve extremo peso na mobilização de muitos jovens. Ora, quando se verificou ser &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;comunismo um logro &lt;/i&gt;- o &lt;i&gt;maior do século vinte &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;todos os mitos se esvaíram. Ele era &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;eixo central de todos os valores. Em face de quê, hoje, um pai impõe um valor a um filho, se ele os não tem? &lt;/i&gt;Sê &lt;i&gt;honesto &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;mas sê honesto porquê? O rapaz não pergunta mas sente. A juventude de hoje está desarmada de valores que a preparam para a vida. Foi isso que quis dizer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.8pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K: &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;É isso que ainda pensa? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.8pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Bom, eu defendo sempre como último valor &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;porque &lt;/i&gt;é o &lt;i&gt;primeiro de todos &lt;/i&gt;- o &lt;i&gt;homem e a vida. E pressinto que esse valor, da defesa do homem e da vida, começa a apontar genericamente para &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;que se chama ecologia e onde se inclui evidentemente a defesa da vida. Pressinto isso até nesse movimento extremamente equívoco que é &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;pacifismo, a que não adiro (embora, até por preguiça, seja bastante pacífico...). &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Então já há um valor, uma ideia? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Pergunto: terá &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;jovem de hoje um ideal que unifique a vida? Não sei, mas este pode ser um movimento... Sabe, eu fui sempre sensível ao problema da arte &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;é ela a primeira a detectar os movimentos da História &lt;/i&gt;(e &lt;i&gt;a História aqui é um termo cómodo, porque não existe. É um nome onde se metem milhares de factores, as guerras, os livros, tudo...). &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;A História não pára &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;e &lt;i&gt;a arte tem sempre uma palavra a dizer. Hoje, penso que a arte está em grave crise &lt;/i&gt;e, &lt;i&gt;para outros, mesmo no fim. &lt;/i&gt;Se &lt;i&gt;leu &lt;/i&gt;Até ao Fim, &lt;i&gt;há-de lembrar-se da entrevista que &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;jornalista faz à escultora cuja obra era um monte de pedras. Aquilo não era inventado, aquilo era verdade, eu vi aquilo numa exposição de polacos, que tinha um estendal de sapatos velhos &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;um monte de pedras. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;As pessoas desatentas riem-se, troçam, mas a coisa é grave &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;não são eles que chamam àquilo escultura, é a História, ao actuar no lado invisível de nós. A História assemelha-se à água que passa debaixo da areia; a gente não a vê &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;lá à frente ela irrompe outra vez. O erro de Marx foi pensar que podia condicionar a História. Mentira: ela está-se nas tintas para os Marx's, decide sozinha, na consciência ou inconsciência dos homens. Agora, veja bem a ironia da História: pelo uso da praxis científica do marxismo, provou-se que ele próprio era um logro... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Facto que deve ter consolado muito o dr., habituado, num país onde a maioria dos intelectuais é de esquerda, a remar contra a maré... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Foi um consolo, sim. Eu tive a sorte de viver &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;bastante para ver cair os dois fenómenos que mais detestava: o fascismo &lt;/i&gt;e o &lt;i&gt;comunismo. Vi a queda de um &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;de outro &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;a que realmente me surpreendeu foi a do comunismo. Aquilo era, como agora se diz, um &lt;/i&gt;bunker, &lt;i&gt;uma estrutura de cimento armado impenetrável. Mas a História lá se meteu numa fenda, como as plantas se metem por entre as pedras &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;fazem estalar os passeios, &lt;/i&gt;e o bunker &lt;i&gt;estalou. Pude vê-lo, foi bom... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Deram-lhe razão... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Ter razão antes do tempo é errar &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;leva-se de todo &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;lado, atiram-nos pedras. Mas também é acertar: passei um mau bocado, mas estava certo... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.75pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Na &lt;i&gt;Conta Corrente &lt;/i&gt;e em muitas entrevistas assume sempre o papel de mal amado da literatura portuguesa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.75pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;E fui, fui mesmo... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.8pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Mas agora, desde &lt;i&gt;Para Sempre, &lt;/i&gt;é uma unanimidade, toda a gente gosta de si, dos seus livros. Como é que analisa esta mudança? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.8pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Então, relembro-lhe &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;desmoronamento do comunismo... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.3pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Há relação entre uma coisa e outra? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.3pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Então não há? Há uma relação íntima. As pessoas esquecem-se de que, no tempo de Salazar, não havia só a censura oficial, havia também a comunista, que funcionava, como podia, nos jornais, nas editoras, nas revistas. Era aí que se determinava quem era génio (eles não têm medidas, são logo todos génios...) e quem era imbecil. Houve &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o 25 &lt;i&gt;de Abril, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;PC continuou a ter força e depois chegou a &lt;/i&gt;perestroika &lt;i&gt;e aí é que começou &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;problema. Eu lembro-me de um fulano que durante 30 anos me filou a canela e só com a &lt;/i&gt;perestroika &lt;i&gt;a apertar-lhe os queixos é que ele abriu as mandíbulas! Costumo dizer que &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;golpe final foi a queda do muro de Berlim, porque essa gente estava lá dentro &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;e quando caiu &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;muro eu fiquei visível, estava do lado de fora... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; É hoje um homem tranquilo? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Não, não posso, porque sou sempre maior do que eu próprio. Quer dizer: a diferença que vai entre aquilo que se sonha &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;vagamente, claro, porque quando &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;sonho se torna nítido, realiza-se &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;e aquilo que se faz é sempre muito grande. Às vezes, releio os meus livros antigos e de alguns ainda gosto, mas com outros quase cortei relações, não os visito sequer... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 7.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K: &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Quais? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 7.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Ah, isso não digo, isso queriam os outros que não me gramam... E não é só isso: sendo certo que todos os pais têm um filho ou outro de que gostam mais, nunca &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;dizem, não manifestam publicamente a preferência. Eu faço &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mesmo, claro.&lt;/i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.3pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Continua preocupado com o facto de dizerem que se repete, que aborda sempre os mesmos temas? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Bom, isso é &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;drama de todo &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;escritor, ser diferente na igualidade. Costumo dizer que o que há de mais diferente na igualidade é &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mar &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;somos capazes de estar a olhar para ele uma hora seguida, é sempre igual mas é sempre diferente: &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;tamanho de uma onda, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;rebentar de outra, a espuma. Ora, se é possível no mar essa diferença, também é possível no escritor...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 8.15pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Sabe, dr., ainda hoje penso porque é que uma pessoa com vinte e poucos anos como eu, fica fascinada por livros que falam da morte, como os seus, quando esta é justamente a idade em que a morte não existe, não vai existir... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 8.15pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.7pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Nos meus livros há mortos mas não há cadáveres... faz a sua diferença, não é? A verdade é que a morte, a reflexão sobre ela, é para mim uma forma de valorizar a vida &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;tal como é contra um fundo de escuridão que um fósforo aceso se vê. Essa reflexão não serve para nos afundar, mas para a vida irromper mais forte. Eu sou consciente &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;e é em função da morte que para mim a vida tem significado. Na sua idade isto não existe, é verdade, mas é bom que através dos meus livros tome consciência da sua existência. Isso significa que fui útil. Porque é que um jovem não há-de pensar nisso? Neste meu último livro, a morte continua a estar muito presente, mas houve quem me dissesse que, depois de &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;ler, tinha ganho mais amor à vida. Como &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;doente quando volta a ser saudável &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;ou &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;suicida que é salvo a tempo e passa a olhar &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mundo com uma atenção extraordinária, como uma revelação. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 10.05pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Se juntarmos a sua, reflexão ao facto de anunciar sempre que o seu novo livro é o último que escreve... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Ah, sim, mas eu explico: quando escrevo um romance fico sempre com &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;poço vazio. A sensação que tenho é de que já não há mais nada para dizer. Só que, inconscientemente, &lt;/i&gt;a &lt;i&gt;vida encarrega-se de me encher de novo &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;poço. E quando está cheio, transbordo para outro livro. Agora, por exemplo, tenho um romance já esquematizado e falta-me um enquadramento que não &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;aproxime muito de outros que escrevi, como &lt;/i&gt;o Para Sempre... &lt;i&gt;O último livro, &lt;/i&gt;Em Nome da &lt;i&gt;Terra, foi uma sorte, um acaso: surgiu porque, na sequência ia doença de um cunhado, tivemos de &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;internar num, como se chama?, sim, um lar de idosos, que é um nome bonito que eles põem a essas casas. Bom, fui despertado para a situação dos velhos &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;gravíssima, &lt;/i&gt;do &lt;i&gt;ponto de vista social &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;e desses lares. Pronto, tinha &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;problema do romance. resolvido. Agora, estou na mesma situação: à espera que Deus nosso Senhor me conceda um milagre desses...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Na &lt;i&gt;Conta Corrente &lt;/i&gt;sente-se que o arranque de um novo romance é, para o escritor, um drama... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;E&lt;i&gt;u não me lembro de começar um romance continuar por aí fora até ao fim. Nunca. O caso extremo que tenho é &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;de &lt;/i&gt;Alegria Breve: &lt;i&gt;ia com &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;livro a meio quando me disseram: sabes que Melo, que é a minha aldeia, está a ficar desabitada, há ruas inteiras que já não têm ninguém? Dei a clássica palmada na testa e pensei: aqui está &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;enquadramento para &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;meu romance. Tinha a ideia base, que é a da História em suspenso, a de que &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;termo de alguma coisa é sempre &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;começo de outra. O que aconteceu com a &lt;/i&gt;Alegria Breve &lt;i&gt;foi excessivo, mas é normal recomeçar tudo ao fim de dois, três capítulos. Preciso de apanhar &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;novelo e seguir &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;fio. A escrita é que revela &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;romance, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;escritor nunca faz ideia do que vai ser &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;romance &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;é um pouco como criar uma pessoa, ou como um rio: um rio, quando nasce, só sabe que quer ir para &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mar. O trajecto é sinuoso, é definido sem controlo, é a tactear que ele chega ao fim. Como &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;escritor: sei que quero ir para &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mar, mas como vou não sei. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K: &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Já várias vezes disse que o romance tinha os dias contados, não foi? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;É como um saco de pedintes, cabe lá tudo, cabe a filosofia, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;jornalismo, cabe tudo. Assim, lá se vai aguentando, como &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;gato, com sete fôlegos O que &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;pode salvar é a estrutura e a matéria. Aliás, estou com curiosidade em ver que romances vão escrever agora os nossos escritores. Eles terão de fazer longas reflexões porque isto mudou muito, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;mundo mudou todo. É claro que dizer a nossa mágoa é já uma forma de a superar, mas a verdade é que não se podem voltar a escrever livros como &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;Alves Redol... E rasamente lhe digo que, para &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;século vinte, não vejo mais do que um Raul Brandão, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;romance do Sá-Carneiro e um do Régio. Para este século, ficamos por aqui... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Sente-se beirão, naquilo que são as características que geralmente se lhes apontam? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 1.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Exteriormente, não tenho aquela rudeza, a pujança física, a agressividade do beirão. Mas é verdade que interiorizei algumas características: a obstinação disseram-me sempre que, era obstinado. Embora fisicamente pouco viável, vou sempre até ao fim quando me meto numa tarefa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Sou rude, trágico, soturno como a serra da Estrela. E interiorizei a neve, claro, aquele encantamento todo. Sabe que eu sei de cor a Balada da Neve, que é um poema medíocre &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;e até tem um erro de sintaxe... &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;mas de que não consigo deixar de gostar? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K: &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Queixa-se amargamente de Lisboa, confessa-se um beirão. Agora que está reformado podia largar a cidade, não? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Agora não posso. Estou aqui há &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;31 &lt;i&gt;anos, todas as relações estão aqui, temos aqui &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;Lúcio, que criámos, o filho e netos, tudo isso. Lisboa nem &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;uma cidade como Nova Iorque ou Tóquio, aquelas grandes cidades, mas para mim já &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;excessiva. Eu ficava com um quarto da cidade... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Qual quarto? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Olhe, este onde vivo! Ficava com Alvalade e &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;resto podia ir tudo embora. Às vezes penso nas viagens que fiz em Lisboa, pela marginal, que &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;perigosíssima, os problemas de trânsito... hoje já não vou&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Escreveu cinco volumes da &lt;i&gt;Conta Corrente &lt;/i&gt;pronunciando-se sobre tudo e todos, diz que é dos escritores mais entrevistados, pedem-lhe opinião sobre tudo, diga-me: expõe-se dessa forma por dever, por prazer, porquê? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Eu não sei &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;que sou para poder expor &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;que sou, nem estou interessado. Vou aprendendo o que sou com aquilo que me dizem, só isso e aquilo que sei de mim não &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;exponho dessa forma. Não há nada que mais ofenda os outros do que as nossas queixas &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;ficam fulos, está-se a exigir-lhes compreensão e piedade para connosco. Então &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;que &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;que eu faço? Digo sem dizer, dou um traço de ironia, brevidade, enfim, utilizo técnicas que visam a aceitação do leitor sem que me chegue a considerar um chato... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K: &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Tem receio de ser considerado um chato? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Se for na escrita, é mau. Às vezes dizem-me "ah, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;dr. é tão melancólico" e eu, para despachar, digo "sou, sou &lt;/i&gt;". &lt;i&gt;Mas acho que não &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;as pessoas que convivem comigo dizem que sou laracheiro, digo piadas, sou irónico. Agora, quando entro na arte é a sério &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;e tal como &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;Picasso dizia que quando ia pintar deixava &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;corpo lá fora, quando eu escrevo deixo as piadas lá fora... Um pouco como diz a Amália, bem pensado todos temos um fado. Eu tenho este, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;de escrever: e cumpro &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;meu fado. Gosto de escrever e gosto que me leiam. E já agora, que me digam quando gostam. Quanto à vaidade, sou tão vaidoso como os outros, não sou modesto, sou igual a toda a gente. Mas, por exemplo, não gosto de ser reconhecido na rua, sentir aqueles olhos a fitarem-me. É muito desagradável... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Perguntam-lhe pelo próximo romance... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 12pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Pois, se eu soubesse. Mas eu não sei, não sei &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;o &lt;i&gt;que vai ser... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;K:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt; Escreve à mão? Estou a ver ali uma máquina de escrever... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 0.2pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;Ah, sim, a máquina, odeio a máquina, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;é &lt;i&gt;horrível. Mas tem de ser, eu tenho uma letra terrível, somítica. Antigamente tinha os meus dactilógrafos, que a entendiam e que até colaboravam nos livros, metendo palavras deles. Palavras que faziam sentido, claro. Muitas vezes, eu nem dava por elas. Dei comigo, anos mais tarde, a reparar nessas palavras e a pensar "eu não escrevi isto, não era assim &lt;/i&gt;", &lt;i&gt;e depois ia ver &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;original &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;realmente não estavam lá... Mas agora tenho de ser eu a passar. Com &lt;/i&gt;Em Nome da Terra &lt;i&gt;demorei um mês a copiar &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;texto, com enorme sacrifício. Sabe, &lt;/i&gt;é &lt;i&gt;que escrevendo à mão sou logo eu projectado no papel, enquanto com a máquina há &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;bater das teclas, dá cabo dos nervos, é preciso estar sempre a puxar &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;carreto, é um drama, é terrível...&lt;/i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="margin-top: 13.65pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;É quando o professor volta a olhar &lt;i&gt;o &lt;/i&gt;relógio de bolso, uma cebola grande e antiga, e diz que chegámos ao fim. Falámos hora e meia e está fatigado. Mas, voltando dez anos atrás, ainda me diz: "Pronto, faça lá a redacção disto tudo e espero que o que lhe ensinei no Liceu, apesar do rigor, o ajude a tornar esta conversa legível. Sabe que falar e escrever são duas linguagens diferentes. E a fala é já de si expressiva pelos gestos, tom de voz, o que naturalmente a escrita não tem." &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; in&lt;/span&gt; K, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;nº 7&lt;/span&gt;, Abril de 1991&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-112708726420561818?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/112708726420561818/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=112708726420561818&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112708726420561818'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112708726420561818'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/09/sr-professor-verglio-ferreira.html' title='Sr. Professor Vergílio Ferreira'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-112654710159626682</id><published>2005-09-12T18:32:00.001+01:00</published><updated>2006-08-08T13:25:48.096+01:00</updated><title type='text'>O tédio fim-de-século</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/editorial-734651.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="46" alt="" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/editorial-733870.jpg" width="223" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estão os novos pensadores, os novos pintores; os novos políticos, os novos valores, os novos comportamentos? Onde está a novidade? Em lugar nenhum. Acabou-se. Agora e sempre a mesma coisa. As mesmas caras. Os mesmos nomes. As mesmas modas. Está tudo velho. E não é só em Portugal. O século está a cair de podre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há revivalismos retros, classicismos nouveaux, pós-ismos, eclecticismos generosos, pluralismos transdisciplinaridades, novos niilismos e tudo o que se quiser. Toda a tradição existe hoje na sua versão neo. Ate o rococó voltou na sua versão néon. Há neo-tudo. Só não há é novidade. Tudo está por redescobrir, mas nada há pura e simplesmente para descobrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde está a vanguarda? Onde está a ousadia? Onde está a originalidade? Restam apenas as anedotas. Em Lisboa, por exemplo, anuncia-se a construção de um Museu da «Modernidade».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mês passado a K foi criticada, bem ou mal, por ter inventado uma nova geração de portugueses. Fizemos abertamente o que é costume fazer inconscientemente. A Imprensa vive da novidade, de caras novas, das coisas desconhecidas. Quando elas não se impõem só por si «inventam-se». Empolam -se. Exageram-se. Da-se-lhes «a volta». É o que mais se faz hoje em dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos distantes anos 80 havia novos e novidade. Tornaram-se nos cansados clássicos de hoje. Continuam a ser bons, mas cansaram-nos. Os jornais explicaram-nos e espremeram-nos até à última gota. A culpa não é deles. Onde estão os novos para substituir? Onde está a nova musica, a nova escrita, a nova política, o novo jornalismo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos velhos. Estamos tão velhos que até já chegamos à arrogância de dizer que já está tudo visto e que o novo não existe. Foi sempre assim durante os períodos de grande crise. Nas vésperas das revoluções. Antes do novo mesmo novo, brilhante e assustador, &lt;em&gt;vir&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;in&lt;/em&gt; K, nº 5, &lt;em&gt;Fevereiro de 1991&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-112654710159626682?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/112654710159626682/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=112654710159626682&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112654710159626682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112654710159626682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/09/o-tdio-fim-de-sculo_12.html' title='O tédio fim-de-século'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-112611381515445566</id><published>2005-09-07T18:18:00.000+01:00</published><updated>2005-09-08T19:30:49.383+01:00</updated><title type='text'>Uma Aventura com o Dr. Mário Soares</title><content type='html'>&lt;a href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/soares-767983.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 163px; CURSOR: hand; HEIGHT: 212px; TEXT-ALIGN: center" height="259" alt="" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/soares-767514.jpg" width="163" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/soares-777829.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/soares-711505.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Texto:&lt;/strong&gt; Vasco Pulido Valente&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fotografia:&lt;/strong&gt; Público&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;1. No princípio de Janeiro de 1985 e estávamos em pleno «Bloco Central», quando pedi ao dr. Mário Soares que me respondesse a um questionário académico sobre o papel do Primeiro-Ministro. Não lhe falava desde 1979. Ele não tinha apreciado a Aliança Democrática e proclamara, em círculos indiscretos, que me achava «telhudo». Para meu espanto, ele disse que sim e, no encontro, foi extravagantemente amável. À saída, chegou mesmo ao excesso e requinte de ir comigo ao elevador do 2° andar de S. Bento e de me oferecer os seus inestimáveis serviços. Estas vénias, eram tanto mais prodigiosas, quanto ele não ignorava que o «telhudo» escrevia semanalmente sobre ele no Diário de Notícias, coisas celeradas e pérfidas, com o objectivo confesso de o remover de Primeiro-Ministro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Houve outros sinais: um sorriso cúmplice do dr. Almeida Santos que me inquietou; um beijinho público da dra. Maria de Jesus, que me sobressaltou; abraços efusivos de obscuros amigos da família, que me atrapalharam; a remessa de livros com efusivas dedicatórias; e meia dúzia de jantares sem objecto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Admito que à época, sendo muito ténue a minha percepção da realidade exterior, não dei por eles. Ou, pelo menos, não lhes atribuí especial importância. Tirando o estrito e trôpego cumprimento das minhas obrigações na Universidade Católica e no ICS, passava os dias e as noites na cama a embeber o espírito em espíritos e a reler a obra completa de Ludlum. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Só quando António Barreto voltou de um retiro sabático, o caso se esclareceu. O dr. Mário Soares desejava que a minha ornamental pessoa apoiasse a sua candidatura à Presidência da Republica. António Barreto não forneceu pormenores sabre a natureza desse apoio e devo admitir que o assunto também não me interessou. A especialização em Ludlum não me parecia auspiciosa e achei genericamente que sair de casa, fosse para eleger o dr. Soares ou sr. Justerini Brooks, me fazia bem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os trabalhos começaram em Fevereiro ou Março em S. Bento, e consistiam num jantar hebdomadário do presumível candidato com Vítor Constâncio, com Jaime Gama, com António Barreto e comigo, a que intermitentemente assistia um indivíduo denominado Gomes Mota. Nunca percebi as funções desta extraordinária «comissão que, por motivos fáceis de apreciar, e apesar de toda a evidência em contrário, não existia. Vítor Constâncio e Jaime Gama ocupavam preâmbulo com hiperbólicos elogios ao «Mário». Constâncio declarava o ultimo discurso do «Mário» em Aljustrel «magnífico» e, saltando na cadeira, Jaime Gama declarava «magnifico» o ultimo discurso do «Mário» em Aljustrel. Ou Gama declarava «genial» a ultima entrevista do «Mário» e Constâncio ponderadamente explicava que ninguém podia deixar de compreender a «genialidade» da ultima entrevista do «Mário». O «Mário» ouvia estas inanidades com deleite, em parte por elas próprias, em parte porque visivelmente apreciava a competição das duas crianças pelo seu favor. O sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros e o sr. Governador do Banco de Portugal, entretidos um com o outro, não se coibiam. Para nós, para mim e o António Barreto, eles eram o Dupont e o Dupond da lenda e o pretexto de grandes galhofas post-prandiais. Mas nem Dupont do banco, nem o Dupond do ministério se incomodavam com a situação. Em ambos luzia a astuciosa ideia de que em Belém, Soares não tencionava com certeza continuar secretário-geral do PS e ambos visivelmente imaginavam que o chefe os distinguia a bifes e batatas fritas com o secreto intuito de escolher um deles para lhe suceder.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nunca houve uma conversa útil nesses jantares. Houve especulações ociosas sabre os planos do general Eanes, sabre os presumíveis candidatos da Direita (Firmino Miguel, Lemos Ferreira, Freitas) e sabre as mirabolantes intrigas do PSD. Soares contava firmemente com os votos do PSD. O Dupont e o Dupond concordavam e Gomes Mota sibilava fragmentos de frases subtis sabre a Esquerda. Outra escola de pensamento, representada por Barreto e por mim, exprimia algumas duvidas sabre o amor do PSD ao candidato, cepticismo que o candidato tolerava com dificuldade e por mero respeito pela liberdade de expressão. Tinha um acordo leonino com Mota Pinto, segundo o qual o PSD se comprometia a sustentar o «Bloco Central» até 1987 e não lhe embaraçar as ambições a Belém. Entretanto, vinham a Lisboa «especialistas» alemães e americanos oferecer o benefício da sua experiência. Apareciam com zelo e desapareciam com angústia. Ninguém sabia quem era a oposição. Ninguém sabia se Mota Pinto se aguentava na presidência do PSD. Ninguém sabia se Eanes, invocando eventuais desordens no «Bloco Central», inteiramente prováveis, não acabava por dissolver a Assembleia da Republica. Ninguém sabia nada sobre coisa nenhuma. E Soares menos do que todos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De repente, em algumas semanas, caiu o tecto. Mota Pinto, humilhado num Conselho Nacional, abandonou o governo e, para o lugar dele, foi interinamente Rui Machete. Depois, Mota Pinto morreu. E o Congresso do PSD, marcado para a Figueira da Foz, ficou, por assim dizer, sem dona. Que chefe iria produzir aquela desvairada congregação? O enérgico Salgueiro? O coleante Marcello? Pior ainda? Em S. Bento, o candidato berrava como um possesso. Numa tarde qualquer de Maio, recebi um recado para comparecer urgentemente no futuro «espaço Valbom», um prédio em carcaça com meia dúzia de quartos alcatifados. Lá dentro, rodeado por uma corte fúnebre, Soares tentava não aliviar a raiva, partindo cadeiras na cabeça dos dignitários. Logo que entrei mandou calar a canzoada. Precisava de me fazer uma pergunta, uma pergunta fatídica: «Quem é esse Cavaco?».&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pulidamente, inquiri a razão do interesse. A minha vida, oscilando entre a baixa literatura e um alto sentimento, não me permitia seguir com minúcia as peripécias da política partidária. Soares respondeu, atirando-me um jornal por cima da mesa. O jornal informava o público que o Prof. Cavaco Silva fora eleito presidente do PSD. Coube-me, pois, a honra de ser o primeiro a instruir o dr. Mário Soares sobre a natureza da criatura. Registo o profético sumo das minhas palavras: «Não se aproxime dele, não lhe fale, não lhe toque. Não se convença que negoceia com ele. Ele não gosta de negócios, só gosta de contas, e desconfia de si (para pôr as coisas com brandura). Demita-se imediatamente. Informe o país que se fartou das loucuras do PSD e que o PSD quer subverter a ordem e matar os portugueses à fome. Exija eleições. Mas não se meta com o homem».&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O candidato sorriu com estes exageros. Pretendia que Eanes não dissolvesse a Assembleia da República e, depois de 15 de Julho, Eanes ficava constitucionalmente impedido de a dissolver. Cavaco («É Cavaco que ele se chama, não é?») percebia com certeza as óbvias vantagens de evitar o «eanismo» Ou não? Por cinco ou seis semanas, que diabo? Ou não? Asseverei-lhe que não, contemplando a capa dos «Pára-quedas e beijos»., de Erica de Jong, adquirido pouco antes numa tabacaria. Ele não se convenceu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quase no fim dos «Pára-quedas e beijos», o telejornal mostrou o dr. Mário Soares recebendo na sede do PS o Prof. Cavaco Silva. Os jantares de S. Bento foram definitivamente interrompidos e as conferências no «espaço Valbom» também. O Prof. Cavaco levou dez dias a desfazer o «Bloco Central» e o general Eanes mais cinco ou seis a desfazer a Assembleia. Marcaram-se eleições para Outubro e a Fundação Gulbenkian deu-me um subsídio para passar três meses em Oxford. O candidato sem dúvida ruminava vinganças em Nafarros. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Descansei. Mas, na véspera de me ir embora, através de uns «serviços» anónimos o dr. Mário Soares mandou-me de novo apresentar no «espaço Valbom», «espaço» esse em que por um triz não caí do quarto andar pelo buraco do elevador. Na sala para onde me levaram, algumas notabilidades do PS cochichavam em pequenos grupos. Escondi-me atrás de António Barreto e, com serenidade, esperei os acontecimentos. Passados dez minutos, o candidato, seguido pela sombra submissa do dr. Almeida Santos, abriu a porta e designando a assistência com um dedo irritado, anunciou: «Vocês são todos da minha comissão politica». Estabelecido isto e extintos os murmúrios de gozo, começou benevolentemente a expor os seus planos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A essência desses planos era que ele tinha resolvido dedicar-se sem reservas a sua candidatura. Isto pareceu animar de sobremaneira um considerável número dos presentes. Houve mais murmúrios de gozo, sorrisos e meneios aprovadores. Por insondáveis caminhos, a salvação chegara. Chegara, todavia, sob a forma equívoca do dr. Almeida Santos. Como o candidato, se apressou a elucidar os hereges, cabia a essa formidável figura, e seu querido amigo, substituí-lo no partido e no governo, enquanto ele tratava de se alçar a Belém. A gente do PS, já obviamente informada desta extraordinária escolha, não exibiu surpresa. Reparei então na ausência gritante dos gémeos Dupont e Dupond, cujo nariz não se tornou a ver durante a campanha. E reparei também na aura de glória e modéstia que descera sobre o crânio pontiagudo do eleito e na solicitude com que o sindicalista Torres Couto lhe servia um copo de água. Foi um momento de grande emoção. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Almeida Santos bebeu um golo de água, aconchegou a sua fulgurante gravata ao peito e dirigiu-se gravemente aos «comissionados». Ele, Almeida Santos, aceitara sacrificar-se pelo «Mário» e pelo partido. Não ocultava, no entanto, o seu embaraço. Tomava a responsabilidade de conduzir o PS às eleições legislativas, mas, se as ganhasse, quem de facto as ganhava era o «Mário», ao passo que, se as perdesse, as perderia sozinho. Numa palavra, ele, ele próprio, perderia sempre. O tom em que revelou este doloroso dilema, subentendia uma sábia resignação à injustiça humana e o estóico desejo de ajudar «o Mário». &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Considerando o episódio encerrado, «o Mário» mudou prestamente de assunto. As coisas estavam um bocado complicadas, admitiu. «Tinha-lhe morrido o Mota Pinto» e, agora, à Direita, aparecia o Freitas (em vez de um general) e «esse Cavaco», que apoiava o Freitas. Os comunistas, claro, não contavam. Por conseguinte, ele precisava do eleitorado do «centro». Ou seja, o PS precisava de atrair para uso posterior o eleitorado do «centro», com uma campanha moderada e um bom resultado nas legislativas. Quanto ao PSD, ele conhecia o peso: era quase tudo também gente do «centro», gente moderada, que detestava o CDS e o Freitas. Apesar de Cavaco, aliás uma aberração temporária, o PSD votaria nele. Em resumo, a soma era simples: 32 ou 33 por cento do PS mais 22 ou 23 por cento do PSD igual a 55 ou 56 por cento à primeira volta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A «comissão», maravilhada com a subtileza do candidato e a luminosa argúcia dos seus cálculos, sobrou num silêncio reverente. António Barreto, gelado de espanto, examinava o infinito. O meu avião partia para Inglaterra dali a umas horas. Pus o braço no ar. O candidato resignou-se a ouvir as minhas desconcertadas opiniões. Ofereci duas. A de que, tirando talvez o dr. Rui Machete, não existiam PSD's, «moderados» ou «do centro»; e a de que o dr. Almeida Santos, sendo uma patente emanação do dr. Mário Soares, não podia nem ganhar nem perder eleições. Sobretudo, ao contrário do que ele supunha, não as podia perder. O candidato não se comoveu. Agarrou num molho de papelada, levantou-se e disse vagamente na minha direcção: «Isso é o que você pensa». Depois deste irrespondível argumento não valia a pena continuar o debate e a assembleia desfez-se. Despedi-me de António Barreto à porta do «espaço Valbom», com muita pena dele e ainda mais pena de mim. Mas, não me lembro porquê, à noite decidi telefonar ao dr. Mário Soares para repetir o sermão e acrescentar que o dr. Almeida Santos, sem desprimor, representava para a generalidade dos portugueses o pior do PS. O dr. Mário Soares bufava. «Vai ser um desastre», avisei-o. «Não se rale», respondeu ele quase a estoirar, «se for, a culpa é minha». &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;2. No domingo, 6 de Outubro de 1985,o PS foi reduzido a metade pelo PRD. Terça-feira, o meu avião aterrou em Lisboa por volta das quarto da tarde e, às cinco em ponto, entrei com malas e sacos de plástico, contendo garrafas, na sede do MASP. A reunião da «comissão política», convocada na véspera, destinava-se a discutir «a conjuntura». O candidato ficou assaz surpreendido quando me viu aparecer e houve uma pequena comoção na assistência, que aliviou o seu estado de profundo estupor. Sentei-me ao lado de Alfredo Barroso que me resumiu eloquentemente a situação, mostrando o branco do olho. Do outro lado da mesa, António Barreto riu-se por debaixo das barbas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em três meses e meio, a «comissão política» adquirira mais nove ou dez membros, entre os quais distintas inteligências como Manuel José Homem de Mello, Joaquim da Silva Pinto, Clara Junqueiro e «o nosso jovem», vulgo José Apolinário. A conversa consistia em uivos, lamúrias e frases protocolares de confiança. Pairava um ódio especial à «santinha da Ladeira», Manuela Eanes, e os espíritos sofisticados autorizavam-se algumas lucubrações sobre os propósitos dela e do marido. O candidato, de bochecha pendente, meditava ou berrava com os subordinados que entreabriam a porta, sussurrando coisas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando chegou a minha vez, pretendeu saber a opinião fresca de um viajante. «A culpa é sua», declarei com a máxima humildade. Isto surpreendeu-o e fê-lo arrebitar a orelha. Para ele, a culpa era manifestamente de Almeida Santos. «O senhor é que me disse», insisti muito melífluo. «Não se lembra? O senhor disse: você não se rale, se for um desastre, a culpa é minha». Aqui o candidato percebeu o pendor geral da conversa e acabou com ela: «As culpas não interessam. Não interessam nada. Se quer dar a sua opinião, dê. Mas não se ponha com essa história das culpas». &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Obedeci. Dali em diante, guardei as minhas opiniões para o Monte Carlo e para a Colombo, onde me consolava com vodka e com António Barreto (e, a seguir, com Alfredo Barroso e António-Pedro de Vasconcellos), enquanto as sondagens vagueavam entre os 8 e os 10 porcento. Introduziu-se, por essa altura, na cabeça do dr. Soares a extraordinária noção de que, estando os portugueses «zangados» com ele, o caso se resolvia se ele escrevesse aos portugueses uma carta simpática, aplicando-lhes metaforicamente umas palmadas nas costas. E aplicou-as num artigo ilegível de duas ou três páginas, que saiu em letra pequena num semanário sem leitores. Desde aí achou-se reconciliado com a nação e genuinamente não compreendia por que obscuras razões ela se obstinava a rejeitá-lo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Com o aprazimento dos peritos e das notabilidades, mesmo depois de Zenha e Pintasilgo se candidatarem, não deixou de vigorar a ortodoxia do «centro». De acordo com a lunática lógica do candidato e dos seus amigos, a Esquerda votaria em Pintasilgo, a Direita votaria Freitas e o «centro» votaria Soares. Não ocorreu a ninguém que o «centro» talvez não existisse ou não excedesse os 8 a 10 por cento das sondagens. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tratava-se apenas de persistir, de meter a «mensagem» a bem ou a mal no cérebro, excessivamente mole ou excessivamente duro, do país. Cada vez mais furioso, o candidato persistia. Os papéis e os copos de água voavam pelo MASP. Os berros (e agora os insultos) não paravam. E os apelos ao «centro» também não. O dr.. Mário Soares, em excursões pelas beiras, proclamava-se socialista democrático ou social-democrata ou as duas coisas ou as que fossem necessárias e até um belo dia na Madeira revelou ao povo atónito a sua irresistível propensão para o «centro democrático e social», propriamente dito. Era PS, era PSD, era CDS. Era tudo. Era ele. O incidente da Madeira encheu-me as medidas, de resto já a transbordar de vodka ordinário, ingerido em doses fenomenais, a título de refri- gerio, no Monte Carlo. Preparei-me para o pior e, a meio de uma comissão política, garanti-lhe a pés juntos que a Direita o execrava. Esta pura verdade de 1985 exaltou-o. Com sua célebre delicadeza retorquiu que, nunca tendo sido colonialista, nunca sentira qualquer necessidade de bajular os pretos. Aludia assim discretamente ao facto da minha passagem pela Aliança Democrática e pelo governo de Sá Carneiro e qualificava de «bajulação» a minha defesa de uma candidatura de Esquerda. Não neguei os factos: nem os crimes cometidos com a Aliança Democrática e Sá Carneiro, nem o crime de «bajular» a Esquerda desde o princípio. Notei, no entanto, que o meu saber era de experiência feito: não se aprendia no PS que o PSD e o CDS o execravam, em compensação na Aliança Democrática aprendia-se logo. Apopléctico e pouco presidencial, o candidato apertava a mesa com as mãos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O ambiente não ficou particularmente recreativo. Vários patriotas juraram ao dr. Soares que a Direita o adorava e louvaram a sapiência da política do «centro». António Barreto e Jorge Sampaio, em termos civis, propuseram, como de costume, uma política de Esquerda. Clara Junqueiro falou do mar, da rosa dos ventos, do universo e de Portugal. Costumava falar muito destes assuntos. A sessão acabou com suavidade. Excepto no Monte Carlo, onde António Barreto substituiu o dr. Mário Soares como alvo das minhas gritarias. Não tinha evidentemente qualquer justificação para gritar a António Barreto. Mas tinha de gritar e não podia gritar ao outro. A vítima sofreu o alarido com paciência. Infelizmente, uma noite ao jantar confessou-me que o dr. Mário Soares lhe pedira para ele escrever um manifesto e cometeu o erro trágico de me pedir a mim que o ajudasse. Fui atrás dele pelo Saldanha fora, inquietando o público e a polícia. Que não escrevia manifestos para mentecaptos, nem para serem emendados por mentecaptos. Que só escrevia por dinheiro. Que, mesmo por dinheiro, não escrevia manifesto nenhum e mais aleivosias do género. Finalmente farto, Barreto enxotou-me e, largado como um cão no passeio do Monumental, extraí a consequência óbvia dos acontecimentos. Meti-me no carro e apontei o carro para Almansil, concelho de Loulé, Algarve. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em casa do meu amigo João Paulo Amorim come-se indecentemente bem e bebe-se melhor. O MASP e o dr. Soares diluíram-se em robalos grelhados e costeletas de borrego. Ate o consumo de literatura se aperfeiçoou. A beatitude não andava longe, quando um sábado, o telefone tocou. Estendido no sofá em frente da lareira e abastecido de vodka russo, não me importei. O dr. Soares com certeza não queria nada de mim. Queria: queria-me em Nafarros, domingo (com António Barreto), para almoçar. Ameacei que não ia. João Paulo Amorim, delegado do MASP nas paragens, não consentiu. Marcou-se o avião, às 8 da manhã, e ele acompanhou-me ao sacrifício às 7, num buggy aberto, pelo frio desumano de Novembro, depois de uma noite em branco em que se discutiram as virtudes teologais e se esgotaram as reservas de vodka. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em Nafarros, as minhas mãos tremiam e a colher batia com estrondo na tigela de caldo verde. António Barreto estava melancólico. O candidato exuberante e a dra. Maria de Jesus docemente sibilante. Após o repasto, os homens marcharam para o escritório do candidato e aí, entre fotografias autografadas dos donos deste mundo, o dr. Mário Soares declarou o manifesto de Barreto excelente e, ainda por cima, «muito bonito». Ele sempre pensara aquelas coisas e sempre defendera aquela política. Dito isto, combinaram-se alguns pormenores sem importância e distribuíram-se algumas tarefas. A dra. Maria de Jesus trouxe amavelmente café. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O manifesto de Barreto condenava as ambiguidades do «centrismo» (e, por implicação, o «Bloco Central») e definia a candidatura de Soares como a candidatura da Esquerda contra a Direita. Na comissão política de segunda-feira, as minhas mãos já não tremiam. Tremiam de fúria as do dr. Almeida Santos. O candidato, no entanto, indicou a assembleia que tudo aquilo era fruto das suas meditações. De velhas meditações, aliás. Por exemplo, há meses que ele sentia a urgência de um sério aggiornamento do PS. As notabilidades aclamaram a nobreza e a oportunidade da ideia. O dr. Almeida Santos emagreceu dez quilos. E, como uma rapsódia da dra. Clara Junqueiro sobre as navegações lusitanas, a comissão política, para efeitos práticos faleceu. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Durante o resto da campanha, nem uma nuvem perturbou o meu idílio com o dr. Mário Soares. Queríamos os dois a mesma coisa: ele queria ganhar e eu queria que ele ganhasse. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;in &lt;strong&gt;K&lt;/strong&gt;, 14 - Novembro de 1991&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-112611381515445566?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/112611381515445566/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=112611381515445566&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112611381515445566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/112611381515445566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2005/09/uma-aventura-com-o-dr-mrio-soares.html' title='Uma Aventura com o Dr. Mário Soares'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-109693335871811304</id><published>2004-10-04T23:56:00.000+01:00</published><updated>2005-09-07T16:16:40.630+01:00</updated><title type='text'>A minha subida ao Poder</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;Por &lt;strong&gt;Miguel Esteves Cardoso&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;img style="WIDTH: 144px; HEIGHT: 167px" height="184" src="http://kapa.blogspot.com/farol.jpg" width="214" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Fotografia: Fernando Mata&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, à conversa com o meu amigo Pedro acerca de um trabalho que nos encomendaram, surgiu-nos uma ideia ousada, que desenvolvemos alegremente. Mas caí em mim e disse: "É escusado estarmos, a perder tempo com isto, porque os gajos nunca vão aceitar." "Ó Miguel", disse o Pedro pacientemente, "os Gajos agora somos nós !"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde sempre, os Gajos são os que mandam, convidam, encomendam, aprovam, e avaliam as coisas que a Malta faz. São os Gajos que controlam a situação. Foi com um misto de choque e de prazer que me dei conta que eu era um deles. Quer queira ou não queira, sou hoje um de os Gajos de que falam a Malta mais nova. Tão certo como seguir-se a Primavera ao Inverno, cada fornada de "gajos" é substituída pela seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não tinha percebido é que chega uma altura na vida em que uma pessoa sobe ao poder sem dar por isso. Calha a vez a cada um. É como os iogurtes no supermercado. Seja de framboesa ou de nêspera, seja artificial ou biologicamente puro, cada iogurte, como cada homem, tem o seu tempo, o seu prazo de validade, o momento em que se considera fresco, pronto para&lt;br /&gt;comer, conforme os apetites de quem decide. Passado o prazo, vai-se á vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder é como uma aura que nos cresce à volta da careca. Santificado fica o nosso nome. É involuntário e é injusto, porque há sempre pessoas, mais novas ou mais velhas, que querem ou merecem o poder muito mais do que nós. Não estou a falar daqueles espíritos tão sacrificados ou sôfregos (geralmente as duas coisas ao mesmo tempo) que procuram o poder desde pequeninos. Estou a falar dos inocentes, como eu. Ou pelo menos daqueles suficientemente vaidosos para pensar que se conseguem safar só com o talento com que nasceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É horrível passar de uma situação de Malta, em que uma pessoa se esforça para que os Gajos aprovem o nosso projecto e se riam das nossas piadas e fiquem satisfeitos quando sai bem, para uma situação em que a Malta se ri das nossas piadas mesmo quando não têm piada nenhuma, na esperança que nós, os Gajos lhes aprovemos os projectos. É horrível porque, de repente, passa-se de iniciador e de abelhinha, para Salomão e apicultor. Odeio a maneira como a Malta baixa ligeiramente a cabeça diante mim, como se eu estivesse embebido nalguma substância sagrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Odeio como olham para mim, não à espera que eu proponha, mas que eu decida. Odeio a maneira hipócrita de parecerem respeitosos e também odeio a maneira sincera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para não cair nessa esparrela, porque acho que ainda tenho talento para fazer muita coisa, sou obrigado a trabalhar o dobro do que trabalhava antes, a ser mais malcriado do que acho conveniente, a fazer asneiras que nunca faria, só para merecer o desrespeito deles. Esse desrespeito essencial que me mantém, nem que seja só com um dedinho do pé, entre a Malta e vai impedindo que eu seja integralmente despachado para o andar de cima, onde estão os Gajos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que eu não quero ser um deles. Que fique registado de uma vez por todas que, por alma das minhas queridas filhas, jamais aceitarei algum cargo, seja ele de que espécie for, nem cultural nem honorífico nem anónimo. E governativo, nunca. Nem em caso de emergência nacional, nem mesmo havendo uma guerra contra os espanhóis, nem mesmo para Presidente da República, nem que tivessem morrido todas as pessoas com mais de 35 anos excepto eu e o Carlos Marques da UDP. Seria o primeiro a gritar "Marques para Belém, já !"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é que eu tenha alguma coisa contra o Poder. Não tenho. Quero é que sejam outros a exercê-lo. Prefiro que um Governo me persiga e trame a que ele me dê numa bandeja a oportunidade de salvar de uma vez por todas a Pátria. E só Deus sabe o quanto eu gostava de salvá-la e ser por ela eternamente reconhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prescindo. Nem é cobardia. Prefiro ficar entre a Malta, a salvar bocadinhos pequeninos da Pátria. Prefiro ser um nadador-salvador simpático que vai buscar as bóias que os miúdos perdem nas ondas, à angústia e à pomposidade e à importância do Comandante que, antes do Titanic português bater, dissesse "É melhor mudar de curso - cheira-me que há para aqui algum icebergue ou outra porra qualquer."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior é que não se pode contrariar a natureza. A razão porque o poder corrompe é o jeito que dá. Dá um jeitaço. É facílimo arranjar um razão válida e não-pessoal para tudo o que se faz. É dificílimo ter um problema, ter uma solução mesmo ali à mão e não resolvê-lo. Sobretudo se a solução alternativa fica no cu de Judas. É como ser o Schwarzenegger, já bebido, e aparecer um malandreco tubereuloso, mais bebido ainda, que nos apalpa a namorada e nos encosta a brilhantina ao umbigo, dizendo"Vai lá fora ver se chove, a ver se não levas uma carga de porrada." É preciso muita paciência e engolir muito em seco para não ceder à tentação de lhe dar, ao menos, um estalo na moleirinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder deixa as pessoas mal-habituadas. Ao princípio é óptimo porque tudo o que era difícil se torna fácil. Quem pode, pode e sabe bem, mas quando já se pôde é melhor ainda - um ver-se -te-avias. O pior é que a vida é matreira e, dentro de pouco tempo, parece tudo difícil outra vez. Quem come a papinha feita, depressa encontra caroços em cada papa futura. Quem tem muitos criados arranja novas maneiras de se maçar. Aposto que o Ceausescu não andava menos chateado com a vida em geral, e com a chatice de arranjar os bens que considerava essenciais, do que os outros romenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder só dá prazer ao princípio. Depois vicia. Com uma agravante: a partir de certa altura, não se consegue arranjar mais. Como se sabe, há um preconceito geral contra o poder ilimitado. Os maiores ditadores chegam a uma altura em que se sentem impotentes. É pena. Se o poder fosse como a heroína e se pudesse ir aumentando sempre com o mesmo efeito, ainda era capaz de experimentar. Assim, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego assim à sindroma do &lt;em&gt;Não é pelos meus lindos olhos&lt;/em&gt;. Assim como é humilhante para o capitalista se tratado não como uma pessoa mas como um mero detentor de capital, como quem diz "Se não tivesses dinheiro, podes ter a certeza que eu não estava aqui a perder tempo", também é humilhante para quem é poderoso ser esquecido por aquilo que sabe fazer, na ânsia de chegar à questão do que ele simplesmente pode ou não fazer. Há com certeza muitos homens ricos e muitos homens poderosos com um lindo par de olhos, mas não deve haver um que tenha a certeza de os ter. A Malta, em contrapartida, ainda se pode dar ao luxo de ver fazer as coisas pelos lindos olhos deles, efectivamente. Os Gajos, em suma, sofrem tanto ou mais do que a Malta. Viciam-se, vão acumulando pderes, até baterem no tecto e levarem com o ricochete. Acabam chateados e desconfiados com toda a gente. Só pelo facto de terem poder, são constantemente ridiculrizados pela Malta, sobretudo pela malta dos jornais, o que é tão injusto como ser gozado só pelo facto de se ter o nariz grande. Mas tem de ser, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando são corridos, toda a gente se esquece deles. Quando eu era da Malta gostavam mais de mim. Agora já há quem não goste só pela razão, excelente e imbatível, de eu ser um dos Gajos, que "controlam esta merda". Se calhar, sem querer, na minha ânsia de ficar entre a Malta enquanto me vou dando com os Gajos que não posso evitar, por serem meus amigos e colegas, acabo por fazer figura de agente duplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deixa de ser verdade, porém, que não procuro o poder por ser uma alma pura, mas por ser um rapaz inteligente, que já sabe como elas mordem; vaidoso, por julgar que hei-de conseguir o que quero sozinho sem precisar que outros trabalhem para mim, e infantil por não ter perdido o gozo de desobedecer àqueles que mantêm um mínimo de ordem, enfim, que fazem o favor de mandar em mim e que, no fundo, respeito. Não muito, mas respeito. Vá lá: cada vez ,mais. Pronto. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;in K, nº3&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-109693335871811304?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/109693335871811304/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=109693335871811304&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/109693335871811304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/109693335871811304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2004/10/minha-subida-ao-poder.html' title='A minha subida ao Poder'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-107123157987054620</id><published>2003-12-12T13:14:00.000Z</published><updated>2006-02-02T00:22:57.340Z</updated><title type='text'>A CARNE - Diário da decomposição</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;p align="center"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;img style="width: 134px; height: 426px;" src="http://kapa.blogspot.com/sarc-gold1.gif" height="222" width="134" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Morrer. Passar-se. Morto e enterrado. Comer as alfaces pela raiz. Ir para o céu. Ir para os anjinhos . Sete palmos abaixo da terra. Marar . Bater as botas. Esticar o pernil. Dar o peido mestre. Falecer. Passar para o outro lado. Dar a alma ao criador. Deixar-nos. Apagar-se. Fenecer. Ir para o inferno . Bater às portas do paraíso. Ir para o maneta. Expirar. Dar o berro. Dar de comer às minhocas. Quinar . Finar. Esvaecer. Esmaecer . Perecer. Ir desta para melhor &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;NA MORTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O seu coração parará, perderá o pulso e você deixará de respirar. Ficará pálido, todos os seus músculos se relaxarão e o seu corpo começará a perder calor à razão de O,7°C por hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Após MEIA HORA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A sua pele vai perdendo cor, à medida que o sangue desce sob o peso da gravidade. Se estiver deitado de costas, o sangue afluirá à zona das costas e à parte inferior dos seus membros. Qualquer pressão sobre a pele irá torná-la branca, porque o sangue se dispersará. As suas extremidades tomam-se azuis. Os olhos começam a afundar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Após QUATRO HORAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Serão agora evidentes os primeiros sinais do rigor mortis. Antes do resto do corpo, as pálpebras, o rosto, o maxilar inferior e o pescoço tomar-se-ão rígidos. Um esforço violento ou uma electrocução pouco antes da ocorrência da morte acelerarão o rigor mortis. Este será retardado se a causa da morte for asfixia ou envenenamento por monóxido de carbono. Depois de se ter espalhado a todo o corpo, começará a desaparecer pela mesma ordem com que se instalou. Em trinta horas, todos os seus músculos ficarão relaxados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Após VINTE E QUATRO HORAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O seu corpo arrefeceu até atingir a temperatura ambiente. A menos que seja conservado no frio, a sua pele começará a tomar tons vermelho acastanhado. Em cerca de uma semana, esta descoloração alastrará ao peito, às coxas e, gradualmente, à totalidade do corpo. As suas feições poderão estar irreconhecíveis e você exalará um cheiro intenso a carne apodrecida. Temperaturas quentes ou uma morte súbita acelerarão o processo de decomposição. Se for conservado a uma temperatura amena e num ambiente seco, o seu corpo poderá mumificar, o que dará à pele uma aparência seca e encerada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Após TRÊS DIAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No interior do seu corpo, começará a formar-se gás, que poderá provocar o aparecimento de bolhas de líquido avermelhado com cerca de oito centímetros de diâmetro e o seu escorrimento através dos seus orifícios. Tudo isto confirma a história do corpo da rainha Isabel I: inchou tanto que rebentou o caixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Após TRÊS SEMANAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A sua pele, cabelo e unhas estarão agora soltos, tanto que seria fácil arrancá-los. Mais cedo ou mais tarde, a sua pele rebentará expondo os músculos e a gordura. É nesta fase que os insectos e os vermes começarão a comer a sua carne. A temperatura ambiente determina a velocidade a que você ficará reduzido a um esqueleto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num ambiente quente e fechado, demoraria um mês até se tornar um esqueleto; ao frio e no exterior, levará mais tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teoricamente, o seu esqueleto poderá sobreviver eternamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adaptado de um artigo da &lt;em&gt;Esquire&lt;/em&gt; inglesa Junho 1991&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K nº 16&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;A carne: diário da decomposição&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Janeiro de 1992&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-107123157987054620?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/107123157987054620/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=107123157987054620&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/107123157987054620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/107123157987054620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/12/carne-dirio-da-decomposio.html' title='A CARNE - Diário da decomposição'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106924325614280370</id><published>2003-11-19T11:57:00.000Z</published><updated>2005-09-23T20:01:39.516+01:00</updated><title type='text'>Mulheres: As Italianas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/italiana-775181.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/italiana-771917.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Quando falamos de Itália pensamos em Veneza, Da Vinci, spaghetti, o Papa, pizza, Miguel Ângelo, lasanha, Florença, Fellini, Dante. A Itália está em nós muito mais do que parece. E impensável o mundo sem alguma coisa que não tenha que ver com ela. Pertence-nos como pertence aos italianos. A culpa é deles por nos terem dado tanto. Tanto? Tudo. Até as mulheres. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;ACHO que não exagero ao dizer que o melhor cinema europeu foi, e talvez ainda seja, o italiano. Mas além das suas qualidades artísticas e das características que o fazem único, o cinema italiano ofereceu-nos uma galeria de mulheres tão extraordinárias, que seriam capazes de olhar de frente as suas rivais do grande cinema americano sem baixar os olhos. Querem umas temperamentais como Joan Crawford ou Bette Davis, Anna Magnani. Espiritual, chique como Grace Kelly ou Gene Tierney, Monica Vitti. Autoritária e sensual como Lauren Bacall, Silvana Mangano.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O que diferencia uma actriz italiana de qualquer outra é também o que diferencia o cinema italiano dos outros: nunca mostrar os seus heróis ou, neste caso heroínas, como um suprassuco da barbatana. Belas e voluptuosas, mas sempre deste mundo. Como se fossem acessíveis. Frágeis ou vulneráveis, mas nunca estúpidas. Insolentes, com um só desabotoar da sua blusa. Apetece-me dizer próximas, verídicas, nossas, possíveis, universais, simples, boas. Exactamente o contrário do que penso das americanas, à excepção do último adjectivo. Não me lembro de um único filme italiano onde a mulher tenha sido mostrada com desprezo ou ridicularizada. Não é por acaso que Fellini importou uma caricatura hollywoodesca, Anita Ekberg, para fazer com ela o que com nenhuma italiana ousava fazer. E não é por acaso que Ingrid Bergman fez o seu melhor filme em Itália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, não é a qualidade dos italianos que fez a excelência das italianas, embora exista uma relação directa entre uns e outras. O exagero engatatão deles só pode ser equilibrado com um outro exagero. O exagero são elas. São mulheres de sonho feitas reais, ao contrário das suas congéneres americanas, que são mulheres reais feitas sonho. Daí ser credível que «boazonas» como Sofia Loren, Stefania Sandrelli, Laura Antonelli ou mesmo Cláudia Cardinale pudessem ter personagens dramáticas interpretadas a fundo sem sacrificar nada da sua sensualidade, sem perder a sua impertinente feminilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As medidas delas poderiam ser, para os padrões dramáticos de outras cinematografias, impróprias para a seriedade que uma mulher abandonada ou adorada, mãe ou viúva, rica ou pobre deveria ter. Mas não para a italiana. Imaginem a Sofia Loren, com 26 anitos, a fazer de mãe perdida, com a sua filha no meio da miséria da guerra. O filme foi La Ciociara, de Vittorio de Sica. Loren ganhou, entre outros prémios, o Oscar. Se os americanos fizerem um remake, seria a insuportável Sally Field ou a neurótica Meryl Streep no mesmo papel. Muitas ficaram esquecidas por esse injusto mistério que é «fazer uma carreira». Mas quem viu Ossessione ou Senso, ambos de Visconti, nunca esquecerá Clara Calamai ou Alida Valli. Nunca o inextricável do desejo da mulher e a sua mistura de crueldade e fragilidade foi alguma vez tão perfeitamente representado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio de tudo isto, Anna Magnani junto com Giulietta Massina devem ser duas excepções. A primeira porque impôs a sua particular beleza à custa do seu enorme talento; a segunda porque com o talento fez esquecer a sua absoluta falta de beleza. Mas há tantas outras com maior ou menor talento mas sempre com uma presença inapagável na nossa memória ou na nossa fantasia. Lucia Bosé, Lea Massari, Antonella Lualdi, Sandra Milo, Gina Lollobrigida, Valentina Cortese, Florinda Belkan, Virna Lisi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve ser contagioso. Vêm-me à memória as estrangeiras que passaram pela Itália e que pareceram italianas naquele momento: Annie Girardot de Rocco, Jeanne Moreau de La Notte, Anouk Aimée de La Dolce Vila, Dominique Sanda de 11 Giardino dei Finzi-Contini, e claro, Ingrid Bergman. Por mais que o tempo passe, os filmes envelheçam e se descubra com a ingratidão inerente do espectador como a ousadia é ultrapassada ou os temas são datados; ou que na nossa cinemateca pessoal fiquem cada vez menos filmes italianos afogados pelos efeitos especiais das novas fitas, nunca poderemos pôr de lado o que eles nos deram. E deram-nos belíssimas histórias, belíssimos actores, actrizes e realizadores. Mas também nos deram a percepção mais masculina e a transmissão mais feminina que alguma vez se deu. Não devemos ter vergonha de lembrar o que essas boazonas italianas nos fizeram vibrar, de recordar tantos filmes onde o momento mais dramático acontecia sempre quando Ela estava em combinação ou com um decote aparentemente inapropriado para o caso. Quando sempre nos debatíamos entre concentrarmo-nos na tensão dada pelos personagens no meio da história deles, ou a beleza doméstica e tangível dessa mulher em fúria, triste ou vindicativa, no meio da nossa história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 19&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Mulheres: As italianas&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Carlos Quevedo,&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Abril de 1992&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106924325614280370?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106924325614280370/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106924325614280370&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106924325614280370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106924325614280370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/mulheres-as-italianas.html' title='Mulheres: As Italianas'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106880365217557889</id><published>2003-11-14T09:53:00.000Z</published><updated>2006-10-01T20:37:44.333+01:00</updated><title type='text'>Rapidinhas Culturais</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/escritores-781546.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/escritores-738140.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;A equipa editorial do blog K, estando atenta às conturbadas manifestações contra o aumento das propinas por parte dos estudantes universitários, resolveu dar uma ajuda a todos os que desejavam ir às aulas mas que, devido à universidade estar fechada a cadeado, não puderam. Este é o nosso contributo cultural para ajudar esses mesmos alunos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Confrontados com o baixo nível das conversas da juventude portuguesa, decidimos dar o nosso contributo. Compreendemos que ninguém tem tempo e que, quando o há, temos coisas mais engraçadas que fazer do que ler um livro, por muito bom que ele seja. Ver vídeos, dar uma volta, embebedar-se, pecar em geral, são de facto actividades mais divertidas e mais rápidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esta e outras razões pomos a nossa extensa cultura ao serviço de todos os ignorantes que nos lêem. Para poupar tempo e dinheiro aqui estão alguns tesouros da literatura universal em poucas linhas e ao alcance de qualquer besta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Marcel Proust&lt;/strong&gt;. &lt;em&gt;À Ia recherche du temps perdu&lt;/em&gt;. &lt;strong&gt;Paris, Gallimard. 1922 &lt;/strong&gt;(I.ere edition) - À procura do tempo perdido. Livros do Brasil Colecção Dois Mundos). 1965&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo&lt;/strong&gt;: Um rapaz asmático sofre de insónias porque a mãe não lhe dá um beijinho de boas-noites. No dia seguinte (pág. 486. I vol.), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1344. VI vol.) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito veIhinhos e pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;James Joyce&lt;/strong&gt;. &lt;em&gt;Ulysses&lt;/em&gt;. &lt;strong&gt;Paris, Shakespeare Co&lt;/strong&gt;.. 922 - trad. portuguesa (obrigatório dizer e é má) de João Palma-Ferreira.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo:&lt;/strong&gt; Um dia na vida de um judeu chamado Bloom que vai cagar no primeiro capítulo. Um estudante chamado Daedalus masturba-se na praia. O judeu bebe uns copos e fala com o sapato. A mulher do judeu (que é cantora) lembra-se de como fornicou o dia todo com o seu amante. Termina com a palavra «Sim», prova indiscutível de que se trata de um livro inteiramente positivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Júlio Dantas&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;A Ceia dos Cardeais,&lt;/em&gt; &lt;strong&gt;Lisboa, Lello, 1908 &lt;/strong&gt;- tradução portuguesa de David Mourão-Ferreira.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo:&lt;/strong&gt; Era uma vez três cardeais. Um era português, o outro espanhol e o outro francês. Estavam a jantar no Vaticano e lembraram-se de comparar engates. O francês tinha muita lábia, o espanhol muita basófia mas o português é que a sabia toda.&lt;br /&gt;No fim, os outros baixaram a bola e reconheceram como é diferente (e melhor) O amor à portuguesa. Ou, como disse no fim o cardeal inglês. «Portuguese do it best».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Leão Tolstoi&lt;/strong&gt;,&lt;em&gt; Guerra e Paz&lt;/em&gt;, (1800 páginas)&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo:&lt;/strong&gt; Um rapaz não quer ir à guerra e por isso Napoleão invade Moscovo. A rapariga casa-se com outro. Fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Luís de Camôes&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Os Lusíadas &lt;/em&gt;(várias edições), versão portuguesa de João de Barros)&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo:&lt;/strong&gt; Um poeta com insónias decide chatear o rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa porreiraça), têm o justo prémio numa ilha cheia de gajas boas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Gustave Flaubert&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Madame Bovary&lt;/em&gt;, (378 páginas)&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo: &lt;/strong&gt;Uma dona de casa engana o marido com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do talho, o merceeiro, e um vizinho cheio de massa. Envenena-se e morre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;William Shakespeare&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Hamlet&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Londres, Oxford Press &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo:&lt;/strong&gt; Um príncipe com insónias passeia pelas muralhas do castelo, quando o. fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com urna caveira e morre, assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que se tinha suicidado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Anónimo colectivo&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Antigo Testamento &lt;/em&gt;(2 vol.)&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo:&lt;/strong&gt; A mesma história tem dezenas de versões. Trata-se da saga de uma família através de várias gerações. Uma história de poder, luxúria, paixões incandescentes, ambições desmedidas, crimes hediondos e sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Anónimo colectivo&lt;/strong&gt;. &lt;em&gt;Novo Testamento &lt;/em&gt;(4 versões)&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo:&lt;/strong&gt; Uma mulher com insónias dá à luz um filho cujo pai é uma pomba. O filho cresce e abandona a carpintaria para formar uma seita de pescadores. Por causa de um bufo, é preso e morre."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº20&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Rapidinhas Culturais&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Maio de 1992&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106880365217557889?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106880365217557889/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106880365217557889&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106880365217557889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106880365217557889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/rapidinhas-culturais.html' title='Rapidinhas Culturais'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106855312845908757</id><published>2003-11-11T12:07:00.000Z</published><updated>2005-09-23T14:04:56.983+01:00</updated><title type='text'>Portugal vai ser tão bom, não foi?</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/bolas-767380.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/bolas-766495.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Ilustração: José Fragateiro&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais um excelente artigo de &lt;a href="http://www.pastilhas.com/"&gt;Miguel Esteves Cardoso&lt;/a&gt;, atestando o optimismo do início dos anos 90. Ele tinha razão: “quando a esmola é demais o pobre desconfia”. Mas para quem nunca soube, ou simplesmente, tenha reparado, nem sempre fomos um país de escândalos, de pedofilia, prostituição e corrupção. Já não estará na altura de termos umas merecidas tréguas? As nossas costas necessitam urgentemente de folgar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“C H E G O U a Primavera e é-me difícil reprimir esta exclamação, que pode ser irritante para os pobres, desempregados e idosos, que reflecte com certeza uma visão parcial da realidade, e que atesta o meu alheamento de tudo o que é importante e verdadeiro neste mundo; mas têm de me desculpar, porque rebentarei se não puder aqui desabafar: Olhem que bem que se está em Portugal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será da estabilidade? Será das novas medidas de crédito para habitação? Será do regresso do camarão vermelho à costa do Estoril? Será por termos ganho a guerra do Golfo? Será por causa da onda internacional do independentismo e democracia? Será porque estive recentemente em Londres e não descobri nada que valesse a pena trazer, à parte uns livros e uma garrafa de mezcal? Ou será da luminosidade? Que Deus me perdoe, mas ao percorrer a Marginal no meu novo Range Rover branquinho, a ouvir Frank Sinatra enquanto o sol desce sobre o rio Tejo, esqueço-me daqueles que sofrem, dos que lutam todos os dias pela sobrevivência. Para ser sincero, varrem-se-me da cabeça todos os compatriotas que passam mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naqueles momentos dourados, as classes desprivilegiadas resumem-se aos infelizes que vejo ao volante dum Nissan Patrol. Que bem que se está em Portugal! Agora a sério. Que clima! Que bem que se come! Que bom e barato é o vinho! Que bem escrevem os nossos grandes escritores! Que prestáveis são as farmácias! Que belos filmes passam na televisão! Que simpáticas as pessoas! Os benefícios que a CEE tem trazido! A quantidade de queijos franceses que já se podem comprar nos supermercados! A desfaçatez com que se entra em Paris ou em Londres! A rapidez com que agora vêm os filmes, os CD e os jornais estrangeiros! A estabilidade do escudo! Estou a falar a sério! Os concertos! A beleza da nossa terra! As praias por descobrir! A facilidade com que agora se compra um monte no Alentejo! Não, de facto, desculpem mas começa a ser inegável. É que não se está nada mal em Portugal. Bolas! - é Primavera. O fascismo e o comunismo passaram à história. Os sabotadores e os terroristas reformaram-se. As manifs e as organizações de massas já deram o que tinham a dar. A inflação está controlada. O Governo está a governar. Cada nova estatística quebra um novo recorde de bem-estar. A Oposição vê-se aflita para se opor. As greves diminuem. Os salários aumentam. O Torres Couto continua a não deixar crescer o bigode. O PCP está contente. O CDS está a recuperar. O PS tem esperanças. O PSD vai ganhar as próximas eleições. Mário Soares é o nosso Presidente. E vem aí o Verão! Vamos todos encontrarmo-nos, com um Cornetto na mão, na praia do Vau! Combinado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como profissional da má-língua, pela primeira vez temo pelo meu ganha-pão. Vai sobrando muito pouco que seja digno de critica ou chalaça. Se as coisas continuam assim, qualquer dia não haverá nada de novo na nossa Pátria do qual se possa dizer profissionalmente mal. Quem é que gosta de ler uma coluna cujo principal teor critico é exclamar “Ah, mas que bem que se está em Portugal!"? Se Portugal se toma numa espécie de Suíça atlântica, conforme sonha o Dr. Lucas Pires, que será de nós colunistas? Seremos capazes de adoptar o estilo suíço, lamentando a boa sorte que temos? Será criveI exclamarmos: “Ai que maçada sermos tão ricos!" ou “Ai que chatice esta transferência governativa e esta harmonia cultural!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que ainda viverei a vergonha de ver escrito, num jornal português, o queixume nacional helvético que é "Se calhar somos demasiado perfeitos..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perfeitos? Nós? Não, mas a verdade é que já fomos mais imperfeitos, sim senhor. Desculpem Iá. Já passamos mais fominha. Já aguentamos com mais barafunda. Já nos metemos em maiores confusões. Já foi muito mais difícil trocar notas de quinhentos paus por libras esterlinas. O leite já escasseou mais. O trânsito já foi mais interrompido por manifestantes. Até os ministros já foram mais incompetentes e desonestos que hoje são! Parece impossível, mas é verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal arrisca-se a tornar-se um pais como os outros, atingindo o bem-estar e o tédio das suas congéneres europeias. Já repararam como hoje é raro aparecer uma noticia sobre Portugal na imprensa estrangeira? Não havendo um mínimo de caos, de crise, de cravos na mão, de bichas para a gasolina, de operários a falar durante horas na televisão, tudo ao som da cadência de governos sucessivos a cair ritmadamente, Portugal vai apagando-se da cena internacional. É triste!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se calhar é do pólen. Mas abro os jornais e não encontro a quantidade de problemas insanavelmente suculentos que encontrava dantes. Há uma nítida sobrecarga de soluções. Há soluções para as quais nem sequer há problemas - como as "soluções" dos arquitectos. Tudo isto sem a velha fricção ideológica entre soluções rivais, para compensar. É tudo muito ameno, muito pluralista e muito civilizado, com ex-marxistas a dizer a ex-fascistas, em tom morte-lenta, que "se calhar o meu amigo tem toda a razão". Pela primeira vez desde o 25 de Abril é possível imaginar o Dr. Cunhal a encorajar um sobrinho a ir votar no Dr. Cavaco ("Vai, meu filho - é asneira, mas sempre é mais democrático que te absteres") e o Dr. Cavaco a deliciar-se com o facto do jovem afilhado ter votado no PCP na sua primeira ida às urnas ("É uma opção de voto como qualquer outra... sabes que o Padrinho sempre teve uma grande admiração pelo político que é Álvaro Cunhal...?").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está tudo muito bem. A democracia e o desenvolvimento são mesmo assim. Ao subir a Avenida Dom Carlos ao fim da tarde, com as flores dos jacarandás a cair suavemente no capot do Ranjolas, vejo-me aflito para arranjar só duas boas razões para não votar no PSD. Nem me recordo tão-pouco de quanta gente ainda vive em barracas, dos doentes nos hospitais, dos cabo-verdianos, dos presos. Dos terríveis problemas sociais que ainda afligem a nossa população, tenho de confessar que não me ocorre nem um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo do CD para a telefonia. Ouço as notícias nacionais. O Dr. Cavaco anuncia que vai baixar o preço da gasolina. Um relatório da OCDE diz que temos a melhor taxa de crescimento desde 1967. Há paz em Angola. Vai haver multipartidarismo em Moçambique. Em Cabo Verde ganhou um homem que nos é simpático. O Dr. Durão Barroso está contente. Vem aí mais uma tranche de dinheiro da CEE. Vai ser mais fácil comprar casa. Os carros com mais de 3000 cm3 de cilindrada vão deixar de ser penalizados. Alverca foi promovida a cidade. E foi criada uma nova reserva natural na Serra do Tijolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois passo ao noticiário internacional. Caos. Fome. Miséria. Ânsia democrática. Distúrbios. Incerteza. É declarado estado geral de "Seja o que Deus quiser". As notícias parecem-me estranhamente familiares.., Mas onde é que eu já ouvi isto? Só muito mais tarde, nos confins da minha memória, me lembro que era assim que se referiam aos acontecimentos aqui em Portugal. Quem não se lembra do Verão Quente? Mas calma. Não pode ser tão bom. Estamos demasiado bem para o nosso bem. Vem aí borrasca. E da grossa. Esta pasmaceira não pode durar. A característica "porreirinha" da nossa situação económica, política e social não é nem sadia nem natural. Vai virar, vai ser bonito! Estamos a atingir o limite. Existem várias maneiras de classificar o estado de uma nação, mas "está tudo numa boa" não é a mais sólida. Aqui há gato. Misturemos as metáforas. Ponhamo-nos a pau. Como dizem os ingleses "So you trust the Virgin, do you? Well, don't run then." Nós próprios dizemos que "Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas". E é verdade. Este período aparentemente folgado não é mais que um intervalo entre pauladas. É certo que os intervalos costumam ser mais curtos, mas se calhar o pauliteiro foi a Miranda ver a mãe. Descansem que ele já volta. Há-de vir com força redobrada. É só esperar pela pancada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos habituados a comer na cabeça - que mal é que isso tem? Não cabe a um povo como o nosso viver sem as suas tradicionais dificuldades. Não está certo. O povo português, em estando bem, engorda. Marimba-se. Perde a potência sexual. Deixa de ir à missa. Compra uma roulotte. Vende o lagar. Passa a temperar a salada com salad cream. Apanhando uma criança ou um estrangeiro a jeito, dá-lhe sermões acerca de Portugal no período paleolítico antes do Professor Cavaco. Passa a assinar os cheques com rubrica. Casa-se com a parabólica. Ganha ódio aos netos. Deixa de estar disponível para baby-sitting. Esquece-se de como se comem caracóis. Tira fotocópias dos boletins de voto para ter o prazer de poder votar todos os meses no Dr. Soares. O bem que se está em Portugal neste momento é como aquele calor abafado e morto que antecede uma tempestade. Vamos ser apanhados desprevenidos. Com a boca na botija do Halazon, a disfarçar o sabor do bagaço e do refogado na ânsia de alcançar um hálito mais europeu. Cuidado. Vai-se-nos entalar a mãozinha na urna do PSD e não a vamos poder tirar tão cedo. Vai ser um horror. Vai ser como antigamente. A câmara de vídeo vai ter de voltar para a loja, e o Zé e a Marieta para a casa dos pais e o bate-chapas para a célula da UDF e os fins-de-semana para o galheiro e as noites para a mercê da RTP e o Prof. Cavaco para o Algarve e Portugal inteiro para a fossa milenária onde sempre esteve metido e de onde provavelmente nunca deveria ter saído. É poético, não é? Ah, lama primeva! Massa que parísteis Viriato, Genoveva, Dom Fuas Roupinho, o Eng.º Fernando Peralta e Salazar! Ah fossa linda! Bons olhos te vejam! És estrumeira mas és arejada! Outra assim ao ar livre não há! Meu pequeno monturo atlântico, que sabeis embrulhar o odor a merda com o cheiro da maresia e aromatizar as bostas entretanto postas com uma manta santa de manjericos! Que saudades! Dize! Onde estivésteis, pocilguita amada? Porque demorásteis tanto a voltar? Fiásteis na cantiga do Cavaco? Foi? Acreditásteis naquela treta toda? Também eu. Mas acabou-se o que era doce! Vem, fossa querida, recebe-me em teu argiloso seio e cobre-me de castanhas carícias. Vem e devolve a esta tua cria antiga a alegria de refocilar eternamente no teu regaço, com o resto da pecuária!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esqueçamos juntos este negro período em que nos pareceu estupidamente que se estava bem em Portugal. Doce ilusão! Bera quimera! Acerbo Sporting de Espinho! Como pudemos ser tão cegos? E já agora, ouve lá - onde pusesteis os meus Ray-Bans? Ai, cala-te, Musa! Cala-te, que Já estou cheio de saudades de Julgarmos que Portugal estará bom! Cavaquinho - Imploro-te, pára, deixa de tocar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai obrigadinho! Como dizia aquele impetuoso coelho para a jovem noiva na toca da noite de núpcias, alçando as patinhas dianteiras por sobre as costas dela e apontando o seu veloz e inflamado dardo para o alvo delicado e virginal que ela, por amor, lhe oferecia: "Ai, vai ser tão bom, meu amor - não foi?" “&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº9&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;O Arco da Velha: Portugal vai ser tão bom não foi?&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Miguel Esteves Cardoso&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Junho de 1991&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106855312845908757?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106855312845908757/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106855312845908757&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106855312845908757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106855312845908757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/portugal-vai-ser-to-bom-no-foi.html' title='Portugal vai ser tão bom, não foi?'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106831370389126512</id><published>2003-11-08T17:38:00.000Z</published><updated>2005-09-23T14:00:50.876+01:00</updated><title type='text'>Forçosamente Livres</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;«A crise do Ocidente tem de inédito o facto de ser, no fundo, uma crise da filosofia. (...) A inverosimilhança e a decrepitude teóricas são, como todos sabem, o fulcro do mal-estar da União Soviética. E o Mundo Livre não fica muito atrás.» &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ALLAN BLOOM, The Closing of the american mind &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NUM debate recente sobre a condição cadaverosa do regime democrático-totalitário cubano (1), voltou a falar-se na tese Fukuyamiana do «Fim da História». De tanto citada, arrisca-se esta a parecer uma doutrina póstuma. Mas não é. Para muitos &lt;em&gt;eggheads&lt;/em&gt; de Washington, D.C., trata-se de uma das primeiras bases teóricas do neoliberalismo triunfante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colocando no mesmo saco o pan-historicismo idealista e materialista, Fukuyama diz simplesmente que uma ideia política, o &lt;em&gt;liberalismo&lt;/em&gt;, e um sistema político, a &lt;em&gt;democracia&lt;/em&gt;, - triunfaram sobre os seus arqui-inimigos e arquétipos negativos, o &lt;em&gt;comunismo &lt;/em&gt;e os regimes do chamado &lt;em&gt;socialismo real&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A  história como &lt;em&gt;dialéctica de experiências &lt;/em&gt;teria assim acabado - «por agora», diz Ironicamente um crítico alemão de Francis Fukuyama - e o caminho abrira-se para um novo primata, o &lt;em&gt;Homo Liberalis&lt;/em&gt;. Este homem é simultaneamente um animal consumista, agarrado à civilização hedonista, e um ser livre, feliz, autónomo e identificado. A sua liberdade, como num sistema Rawlsiano, conjuga-se racionalmente com as parcelas de liberdade dos outros homens. Fukuyama parte de uma verificação que já havia sido feita por muitos teóricos - e teólogos - a seguir a Hiroshima A Dos Mil Sóis. A seguir a 45 disse-se que todos os regimes aceitaram a democracia como regime, ao menos prestando-lhe &lt;em&gt;lip service&lt;/em&gt;, convertendo-se às suas fórmulas, discursos e mitos. Por mais tirânico que um modelo fosse, após a queda do Eixo, diria no máximo ser ademocrático, mas nunca antidemocrático. Hoje o mesmo se passa com o liberalismo, todos os sistemas - desde o Brasil adiado de Collor ao Irão reciclado de Rafsanjani - declaram prezar, ao menos em espírito, a liberdade santíssima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas assim como a seguir à Segunda Guerra, a «democracia» se encheu de apêndices e qualificativos - foi «burguesa» e «constitucional», «popular» e «social»,«económica» e «política», «parlamentar» e «musculada», «socialista» e «capitalista», e aí por diante - que traduziam as reais ambiguidades envolvidas na aplicação do modelo, também a partir de hoje podemos vir a ter a «liberdade» interpretada à maneira do pa- trão e do freguês. A liberdade, &lt;em&gt;oui, mais&lt;/em&gt;... E os espíritos mais negros, menos crentes na capacidade redentora da experiência acumulada pelos povos, raciocinam noutras veredas: se a liberdade se absolutiza, podem crescer as desigualdades, e com estas crescem as sementes de revolta dos mal-sucedidos contra os felizes ou contra os hábeis. &lt;em&gt;Ou seja, da liberdade total podem brotar os germes de novas tentações igualitárias e de Santas Alianças entre os falhados do planeta&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os tumultos na cidade dos Anjos, na soalheira e tecnológica Califórnia, podem já ter sido um alarme nessa direcção, dizem os mesmos espíritos. E outros bons espíritos relembram coisas piores. Lembram ao Ocidente, por exemplo, o discurso de aceitação do prémio Nobel da Literatura por Soljenitsine, em que o sobrevivente do Gulag e do Pavilhão dos Cancerosos alertava para o excessivo optimismo de uma civilização livre mas moralmente decadente e intelectualmente entorpecida. Já Allan Bloom, no seu clássico anti-social democrata, que fez furor entre os revisionistas simpáticos de Leo Strauss, Nozyck e Ayn Rand, alertava para isso: &lt;em&gt;o relativismo axiológico, a perda do pensamento arquetípico, o fim da era das visões do mundo pode levar a uma libertação mas também a uma perda&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A uma &lt;em&gt;libertação&lt;/em&gt;, desprendendo o homem-súbdito da sua dependência quase narcótica em relação ao Estado e às ideologias redentoras. A &lt;em&gt;uma perda&lt;/em&gt;, por poder fazer soçobrar o mesmo homem num ciclo infernal de dúvidas, angústias, egoísmos e solipsismos predadores. Diz-se que esta é uma era de incertezas. &lt;em&gt;Mas se é assim, como se pode ter a certeza disso?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz Bloom que a degeneração do modelo ideológico sovietista esteve por detrás daquilo que viria a ser o colapso imperial que nem Gorbachev conseguiu suster. Mas refere ainda que outros «ismos», se podem seguir, no ruir das certezas absolutas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será o próximo «ismo» a incinerar-se o «liberalismo»? Quereremos nós ter liberdade para o dizer e para assistir a essa morte? Que tirano interior nos açulará então os cães negros da intolerância, seja ela romântica ou racional?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mito do fim das certezas toma-nos incapazes de responder. Como Cratilo, o céptico, podemos apenas mover os dedos, &lt;em&gt;pois as nossas palavras já não servem para descrever a realidade. Nem para descrever a ilusão&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora podem soar já as sirenes do Fahreneit 451. Mas ninguém liga. O homem descrente não acredita no fim do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1) Sei que &lt;a href="http://abrupto.blogspot.com/"&gt;Pacheco Pereira&lt;/a&gt;, um dos espíritos brilhantes que Portugal possui, não acha que Cuba seja uma «democracia totalitária» no sentido de Talmon. Mas é-o, em minha opinião, por combinar a retórica e a imagética demófila e a quase completa ausência de liberdade. E é-o, ao consagrar constitucionalmente direitos cuja eficácia se enfraquece pela ausência de garantias.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;E é-o, se tivermos em conta, como dizia ironicamente Duverger, que há democracias que não incluem o povo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 21&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;O frio da navalha: Forçosamente livres&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Nuno Rogeiro&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Junho de 1992&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106831370389126512?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106831370389126512/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106831370389126512&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106831370389126512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106831370389126512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/forosamente-livres.html' title='Forçosamente Livres'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106819946109989881</id><published>2003-11-07T10:03:00.000Z</published><updated>2005-09-23T14:00:06.236+01:00</updated><title type='text'>Porque correm os homossexuais? (Parte 3)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E ei-Ios que se lançam de novo em mais uma corrida. Desta vez a fuga. O medo. O vírus da SIDA - associado directamente pela castradora mentalidade cristã ao castigo das práticas altamente promíscuas no seio da comunidade gay - fá-Ios correr. Novamente são os primeiros: a ser escorraçados, apontados, identificados como potenciais portadores do vírus fatal. Mas essas histórias já todos conhecemos. Nos últimos cinco, seis, sete anos, têm enchido jornais, revistas em todo o mundo, têm pregado ao sofá da sala famílias inteiras. A homossexualidade volta à boca do povo, Satanás cai sobre S. Francisco e aquela que já tinha sido considerada como "paraíso gay" parece simbolizar agora a terra onde o "castigo de Deus" - "God is gay", a famosa frase que nos anos 70 se escrevia nas paredes de Manhattan, parecia ironia aos olhos dos pragmáticos cristãos - mais se fez sentir. Mas o que é que havia - e há - de novo em tudo isso? Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A homossexualidade, como escreveu Regina Louro em 81 no último número da Raiz e Utopia, sempre se desenvolveu clandestinamente. Nos conventos onde monges e freiras foram, em nome de Deus, condenados à fogueira. Por outro lado - ainda Freud e Jung vinham longe - a perseguição psiquiátrica, iniciada em 1857 por Ambroise Tardieu, foi a tal ponto que o senhor doutor chegava e chagava a cabeça aos colegas para que examinassem o ânus dos suspeitos: se fosse infundibuliforme (expressão cónica para cú afunilado - o que será?) havia prova cabal e segura de que o rapaz, homem ou cavalheiro era pederasta. Não sei se foi assim que os nazis mais tarde distinguiram entre homossexuais e judeus, para decidirem quem pôr a estrela de David ou o triângulo cor-de-rosa, mas o facto é que com ou sem rabo afunilado, milhares e milhares de homossexuais (na altura não se falava em gays - também era coisa que eles não eram, ou não estavam, na altura: alegres) foram parar às câmaras de gás. Em prol da pureza da raça, aniquilavam-nos enquanto, na tranquilidade do lar - que mais não se tratava do que valentes festanças, para não dizer valentes orgias, com cerveja a rodo - se entretinham a dar uso aos belos corpos dos puros arianos. Práticas antigas? Banalidades. Não é preciso recuar até ao delírio nazi, penetrar nas razões de tal patologia, apontar sublimações a uma provável impotência de Hitler, ou a práticas sado-masoquistas do Füher (a própria Eva Braun escrevia nos seus diários que ele nem tirava as botas para fazer sexo), nem tão pouco aos delírios de Estaline que condenava a trabalhos forçados todos os que fossem identificados com práticas de pederasta. Basta recuarmos até hoje. Até ao Irão. Até à Roménia. Até à União Soviética. Onde a homossexualidade ainda é ilegal aos olhos da lei. Talvez os iranianos estejam agora com a cabeça muito ocupada com a Guerra do Golfo, com tomadas de decisão pró e contra Hussein, mas ainda ontem fuzilavam os homens acusados de procurar prazer nos corpos do mesmo sexo. Na URSS, se bem que as coisas estejam a mudar e questões maiores se levantem, ainda se sabe da existência de departamentos especiais dentro do KGB (em cada grande cidade da União) especificamente com a função de lutar contra a homossexualidade. Só em Maio último a Rússia pôde assistir à primeira conferência / encontro de gays e lésbicas, realizado em Tallinn; só em 3 de Agosto os russos tiveram a possibilidade de poder ler, na própria língua, um jornal especificamente feito para um público homossexual - chama-se Gay Pravda, oito páginas, uma tiragem de 85.000 exemplares, uma produção holandesa feita por jornalistas franceses, alemãs ocidentais e holandeses e chegou a Moscovo através dos transportes da Moscow magazine; foi desenhado para parecer o Pravda (jornal oficial do partido), trazia na capa o slogan "GAYS DF THE WDRLD UNITE" e promete nova edição já para Dezembro. Mas o que é que tudo isso tem a ver connosco, com este povo que toda a gente sabe ser de brandos costumes, de indecisões morais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá, mais do que social, a homossexualidade é familiar. São problemas pessoais, movimentações pelo prazer ou existenciais. Não se reclamam publicações gays, nada de muito organizado que provoque muito alarido. É como se não se quisesse acordar uma moral adormecida (dos outros) com medo de depois não saber como lutar contra ela. Abrigam-se à sombra desse sono, integram-se como podem na sesta da besta, correm devagar nos circuitos habituais, entre os amigos comuns, os sítios já decorados. São como contratos a prazo as relações entre os homossexuais e a sociedade burguesa e cristã: a segunda fecha os olhos se a primeira fechar a boca, ou vice-versa, tanto faz. Não se diz à mãe ou ao pai que afinal já não vão ter o netinho tão desejado; não se diz ao patrão nem aos colegas que afinal as pernas da menina do snack não lhe dizem rigorosamente nada, que a rapariga com que costuma sair à noite não é namorada mas uma amiga que divide com ele os olhares cúmplices dos rapazes que se desejam; não se diz aos amigos de escola ou aos vizinhos de bairro que a conversa das "gajas boas" não lhes diz rigorosamente nada. Deixa-se essas conversas para quem sabe, aceita e até gosta de falar sobre isso. Há que respeitar o contrato e deixar a besta adormecida no seu olhar de quem vê e finge não ver. As conversas em surdina com os amigos ao telefone, os rapazes mais efeminados que às vezes aparecem lá por casa a visitar o filho, os namoros que escasseiam, o casamento que demora - no fundo, isso não chega para que ele seja homossexual! O engano é mútuo, mas tanto faz, a corrida faz-se lá fora. Cá, desconhecem-se casos de despedimento por se ser gay, violência homofóbica estruturada (tirando casos pontuais de skinheads), discriminação sexual organizada. Cá sabe-se depois, lê-se nos jornais, entre o acordar difícil da noite (e a noite é gay - alegre, bem entendido!) e o esperar pelo parceiro certo, porque correm os homossexuais. Cá corre-se para casa. Para a noite. Para a certeza de se encontrar aí o prazer escolhido. Nos bares, nos jardins, nos encontros fortuitos. Em último caso nas saunas, nas casas de banho, nos cinemas pornográficos, nos ginásios (de resto, influências que ainda permanecem dos anos 70 norte-americanos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pergunta permanece a mesma, eternamente. A mesma pergunta que Regina Louro formulou em 1981 e que hoje ainda é tão pertinente como em 63, 75 ou 90: "Porque correm os homossexuais?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Montreal, desde o passado dia 15 de Julho que os activistas gays têm vindo a questionar a veracidade da fama que a sua cidade tem como tolerante face aos homossexuais. Motivo: o espancamento pelos polícias de alguns foliões que se animavam numa festa fora de horas, algures no centro da cidade. A confrontação terminou com oito prisões e cinquenta injúrias. No dia seguinte, duzentos activistas aglomeravam-se à porta da esquadra da polícia municipal. Mais injúrias. A polícia nega qualquer agressão e protesta contra festas fora de horas. A 29 de Julho, eram mais de dois mil os que se juntavam no parque da cidade para um rally de protesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 10 de Agosto, junto às embaixadas argentinas de muitas capitais do mundo ocidental, um movimento anormal de pessoas. Motivo: os activistas gays, argentinos sobretudo, denunciavam a repressão que os gays deste país sul-americano sofriam por parte de organizações oficiais, policiais em particular. Segundo palavras de Rafael Freda à revista homossexual americana The Advocate, tem-se verificado na Argentina a prisão e a detenção de homossexuais durante um dia, "só porque se passeiam juntos (subentenda-se agarrados) pelas ruas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Nova Iorque, um grupo treinado de lésbicas e gays começou a patrulhar as ruas de Manhattan durante os fins-de-semana. Motivo: a violência anti-gay, homofóbica, que ainda continua a fazer-se sentir na capital norte americana, sem que alguém lhe dê cobro. Querem fazer parar essa situação a qualquer custo. Chamam-se Pink Panthers (Patrol) e estão determinados a retomar as brumas e fazer valer a sua liberdade sexual, sem medos. Vestem t-shirts pretas com um triângulo rosa ao centro (sobre o qual é estampada uma pegada de pantera negra) e à primeira vista dir-se-ia tratar-se de uma equipa de softball. Mas não. De tropas se trata e, embora apregoem a não-violência e não exibam qualquer arma, estão mais do que decididos a fazer parar a onda de agressão homofóbica. Aí não se fala em New-age e Nirvanas, em casulos fáceis. A conversa é: sobreviver a qualquer custo. Patrulhando a cidade em grupos de oito a doze, equipados de walkie-talkies, câmaras e com um intenso treino em artes marciais na bagagem, querem deter os "sacanas" dos anti-gays (geralmente marginais de tenra idade que só atacam em grupo e indivíduos isolados), imobilizando-os até que a polícia chegue e tome conta da situação. Para eles, é a única solução possível para que pare, de uma vez por todas, a "festa" anti-gay.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo isto não traz, em si, nada de novo. Porque correm os homossexuais? Porque correm os heterossexuais? Quem corre primeiro, quem corre atrás de quem? No fundo, quis a natureza que a realização do acto seja associada a um prazer; quis o homem que fosse esse prazer a suscitar o desejo, o movimento dirigido para o que "dá prazer". Quiseram ambos que uns se excedessem nessa procura e outros dela se abstivessem. Porque em questões de sexo - mesmo a da própria identidade - a única coisa fundamentalmente importante que distingue os indivíduos entre si é: de um lado os que procuram aí a razão primeira da sua vivência, do outro, os que fazem dela um objecto fóbico, ou que dela se abstêm por razões que dificilmente nomeiam. A corrida faz-se no sentido do acto e do prazer pelo acto e não na do objecto em que o acto se dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;In K, nº2&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Porque correm os homossexuais&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Paulo Gomes&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Novembro de 1990&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106819946109989881?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106819946109989881/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106819946109989881&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106819946109989881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106819946109989881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/porque-correm-os-homossexuais-parte-3.html' title='Porque correm os homossexuais? (Parte 3)'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106811726478779250</id><published>2003-11-06T11:10:00.000Z</published><updated>2005-09-23T13:59:31.223+01:00</updated><title type='text'>Porque correm os homosexuais? (Parte 2)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/gays1-746069.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/gays1-745260.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Fotografia: Inês Gonçalves&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Após a revolta, a crítica. Ou: com a revolta, a crítica. Como diria Foucault, talvez os homens não inventem muito mais na ordem das proibições do que na dos prazeres. Na homossexualidade, as combinações são múltiplas. Os prazeres constantemente rebuscados, as proibições palavra-de-ordem para a sua essência. Um pouco como a criatividade, a homossexualidade vai a par com a censura: quanto mais a segunda existe, mais a primeira é pensada e reinventada. Como se precisassem de um inimigo, da eleição de um inimigo comum, para merecerem toda a genialidade da sua génese inicial. Na antiguidade clássica, o amor dos homens pelos rapazes (os paidika) era uma prática "livre", no sentido em que era não só permitida pelas leis, como também admitida pela opinião. Possuía cauções religiosas em ritos e festas onde se interpelavam, a seu favor, as potências divinas que deviam protegê-lo. Enfim, como diz Foucault na História da Sexualidade, "Era uma prática culturalmente valorizada por uma literatura que a cantava e por uma reflexão que fundamentava sua excelência." Além de um amor cantado, era também uma canção com refrão, com regras partilhadas e aceites por todos. Os papéis estavam fixos à partida: de um lado erasta, do outro erômeno. Ao primeiro, mais velho e de maior status, cabia a posição de iniciativa, de perseguição - o que lhe conferia direitos e obrigações: tinha de mostrar o seu ardor e também de o moderar; dava presentes, prestava serviços e tudo isso o habilitava a esperar a justa recompensa. O outro, muito mais novo, amado e cortejado, devia evitar ceder com muita facilidade; devia evitar aceitar demasiadas honras diferentes e conceder cegamente ou por interesse os seus favores sem pôr à prova o valor do seu parceiro; devia também manifestar reconhecimento pelo que o amante fazia por ele. Nada era jogado ao acaso: estava em jogo a honra do rapaz, do respeitável senhor e do status futuro do desejado. Mas era um jogo aberto, sobretudo espacialmente. A corte fazia-se na rua e nos lugares de reunião: em espaços onde cada um se deslocava livremente, de forma a ser necessário perseguir o rapaz, caçá-Io, espreitá-Io lá onde ele pudesse passar e retê-Io no lugar onde ele se encontrava. O prazer estava também na necessidade de ter de correr ao ginásio, de ir à caça do amado, esfalfar-se em exercícios exigentes para os quais não se estava fisicamente apto, queixar-se da renúncia enquanto limpava os suores em cascata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São códigos que se observam ainda nas condutas dos gays, muitos séculos depois. Procurar prazer, semelhança, evitar erros, acertar com menor esforço. À primeira. Com ritos de abordagem, transformam em perícia o isolamento para o qual são lançados ao longo do domínio judaico-cristão. São melhores no que fazem do que qualquer Casanova com um currículo vastíssimo em conquistas de alcova. Apostando num discurso fácil, dir-se-ia que à custa de desenvolverem uma cultura paralela, abundante em códigos só perceptíveis dentro da própria comunidade gay, reivindicam uma perícia e um requinte ad extremum na abordagem directa, na conquista de prazeres imediatos e sem custo. O perigo de engano é reduzido ao mínimo, o parceiro certo é tão fácil de identificar quanto possível. Uma das révanches à opressão homofóbica seria essa: as frustrações ocorridas por uma abordagem errada seriam reduzidas ao minimesimal. Os tempos eram outros; Na comunidade gay o prazer era total. O sexo proliferava, sem culpabilizações de maior, a cultura gay, em muitas capitais da Europa e em certas cidades dos EUA (nomeadamente S. Francisco, considerada por muitos como "o paraíso gay"), era reconhecida e de mérito; o "paraíso" (o tão falado paraíso), dizia-se, estava à mão. Estava-se nos anos 70 e, finalmente, fazia- se a consagração (seria?) do aparecimento do termo "gay" surgido durante os anos 20. Os primeiros bares gays já tinham surgido há muito na velha Berlim anterior à Guerra e daí proliferaram para toda a Europa e EUA. Restava libertar líbido, dar uso a prazeres condenados e retirar daí o máximo que lhes aprouvesse. No centro da cultura gay, a carne, o corpo, o abuso condenável entre os corpos do mesmo sexo. No cinema, na literatura, na noite. Sobretudo na noite. Nomeavam-se os sítios e logo eles se enchiam. Abarrotavam de corpos; o rosto era secundário e o sexo identificava o próprio desejo. Surgiram programas de televisão e rádio especificamente homossexuais, revistas e jornais, grupos de apoio, reuniões onde calhava só para exprimir uma sexualidade dita marginal e que os conduzia a práticas excessivas. Dizia-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 2&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Porque correm os homosexuais&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Paulo Gomes&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Novembro de 1990&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106811726478779250?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106811726478779250/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106811726478779250&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106811726478779250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106811726478779250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/porque-correm-os-homosexuais-parte-2.html' title='Porque correm os homosexuais? (Parte 2)'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106803246097848693</id><published>2003-11-05T11:32:00.000Z</published><updated>2005-09-23T13:57:55.846+01:00</updated><title type='text'>Porque correm os homosexuais? (Parte 1)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/gays-703371.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/gays-702391.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Foto: Inês Gonçalves&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;V I V E M em duplas existências, em caminhos paralelos, cheios de duplicidades, de duplos sentidos. Cliché? Certo, os gays portugueses resumem-se ainda a um enorme cliché de identidade ora exuberante, ora fechada em silêncios ou sussurros, ora em pequenos guetos com bandeiras culturais. Não correm a caminho de manifestações anti-rácicas Avenida da Liberdade abaixo, não se reúnem em parques ao domingo à tarde para debater violências e discriminações homofóbicas, não promovem abaixos assinados contra separatismos sexuais, morais, políticos que os afectem enquanto entidade sexual. Há dez ou onze anos atrás, levantaram a perna e parecia que alguma coisa ia acontecer. A revolução política ainda estava fresca nas memórias, o momento parecia indicado para se tomar posição e destaque hastear a bandeira da homossexualidade lusitana. Em Braga falava-se da primeira associação gay, em Lisboa preparavam-se os primeiros encontros - e julgo que os últimos -, em Janeiro de 81, do Colectivo de Homossexuais Revolucionários na Comuna. Como afirmou na altura Isabel Leiria, uma das iniciadoras do CHR "Não se trata [não se tratava] de fazer a apologia da homossexualidade, mas de criar um movimento de reconhecimento da homossexualidade como realidade humana, de despenalização e aceitação social" (in Raiz e Utopia). Os ânimos eram efervescentes e era muita a vontade de fazer alguma coisa. Muitos dos nomes ligados às artes e ideias assinavam este movimento e a corrida parecia ir começar. Mas tudo correu à velocidade do silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pouco à semelhança das próprias histórias pessoais contadas nas mesas do café, com o olhar direito de quem desafia o castigo dos outros. Entre altas vozes e silêncios, as histórias repetem-se, permanecem inalteráveis ao longo dos tempos. Os começos fazem-se como profecias inevitáveis. Com os primos, os amigos de infância, entre brincadeiras inofensivas, entre jogos de quem-faz-sem-querer, sabendo. A brincar ao quarto escuro, descobrindo o parceiro pelo tacto, em falsas guerrilhas com toques naïves no corpo que já se diz desejar. A tomada de consciência repete-se de história para história: "Sempre me vi a desejar os amigos de escola, a gostar de tocar no corpo dos meus amigos de brincadeira", "desde que me lembro que me excitaram sempre mais os corpos dos rapazes do que os das raparigas". Nada de novo. Tão banal que se ouve sem surpresa. "Tiveste a tua primeira experiência com quem? Com o teu primo?" Claro. Tão claro como o reconhecimento tardio das preferências, o terror de contar aos pais, o pânico de partilhar as certezas no trabalho. Tão certo como rivalizar o prazer de aventuras sucessivas e efémeras com utopias de amores para sempre, definitivos. Corre-se depressa, à velocidade da luz. Fixado num amor, em excessos de dor e de desilusão, em sublimações, em sucessos profissionais, em revoltas, mas sempre depressa. Correm. Para o refúgio da casa, para o casamento mascarado, para a denúncia de erros paralelos, para compensações de outros níveis, para o prazer directo e imediato, sem custo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se tratasse de sobrevivência, como se procurassem um equilíbrio difícil onde julgam existir um desequilíbrio. São poucos os que vivem com prazer a homossexualidade percebida, querida e aceite. Com normalidade. Ao contrário dos heterossexuais? Claro que não; apenas a uma velocidade diferente, como se a "anormalidade" incutida por anos de opressão moral e cristã obrigasse a um redobramento dos gastos investidos e, consequentemente, a um redobramento dos ganhos e das perdas. O sofrimento, brada-se a dobrar, a felicidade exprime-se em demasia, os amantes querem-se de perder o fôlego, a solidão sente-se como castigo, como desígnio de deuses. Não se alcançam, nunca. Daí a sua genialidade, daí o seu sentimento de perdição: negado mas sentido entre as quatro paredes, entre as ausências, entre o silêncio pesado. O inconfessável. Ainda hoje, ainda hoje quando a noite das confissões possibilita, de ânimo leve, sem culpa, a vivência plena da homossexualidade. Ainda assim se corre. Uma das surpresas na TF1, o canal de maior audiência da televisão francesa, foi, há três meses atrás, o programa sobre o tema "O meu filho é homossexual" inserido na nova série A Vida em Família. Sentado perante 8 milhões de espectadores, às 22H30 de uma noite que nada teria de anormal senão a hipótese dos seus pais estarem a assistir à emissão, Eric - um jovem de 19 anos - vai jogar o papel de filho homossexual. Mesmo a horas tardias o jogo não era fácil e a tarefa era tudo menos de criança. Talvez os pais o vissem no écran, talvez não. Fosse como fosse, a questão era esta: como jogar esse jogo, como chegar lá? Mesmo hoje, quando tudo parece querer mudar, mesmo para quem se reivindique liberal em questões de sexo, ainda é de ficar surpreendido com a coragem deste passo, de uma franqueza quase comovente. Provocador? Nem pensar. O tom era calmo, sem apelos nem desesperos. Falava-se do inominável apenas. Da lei do silêncio, do "se disso não falarmos, isso não existe". Eric apenas queria mostrar que era como toda a gente. Ou, como ele começaria por dizer, que "essa pequena particularidade [que ele tinha] cada um tem as suas". Não se esquecia que "essa pequena particularidade" ainda choca, ainda mexe com a moral e os preconceitos de quem não despregava os olhos do écran; não tinha nenhuma dúvida de que os seus pais iriam reagir mal, que iriam pensar que não têm um filho como os outros, que "me considerarão antes de mais como um homossexual e só depois como filho". Mas quis falar nisso. Correr para o écran, olhá-lo e dar a conhecer as suas melancolias intermináveis, o seu lidar solitário com essa experiência, de quem não encontrou outra solução senão a de suportar tudo de boca fechada. Justifica-se: "Como isto [a confissão] vai sair menos directamente, é mais simples para mim e vai obrigar os meus pais a reagir." E reagiram. A mãe confessou que sentiu as pernas tremerem e o chão desaparecer debaixo dos pés; o pai pensou nunca mais conseguir ultrapassar tamanha vergonha. E o programa continuou. Sucederam-se os testemunhos, as confissões facilmente nomeáveis, as indignações francamente reprováveis. Uma atmosfera trágica? Sim, em parte, mas essencialmente banal: tragicamente banal. Ridícula. A surpresa vem - claro - das explicações da homossexualidade, dos conselhos. Ai Jesus! A exemplo, Madame Marie Saint Didier - autora do press release que acompanhava o programa - na sua mensagem aos filhos homossexuais, fez chorar as pedras da calçada. Dizia ela: "Dirigindo-me a eles, queria fazê-los reparar que ao optarem assim rejeitam metade da humanidade [se fosse na Austrália seria 4/5 da população, mas ela não queria ser tão trágica, metade já servia para lhes abrir os olhos!]. Para mim, um casal é complementar. Ora num casal homossexual existe um olhar ao espelho. Quero com isto dizer que não os repudio, porque todos nós somos feitos de um homem e de uma mulher. Todos nós temos uma parte masculina e outra feminina em nós mesmos [não diga!]. Logo, está fora de questão recusá-los. Mais do que nunca são nossos filhos, pois estão em dificuldade. Precisam de nós, do pai e da mãe." Pergunto-me: e o Deus-Pai em tudo isso? Porque correu Eric?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 2&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Porque correm os Homosexuais&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Paulo Gomes&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Novembro de 1990&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106803246097848693?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106803246097848693/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106803246097848693&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106803246097848693'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106803246097848693'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/porque-correm-os-homosexuais-parte-1.html' title='Porque correm os homosexuais? (Parte 1)'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106795400662448662</id><published>2003-11-04T13:48:00.000Z</published><updated>2005-09-23T13:55:34.063+01:00</updated><title type='text'>Coisas para fazer com o "Público" que não consegue ler</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/publico1-748732.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/publico1-747225.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/publico2-794762.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/publico2-791935.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;RESUMO: Não conseguir ler o "Público" não é vergonha nenhuma. Com jeitinho e paciência até que é um bel jornal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K nº 4&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Delírios: Coisas para fazer com o "Público" que não consegue ler&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Janeiro de 1991&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106795400662448662?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106795400662448662/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106795400662448662&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106795400662448662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106795400662448662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/coisas-para-fazer-com-o-pblico-que-no.html' title='Coisas para fazer com o &quot;Público&quot; que não consegue ler'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106786216496264862</id><published>2003-11-03T12:17:00.000Z</published><updated>2005-09-22T21:13:30.273+01:00</updated><title type='text'>Doce palavra vingança</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/vinganca-783774.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/vinganca-781737.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O problema é que se vive a mania da civilização, com tudo o que a ela está pegajosamente agarrado: a dentadura sorridente tem de estancar a fúria, as discórdias têm de ser esquecidas nos locais de trabalho porque senão a cotação da bolsa desmaia, a música tem de se ouvir baixo porque há vizinhos em cima, os namoros acabam-se com prendas em vez de tiros, e por aí fora numa insensatez humana que não faz sentido nem aproveita ninguém a não ser o abstracto bem estar social que nos oprime. Quem se enfurece tende a acalmar o tumulto que alguém lhe colocou no corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que não é fácil descobrir em nós onde se situa essa semente de vingança que nos definha e nos mata pouco a pouco: se nos olhos porque ver quem nos quer mal é o pior de tudo, se na memória porque as recordações daquilo que o inimigo nos fez nos aniquila aos poucos, se nos ouvidos porque ouvir falar dele é doloroso, se noutros cantos escuros do nosso corpo que ainda se sentem traumatizados apesar de já ter passado algum tempo desde o momento fatal. E se a localização da fonte não é fácil, este facto deve-se apenas a uma razão: tal como sucede com as hemorróidas, que estacionam metodicamente numa única área, a vingança assenta arraiais num ponto concreto e vital, o coração. E, ao contagiar esse órgão fundamental, contamina todos os nossos sentidos, ataca o nosso passado e presente e alastra descontroladamente até que tenhamos coragem de tomar algumas medidas em relação à pessoa que nos atirou para esta vida de miséria. E então é tempo de tomar balanço, rever estratégias, localizar o inimigo no espaço, limpar as armas e declarar-lhe guerra até que seja reposta a justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há que ter medo da fúria, das más maneiras, do escândalo social, dos parentes estatelados na lama ou da cabeça do nosso cavalo de estimação que um qualquer mafioso colocou na nossa cama para nos avisar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada como a fuga em frente para resolver a questão. Afinal de contas, uma vingança não é mais do que uma retribuição, um conceito de compensação vindo de tempos imemoriais em que as únicas regras utilizadas eram a da Talião e a "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". É simples de entender porque, justamente, se baseiam em comportamentos tão naturais como a reciprocidade, igualdade de tratamento, pecar e expiar, autoridade e prestígio, respeito e honra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há que ter vergonha, não há que tentar controlar os ímpetos revanchistas, exactamente porque é um dado humano inato e que, por isso, existe em praticamente todas as culturas. Se optar por difamar alguém ou pegar-lhe fogo à casa, não tem de se assustar com a violência dos seus actos ou com a natureza latina e impetuosa que coabita consigo. É que, comparado com aquilo que outros povos fazem para restabelecer a justiça pelas suas próprias mãos, o seu comportamento é quase angelical. Há tempo, os jornais trouxeram o caso da prisão de Pulau Senang, nas proximidades de Singapura. Houve uma revolta e, embora os detidos tivessem controlado a situação num primeiro momento, não fugiram imediatamente preferindo devolver aos guardas uma variante dos suplícios de que foram alvo durante o cativeiro. Esmeraram-se em actividades lúdicas: castraram-nos, arrancaram-Ihes os olhos e submeteram-nos a outras carícias idênticas. O tempo que levaram a consumar a vingança foi tanto - sem dúvida porque, naquele momento, sentiram que a liberdade podia esperar mas a justiça não - que as autoridades conseguiram inverter as posições e retomaram o controlo da situação. Escusado será dizer que os revoltosos foram executados sumariamente nos dias que se seguiram, enforcados seis de cada vez nas caves da prisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como esta, há um intocável número de histórias nos registos da humanidade, precisamente porque o mundo está cheio de gente pouco disposta a deixar que o seu caso pessoal seja entregue aos tribunais. Entre os Moussey dos Camarões, por exemplo, o carácter de um homem é julgado de acordo com a quantidade de inimigos que ele tiver morto. E se pretender casar, o problema dos filhos, da noiva e da segurança social são insignificantes comparados com a pergunta ritual que o sogro lhe vai fazer nas vésperas da união: "Afinal quem é que mataste para merecer a mão da minha filha?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto aos Manobos de Mindanau, nas Filipinas, vão para a floresta depois de um membro da família ter morrido. Não porque se queiram isolar em silêncio longe da multidão ululante, mas porque querem vingar a morte do seu ente querido, o que conseguem quando cortam o pescoço ao primeiro incauto que lhes aparecer pela frente. A prática é idêntica entre os Maori e entre primitivos da Nova Zelândia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo nas culturas mais próximas e entendíveis, a regra é a da retaliação pura e simples, seja no Código de Hamurabi, seja nas tábuas de Talião, seja nas escrituras hebraicas, nas leis babilónicas ou nos códigos gregos. Isto para já não falar nos casos de vingança pessoal. Sócrates foi envenenado pelos juízes, César foi apunhalado pelos senadores, Cristo foi atraiçoado pelos lacaios, Mozart por Salieri; Orwell retribuiu com os escritos todas as maldades que lhe fizeram em criança ("&lt;em&gt;the desire to get your own back on grownups who snubbed you in childhood&lt;/em&gt;"), Juvenal em relação à decadência do império romano, Lutero face aos desvios papais, o Terceiro Reich em relação às cláusulas do Tratado de Versalhes, Nietzsche contra os cristãos, o Morcego Vermelho e os gangsters de Patopolis. A vingança é natural, intemporal, humana, aceitável e, como diz o provérbio, muito melhor quando servida fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NASCIDOS PARA VINGAR&lt;br /&gt;Alguns dos maiores estrategas da vingança, verdadeiros heróis de uma espécie prestes a extinguir-se: os que pensam com o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAIM - D. PEDRO - PATACÔNCIO - KARL MARX - OTELO SARAIVA DE CARVALHO - CINDERELA - EDMOND DANTES - CONDE DE MONTECRISTO - AL CAPONE - CALíGULA - MARQUÊS DE POMBAL - BATMAN - CARRIE - DON CORLEONE - ESTALINE - CHARLES MANSON - RAMBO - LI PENG - A DEUSA NEMÉSIS - KING KONG - POVO ROMENO - GALILEU - ISRAELITAS - PALESTINIANOS - SALIERI - JEANNE MOREAU - A NOIVA QUE ESTAVA DE LUTO - VíRUS DA SIDA - ASTERIX - ADOLF HITLER - ELI WIESEL - MOBY DICK - CAPITÃO AHAB - A AMANTE QUE ERA MULHER DO LADRÃO E AMIGA DO COZINHEIRO - TALIÃO - JACOBINOS - INDIANA JONES - KU KLUX KLAN – NORAS – SOGRAS - ÁTILA - O HUNO - A FORMIGA DE LA FONTAINE – ORESTES – J. R. EWING – ÉDIPO – KHOMEINI – SHAKESPEARE - ROBIN HOOD – ELEFANTES – DIABO - DEUS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 2&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Doce palavra vingança&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Rui Henriques Coimbra e Carlos Quevedo&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt; Novembro de 1990&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106786216496264862?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106786216496264862/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106786216496264862&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106786216496264862'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106786216496264862'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/doce-palavra-vingana.html' title='Doce palavra vingança'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106778502501470669</id><published>2003-11-02T14:52:00.000Z</published><updated>2005-09-22T21:06:13.966+01:00</updated><title type='text'>O Barbeiro</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/barbeiro-724530.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/barbeiro-723530.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Fotografia: Pedro Cláudio&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A MAN'S gotta do what a man's gotta do», diria John Wayne ou outro como ele. A frase parece redundante, mas não é; e o pior é que está a cair em desuso. Hoje, os homens já não fazem o que têm de fazer, mas o que pensam que toda a gente faz. Mais grave ainda: vão onde toda a gente vai, mesmo que isso signifique ir a um «cabeleireiro unissexo».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das modernas perversões, não consigo imaginar nenhuma pior do que os cabeleireiros unissexo. Não é só a perda de mais um universo masculino - é o abandalhamento de um ritual de iniciação. Ir ao barbeiro desde menino, acompanhado pelo pai, é um dos hábitos mais saudáveis para a educação de um rapaz. Logo em pequeno aprende a conviver com conversas sobre mulheres, política e futebol enquanto é acarinhado por aquele que, a partir desse momento mágico, irá ser o seu barbeiro. Ao longo dos anos, o barbeiro torna-se cúmplice na vida do adolescente: fala-lhe dos estudos, da vida, conta anedotas, pergunta-lhe como estão os pais, estimula namoros e pequenas marialvices. Aos poucos, o rapazinho vai sendo capaz de acompanhar e começar as conversas que ouvia quando pequeno, e a partir daí nasce uma grande amizade. Agora, expliquem-me como isto é possível num «cabeleireiro unissexo».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O genuíno barbeiro-amigo tem de possuir várias características. Primeiro, é bastante recomendável que seja herdado, isto é, que o nosso pai já tenha sido (ou ainda seja) cliente habitual. Depois, um verdadeiro barbeiro deve ter obrigatoriamente um engraxador que saiba tudo sobre futebol e uma ou mais manicuras que independentemente da idade sejam tratadas por «meninas». Pessoalmente, não gosto de barbeiros localizados nas zonas novas da cidade (o meu é na Rua dos Correeiros, aqui em Lisboa), mas admiro que se trate de uma posição radical. "&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem civilizado, o que não vai a cabeleireiros unissexo falar de estilismo e da dança no ACARTE, tem uma fidelidade canina ao seu barbeiro. Cada vez que, por motivos de força maior, vai cortar o cabelo num estabelecimento desconhecido, sente cada golpe de tesoura como uma traição amorosa e um sentimento de culpa do tamanho do mundo. Francamente, nos tempos que correm, é assim que cada vez mais deveria ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 19&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;O barbeiro&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Nuno Miguel Guedes&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Abril 1992&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106778502501470669?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106778502501470669/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106778502501470669&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106778502501470669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106778502501470669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/11/o-barbeiro.html' title='O Barbeiro'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106742664913435382</id><published>2003-10-29T11:21:00.000Z</published><updated>2006-02-03T18:11:02.473Z</updated><title type='text'>Anedotas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/anedotas-730111.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/anedotas-729103.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um preto entrou numa loja para comprar chocolate. O empregado perguntou: «Branco ou preto?» Então o preto tirou o cinto, desapertou a braguilha e disse: «Baixa as calcinhas».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um branco entrou numa loja para comprar leite. O empregado perguntou: «Com ou sem café?» O branco respondeu: «Vai pró caralho».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher foi ao hospital à procura do marido. O médico de serviço era preto e disse: «Dispa- -se», A mulher, sentindo-se insegura, respondeu: «Não.» Então o médico rapou da sarda e violou-a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um arquitecto homossexual quis comprar uma mobília de quarto. Meteu-se no carro para ir ao Vassoureiro mas perdeu-se e atropelou um cão. Quando a mulher lhe perguntou «Onde é que estiveste toda a tarde?» ele respondeu: «Fui comer um gelado ao Patchuka.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma Vez um papagaio com um pénis do tamanho de um Caran d’Ache. Um dia uma criança ofereceu-lhe uma Bélita e ele sofreu uma erecção massiva. «Olá», disse a criança. «Que é isso que tens entre as pernas?» E o papagaio ripostou: «Pouca conversa e baixa mas é as calcinhas,»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um televisor sentia-se só. Vivia numa sala cheia de electrodomésticos que não falavam com ele. Um dia, apareceu em casa um leitor de cassetes. O televisor, que era do Porto, perguntou: «Oube lá - que idade tens tu?» E o leitor respondeu: «36. Agora baixa as calcinhas.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma cassete virgem estava numa prateleira do Continente à espera de um comprador. O tempo passava mas as pessoas preferiam comprar as colegas. Quando eram já quase horas de fechar, o guarda veio e disse: «Deixa lá, filha, hoje não tiveste sorte, mas amanhã é outro dia.» Aí a cassete, indignada, disse: «Deixa-te de lérias. Baixa mas é os Abanderados.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário Soares estava na casa de banho quando reparou que trazia as cuecas ao contrário. Um cotonete, que estava a ver, disse para o pente: «Foda-se, está um frio do caralho!» O pente, cheio de si, respondeu: «Olha, já que falas nisso, baixa mas é os slipes.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez um duende matreiro com um enorme parafuso entre as pernas. Certo dia, estando ele à janela a afagar a rosca, apareceu-lhe um tubo que disse: «Bela peça!» O duende fez-se rogado e morreu. O tubo foi-se embora, choroso. Apareceu um passarinho que, não sabendo que estava morto, começou a chilrear esta canção: «Baixa as calcinhas, baixa as calcinhas, tra Ia li Ia Ia...»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 12&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Anedotas&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Setembro de 1991&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106742664913435382?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106742664913435382/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106742664913435382&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106742664913435382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106742664913435382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/anedotas.html' title='Anedotas'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106735158962399807</id><published>2003-10-28T14:30:00.000Z</published><updated>2006-06-22T01:40:38.316+01:00</updated><title type='text'>Manual nazi para detectar taxas de risco. .</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de chegar a vias de facto com a jovem é possível, com diplomacia, avaliar os factores de risco dela ser seropositiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em caso de resposta afirmativa a &lt;strong&gt;QUALQUER UMA DESTAS PERGUNTAS&lt;/strong&gt;, afaste-se imediatamente da pessoa infectada e informe os seus amigos e a polícia. Ex:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. «Não achas que cada um tem direito à sua sexualidade?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Costumas ir ao Frágil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Eras capaz de dar um beijo num preto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Alguma vez levaste no c*?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Tens ido ao dentista ultimamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Ele é solteiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. Emprestas-me a tua seringa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. Vais votar no PRD?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. Foste à exposição do Mapplethorpe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10. Gostas de Jean Genet?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11. Posso levar-te a casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o cuidado é pouco! O seronegativismo Como estilo de vida. O &lt;strong&gt;SERONEGATIVISMO&lt;/strong&gt; baseia-se nos mais modernos princípios médicos e éticos e foi desenvolvido nos anos 30 pelo Professor Ângelo Mengel nos laboratórios de Spandau Ballet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SER SERONEGATIVO hoje é afirmar a masculinidade de uma forma equilibrada e saudável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SE QUER REALMENTE EVITAR O MÍNIMO RISCO DE SIDA: Ao saudar um homossexual, prefira as formas verbais, evitando o aperto de mão. Há maneiras de fazê-lo sem ofender. Os homossexuais são frequentemente indivíduos sensíveis (artistas, estilistas, estrangeiros). Leve sempre consigo duas ou três listas telefónicas e explique: «Desculpa não te apertar a mão mas, como vês, tenho que levar estas listas telefónicas...»&lt;br /&gt;Se o homossexual mesmo assim insiste em tocá-lo, atire-lhe as listas e fuja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MUITAS VEZES OS HOMOSSEXUAIS telefonam sem avisar para as nossas casas. Não se deve entrar em pânico. Coloque um preservativo à volta do auscultador e seja breve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar dos riscos envolvidos os homossexuais insistem em mandar faxes para pessoas saudáveis. Como proceder?&lt;br /&gt;Antes de mais NÃO LEIA A MENSAGEM, por muito interessante que possa parecer. Pode ser uma armadilha. Coloque 4 preservativos no polegar e indicador de cada mão e queime o fax imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boas razões para não usar preservativo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. «Sei lá onde é que este preservativo andou!”»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. «Porquê? Tens Sida?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. «Desculpa mas prefiro ir-te ao cu do que estar a usar isto.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. «O Papa não deixa».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. «O meu pai também não».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. «Vou dizer à tua mãe que andas com camisas-de-vénus na mala».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K nº 14&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Breve história nazi da Sida&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Novembro 1991&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106735158962399807?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106735158962399807/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106735158962399807&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106735158962399807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106735158962399807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/manual-nazi-para-detectar-taxas-de.html' title='Manual nazi para detectar taxas de risco. .'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106708990395837434</id><published>2003-10-25T14:44:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T20:58:06.726+01:00</updated><title type='text'>FAMÍLIA-UTOPIA</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/familia-758933.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/familia-757944.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Ilustração: José Fragateiro&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos dias que correm, assiste-se a uma cada vez maior degradação do conceito de família e dos seus valores mais básicos. O texto que Miguel Esteves Cardoso escreve aqui, continua cada vez mais actual. Será este o modelo ideal de família?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“HÁ QUALQUER coisa de errado na família. A família não funciona. Sei que, como conservador, deveria defender a família. Mas não consigo. A família é indefensável. É um equívoco. É um efeito de economia. A família está a dar cabo das pessoas. E das famílias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque é que as pessoas, só por serem consanguíneas umas das outras, hão-de viver juntas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças haviam de ser separadas dos pais desde a mais tenra idade. Os próprios pais haviam de ser separados um do outro desde a mínima ternura. Só assim é que o amor poderia crescer e a família continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algo de promíscuo na maneira como as famílias vivem. As pessoas vivem umas em cima das outras. São obrigadas a ver o mesmo canal de televisão, a comer o mesmo arroz de polvo, a ouvir as mesmas discussões, a ver os mesmos roupões e até a cheirar o mesmo chulé dos mesmos chinelos anos 40 do avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pouco saudável. Não admira que toda a gente queira bater a asa à primeira oportunidade. À ganância. Para cair noutro ninho, com outro marido e outros filhinhos, mas ainda pior. É por estas e por outras que as famílias se separam cada vez mais - porque não podem viver juntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho para mim que o homem, como a mulher, não nasceu para viver em grupo. Uma casa de banho, por exemplo, jamais se deveria partilhar. Não dá jeito. É embaraçoso. Faz prisão de ventre. Defecar é um direito básico, a cujas sequelas atmosféricas ninguém deveria estar sujeito. Sobretudo em casas de banho interiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se se quer conservar a família, é preciso mantê-Ia afastada. Mesmo contra a vontade. A separação cria saudade. A distância facilita o respeito. Marido e mulher deveriam ser obrigados a convidar-se diariamente para jantar. As refeições obrigatórias sabem sempre mal. O convívio forçado à mesa - "Passa a hortaliça, não tires macacos do nariz" - não é uma prova de amor, é um refeitório de penitenciários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir dos 6 ou 7 anos, as crianças necessitam de uma casinha própria, onde o acesso de adultos esteja vedado, excepto em casos de incêndio, varíola, consumo comprovado de vodka, et caetera. Em suma, as crianças precisam de um apartamento separado, onde se possa escrever nas paredes, fazer barulho, torturar animais de estimação, disparar pressões de ar e tudo o mais. A família ideal é um complexo habitacional com, três chaves. Digamos um 2.º andar Esquerdo, Frente e Direito. No Esquerdo mora a Mãe. No Frente moram os filhos e a criada. No Direito mora o Pai. Para efeitos, de controlo, todos têm a chave uns dos outros, mas só para casos de emergência, porque são todos obrigados a tocar à campainha antes de entrar. Excepto, em casos urgentes de carência de carinho ("Ó Pai, está uma bruxa atrás das cortinas") ou de.ciúme ("Maria José, Maria José -com quem é que estás a falar?")&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada apartamento pode ter, apenas uma assoalhada. Mais vale viver em três T1’s separados na Reboleira do que tudo a monte numa enorme casa de família no Estoril. As pessoas precisam de estar sozinhas, de curtirem e curarem as suas neuras na maior privacidade, de ouvir as músicas de que gostam sem chatear os outros, de se escaparem, de se fazerem caras e rogadas, de receber as pessoas de quem mais ninguém na família gosta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só separada é que a família pode sobreviver. Contígua mas não comunitária. Adjacente mas não a jazente. Se um casal for impelido, por razões habitacionais, a tocar à porta, a levar flores, a convidar para jantar, a fazer a corte para poderem dormir os dois juntos, o amor pode durar muitíssimo mais. Uma família que tenha três moradas é feliz. Pode escrever cartas, pode trocar postais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O horror da família é a proximidade. É horrível quando os pais ouvem os filhos a fazer concursos de puns, quando os filhos ouvem os pais a gemer e o colchão a guinchar, os gritos de "Não! Não! Sim !" e depois o inevitável chapinhar do bidé. É indecente quando a mulher é obrigada a dormir ao lado de quem quis ainda há pouco esfaquear e que ainda por cima está a ressonar que nem um porco. Cada qual com a sua banda sonora - eis o lema familiar do futuro. O hino quotidiano das famílias portuguesas, que consiste na audição comunitária do barulho do autoclismo não é, nem nunca será, um cimento de solidariedade. Para uma família ser feliz, é necessário haver sedução. Os filhos têm de ser charmosos para encantar os pais, os pais têm de se esforçar para educarem convincentemente os filhos. E marido e mulher, caso queiram permanecer juntos, têm de passar a vida inteira a engatar-se. O mal da família é a facilidade. É pensar que aquele amor já é um assunto arrumado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo é conviver em vez de coabitar. A família feliz constitui-se por vizinhos apaixonados, por condóminos de sangue, por um poligrupo sentimental. As pessoas só estão juntas quando querem estar. Só partilham o que querem partilhar. Passam a vida a entreconvidar-se. Os pais aliciam o filho: "Ouve lá - se nós te comprarmos uma Harley Davidson, não queres vir até ao Jardim Zoológico connosco?" Os filhos dão a volta aos progenitores: "Ó Pai, o vídeo está avariado, conta-nos uma história." O marido alicia a mulher: "Vá lá, Maria José - fica comigo hoje à noite. Tenho caviar e champagne no frigorífico, comprei o compacto do primeiro LP dos Smiths e a empregada mudou hoje os lençóis... e juro que amanhã de manhã eu também me levanto cedo e vou contigo ao oftalmologista..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma família que é obrigada a convencer-se, a seduzir-se, a respeitar-se mutuamente é uma família que pode durar para sempre. Família maçada acaba despedaçada. O mal da família é um problema de má-criação e de falta de respeito. Os familiares mostram-se incapazes de viver com civilidade, gritam, insultam-se, abusam do seu poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um miúdo, quando leva um estalo, puder fechar-se uma semana no seu apartamento a ouvir &lt;em&gt;heavy metal &lt;/em&gt;a altos berros; se uma mulher, quando o marido a chatear, puder puxar da agenda de solteira e passar a resto do dia a fazer telefonemas a ex-namorados; se um marido, maltratado pela mulher, tiver uma sala onde possa receber os amigos, para jogar à lerpa, beber água-pé e visionar videocassetes da Cicciolina, o conflito desagudiza-se naturalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma questão puramente arquitectónica. Mais tarde ou mais cedo, como é regra do amor, as saudades superam os ressentimentos e as campainhas recomeçam a tinir, e os "desculpa lá" recomeçam a ressoar. As pazes fazem-se de livre vontade. Os beijinhos dão-se de bom grado. A família reúne-se, no verdadeiro sentido da palavra. E reina a concórdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na versão actual, exceptuando as famílias que vivem em grandes mansões com tantas alas e governantas que os membros só se vêem a hora de jantar, a família portuguesa é um convite à promiscuidade. Os pais reprimem os filhos, querem sempre ver o canal errado, insistem em comer carapaus grelhados, obcecam-se com a conta da luz, não adormecem até chegarem as crianças e por isso dormem pouco e por isso contraem doenças nervosas e por isso culpam os filhos. Os filhos, por sua vez, são indiferentes ao amor dos pais, ingratos, insolentes, intratáveis, gastadores inveterados e, ainda por cima, profundamente infelizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas situações mais extremas de proximidade familiar, ou seja nas barracas, os homens batem nas mulheres e acordam as crianças, os avós atam-se aos vãos das portas, os pais violam as filhas, os irmãos disparam caçadeiras contra os pais, os cunhados telefonam para O Crime. E tudo durante a novela, enquanto o cheiro dos rissóis se vai entranhando no terilene dos lençóis. A família é uma instituição demasiado preciosa para se deixar destruir pela coabitação obrigatória, pela prepotência paterna e pela falta quase absoluta de privacidade. O amor é demasiado raro e difícil para se estar a esbanjar na rotina quotidiana do concubinato. É preciso salvar a família da excessiva familiaridade. A familiaridade, dizem os ingleses, gera o desprezo. O desprezo é fatal. A ansiedade dos filhos por abandonar a tirania do lar paterno é tão grande que os atira para a miséria de constituir novas famílias em quase tudo semelhantes àquela que deixaram. É um círculo vicioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um vício circular. Numa concepção anarco-conservadora, que visasse proteger a liberdade dos familiares com vista à perpetuação da família, a felicidade seria uma função simples de poder pagar três rendas de casa. Ou de transformar cada assoalhada num apartamento, ou de desdobrar cada T3 em 3 T1's cada um com a sua muralha; nem que fosse de contraplacado, cada um com a sua chave. Em última análise, quando não houvesse dinheiro para isso, seria preferível misturar famílias, trocando camas de casa para casa, de modo a separar os casais e os respectivos filhos, num regime de &lt;em&gt;holiday home&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família é uma instituição que corre perigo. Com razão. É uma instituição insuportável. É uma mini-Mafia, com abraços e facadas, lágrimas e jantaradas, com a desvantagem de ser não-lucrativa. É uma pandilha permanentemente com os azeites e os óleos de Fula. É um pandemónio fascistóide. É uma Cosa Nostra que preferíamos fosse Dotra pessoa qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso avançar para a família do futuro: para as cooperativas sanguíneas, onde cada um tivesse o seu cantinho, onde as crianças se considerassem adultas aos 12 anos, os adultos recuperassem a irresponsabilidade da adolescência aos 35 anos e ninguém estivesse com ninguém sem que lhe apetecesse estar. É preciso reinventar a família como uma comunidade multi-etária de compinchas livres e respeitadores. De modo a mais ninguém poder sujeitar os parentes encarcerados à sua opinião sobre a recandidatura de Mário Soares, ou descascar uma só laranja em frente do televisor, ou despir uma só peúga que fosse, ou cortar as unhas dos pés na presença de menores, ou dar impunemente, em plena sala de estar, no seio da família, um único e preguiçoso pum. E, em vez de pedir desculpa, sorrir e pedir que alguém lhe passe a &lt;em&gt;TV Guia&lt;/em&gt;.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K, nº 2,&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Arco da Velha:Uma família feliz&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Miguel Esteves Cardoso&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Novembro de 1990&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106708990395837434?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106708990395837434/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106708990395837434&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106708990395837434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106708990395837434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/famlia-utopia.html' title='FAMÍLIA-UTOPIA'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106699313148549877</id><published>2003-10-24T11:55:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T20:53:46.630+01:00</updated><title type='text'>Delírios: Os melhores anos da nossa vida</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sonho realizado de qualquer homem seria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;. Louise Brooks, em 1920.&lt;br /&gt;. Mae West, em 1931.&lt;br /&gt;. Beatriz Costa, antes de fazer o Canção de Lisboa.&lt;br /&gt;. Mata Hari, em 1914.&lt;br /&gt;. Zita Seabra, em 1917.&lt;br /&gt;. Frieda Kahlo, em 1937.&lt;br /&gt;. Todos os modelos de Man Ray, em qualquer altura.&lt;br /&gt;. Eva Braun, em 1943.&lt;br /&gt;. Marlene Dietrich, até 1970.&lt;br /&gt;. Veronica Lake, em 1947.&lt;br /&gt;. Rita Hayworth, até conhecer Orson Welles.&lt;br /&gt;. Ingrid Bergman, em 1951.&lt;br /&gt;. Marilyn Monroe, em 1964.&lt;br /&gt;. Debra Winger, até 2003.&lt;br /&gt;. Michelle Pfeiffer, até 2010.&lt;br /&gt;. Madre Teresa de Calcutá, em 1926.&lt;br /&gt;. Margaret Thatcher, em 1926.&lt;br /&gt;. Michelle Creton, em 1927.&lt;br /&gt;. Grace Kelly, antes de ser nobre.&lt;br /&gt;. Indira Ghandi, em Goa.&lt;br /&gt;. Carolina do Mónaco, antes de ficar viúva.&lt;br /&gt;. Teresa Patrício Gouveia, antes de ser secretária.&lt;br /&gt;. Stéphanie, antes dos onze anos.&lt;br /&gt;. Natália Correia, em 1953.&lt;br /&gt;. A rainha má, antes de a Branca de Neve nascer.&lt;br /&gt;. A Branca de Neve, antes de se meter com anões.&lt;br /&gt;. A irmã Lúcia, quando Fátima era apenas um descampado.&lt;br /&gt;. A mãe do nosso melhor amigo, em 1949.&lt;br /&gt;. Catherine Deneuve, desde que nasceu.&lt;br /&gt;. Jacqueline Kennedy em 21, 22, 23 de Novembro de 1963.&lt;br /&gt;. Maria Madalena, a.C.&lt;br /&gt;. Julia Roberts, já.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 18&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Delírios: Os melhores anos da nossa vida&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Março de 1992&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Actualização pela equipa redaccional do Blog K:&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;. Manuela Moura Guedes antes de cantar  “Foram Cardos Foram Prosas”&lt;br /&gt;. Elsa Raposo, no Sex Appeal&lt;br /&gt;. Fernanda Serrano, antes de Pedro Miguel Ramos&lt;br /&gt;. Bárbara Guimarães, depois de Pedro Miguel Ramos e antes de Carrilho&lt;br /&gt;. Catarina Furtado, antes da Operação Triunfo&lt;br /&gt;. Maria João, idem aspas&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106699313148549877?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106699313148549877/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106699313148549877&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106699313148549877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106699313148549877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/delrios-os-melhores-anos-da-nossa-vida.html' title='Delírios: Os melhores anos da nossa vida'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106690692886121743</id><published>2003-10-23T11:58:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T20:49:20.916+01:00</updated><title type='text'>Rua dos Cardais de Jesus</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/ilda-794406.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/ilda-793379.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Pintura de Ilda David&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ESTANDO nesta minha morada sazonal, num sábado lento, como são os da cidade, fui surpreendida pela harmónica do amola-tesouras e cujo emblema era um guarda-chuva desmantelado. Daí que o pusessem na lista dos maus presságios anunciador de borranca. E a verdade, é que ela chegava sempre. A nitidez com que soava a gaita de beiços era já prenúncio de ser coada pela humidade do ar. Lisboa é ainda um paraíso de usos e costumes. A par do grande mercado, abundante de queijos franceses e melões de Murcia, há ainda a venda miudinha de bairro que é tão central como o Patriarcado e aonde chegam de todos os clientes: meninos de escola que mascam pastilha elástica e velhas reformadas que discutem o drama dos Kurdos, entre um pacote de margarina e uma caixa de fósforo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa tem tudo o que tinha há cem anos e algumas novidades de computador e electrodomésticos entre os quais reina o micro-ondas. O lixo é hoje mais sofisticado e não existe já o guarda-mor dos Lastros que proibia deitar imundícies no rio e entulhos fora do lugar próprio. Não cheira a lamas amontoadas na ribeira de Lisboa, mas as condições dela não é das melhores. Já não há cavalariças para limpar como no tempo do tirano Angias, sendo o Tejo o lava-pés da cidade e a praia de Remolares um escoadouro de bosta e palha traçada. Todavia havia espectáculos de que o lisboeta se aproveitava como de uma cartilha de maneiras. A chegada das noivas dos príncipes era um deles. Imitava-se o penteado de estrangeiras, como quando chegou Maria Pia e a sua cabeleira ruiva deslumbrou as mulheres. Ainda hoje se sente essa fina maneira de copiar o cone e os rapazinhos de dez anos são precavidos de réplicas e sentimentos áulicos. Isto faz de Lisboa um parador engastado no Tejo que parece ter inventado a cidade a partir da sua enseada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se há lugar mais belo na face da Terra. Tem um ar descansado e um viver sem riscos que é civilidade sem compromissos. O que noutros lugares são vestígios de outras eras (como em Roma, aonde o monumento é uma forma de tratar a História por tu), aqui ninguém se humilha às suas riquezas. O valor das coisas está em elas serem estáveis e não surpreendentes. Diz-se mesmo que o Mago Ruffiamonte de que fala Hoffman, foi em Lisboa que se inspirou para produzir versos encantadores: «A cidade onde a livre fantasia se desprende como no pequeno mundo do teatro» e onde, como ele diz, «a humildade se transforma em nobreza». Bendito Hoffman, se alguma vez conheceste Lisboa, aí percebeste que aí existe um "EU" que faz nascer o seu duplo, e dividir o próprio coração mantendo, no entanto, a sua expansão própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Difícil é encontrar melhor acorde com o paraíso, onde todos os perfumes celestes seriam percebidos se não andasse no ar o cheiro dos escapes e do lixo que transborda dos baldes. Agora mesmo ouço um arrulhar de pombos, nascidos nas cornijas por Obra do Santo Espírito e que combinam com a distante música do amolador, que sobe a rua dos Cardais de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, esta linguagem, ó jovens dos quatro costados, é-nos dedicada. Duvidai da luz do Sol, e da luz das estrelas; podeis pensar se a verdade pode mentir. Mas não duvideis dos magos e do seu poder sobre a Tetra. Ou então, o cheiro que percebo daqui, das cozinhas da Misericórdia, é o do vosso coração temperado com pimenta negra, da que o diabo usa para lhe fazer brilhar os olhos. Parece-me a rua, onde soa a música do compõe - loiça - e - guarda-chuvas, uma rua onde apareciam fósseis do mar. Conchas e pedras onde ficou impresso o esqueleto de peixes pré-históricos. E um vento quente arrasta a capa do Marquês por cima dos telhados. Dizem que esteve aqui, na noite do terramoto. O Mago Ruffiamonte encontrou-o ao virar a esquina; e disse: «as cidades celestes conhecem-se porque têm amigos até no inferno».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 10&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Rua dos Cardais de Jesus&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Agustina Bessa-Luís&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Julho 1991&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106690692886121743?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106690692886121743/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106690692886121743&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106690692886121743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106690692886121743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/rua-dos-cardais-de-jesus.html' title='Rua dos Cardais de Jesus'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106681987987106994</id><published>2003-10-22T11:48:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T20:42:52.176+01:00</updated><title type='text'>Há gente para tudo: O Castigo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/castigo-762386.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/castigo-761121.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;DIZ-SE que o castigo infligido às raparigas nasceu nos bordéis, consequência inevitável de um serviço não inteiramente satisfeito ou de algum capricho não realizado. Curiosamente, esta mesma versão responsabiliza não homens irascíveis mas as donas dos próprios bordéis. Uma delas até teve a ideia de fotografar o momento do castigo para mostrar aos seus clientes a disciplina que reinava na casa que dirigia. Teve o efeito inesperado de se converter em mais uma atracção. Outra versão sugere a origem de tão severa prática nos colégios internos de raparigas. Sendo tanto uma como outra explicações possíveis, e não contraditórias, as duas pecam por certo novecentismo excessivo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Acredito que o castigo, como preliminar erótico, deve ter começado no momento em que uma mulher disse não, e se decidiu castigá-Ia não apenas com sofrimento, mas sobretudo com humilhação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No limiar do sado-masoquismo, o castigo é prática erótica mais mística. A expiação antes de cometer o pecado assegura a inocência conservada. A licença que autoriza o deixar-se levar pelos caminhos do prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora as formas de castigo possam ser tantas quanto a imaginação quiser criar, há uma parte do corpo da mulher que é a mais emblemática: as nádegas. De facto esta atractiva parte da anatomia feminina possui as condições perfeitas para que se exerça um castigo minimamente convincente com uma ausência quase total de consequências perigosas. Por razões óbvias e que por uma questão de bom-gosto não entrarei em pormenores, aquelas partes carnosas são as menos dignas de qualquer mamífero e não só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O facto de que a essência do castigo não é a dor mas a humilhação, consagrou o traseiro como o sítio ideal. Seja com a mão, com pequenas e flexíveis varas, ou mesmo com um pingalim, só em casos de descontrolo absoluto esta prática pode provocar algum problema de saúde irreparável. Mesmo a posição de oferecer as bimbas já é em si mesma um símbolo de submissão muito mais forte do que o cristão dar a outra face ou o oriental baixar a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode exercer-se o castigo com as bimbas cobertas ou não. Cada «disciplinador» tem o direito de escolher a forma com que as bimbas lhe são brindadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro está que há outros castigos que deixam as bimbas de fora. Nos colégios internos de raparigas, fazer a cruz com a língua no chão foi uma das mais populares até há muito pouco tempo. Aliás, esta prática, com alterações, foi adoptada nos bordéis com grande sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O castigo, além das virtudes acima referidas, contém um pormenor curioso: segundo as estatísticas, todas as raparigas que na sua adolescência foram castigadas com métodos similares aos aqui indicados, reconheceram ter sentido mais prazer do que dor. Na realidade, e como vimos a pregar desde o primeiro número, todas as práticas sensuais, desde que sejam feitas com cumplicidade, são exemplos maravilhosos da capacidade humana para chegar mais longe, mais rápido, mais alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 20&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Há gente para tudo – Hoje: O Castigo&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;A.J. Rafael,&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Maio de 1992&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106681987987106994?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106681987987106994/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106681987987106994&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106681987987106994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106681987987106994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/h-gente-para-tudo-o-castigo.html' title='Há gente para tudo: O Castigo'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106673196496114397</id><published>2003-10-21T11:20:00.000+01:00</published><updated>2005-09-23T13:49:38.760+01:00</updated><title type='text'>Fugir de Portugal - Parte 4 -A Coca</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/coca-746491.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/coca-745468.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Fotografia: Pedro Cláudio&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;QUE IRONIA ESTA, que dentro da asfixia provocada por um país que consagra por indiferença, por ambição ou por ressentimento um sistema tecnocrático como o cavaquismo, a cocaína - a mais técnica de todas as drogas - possa ser uma maneira de escape.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se se pudesse dar uma droga a cada cor política, a cocaína seria a droga do regime, como o charro é a dos desiludidos da esquerda, a heroína dos abstencionistas, a ecstasy dos CDU e liberais, etc. é evidente que a cocaína não é propriamente uma droga dos trabalhadores: pelo preço, à volta de doze contos a grama; pelo efeito - a coca é a droga da eficácia imediata, não da produção em série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheira-se uma linha e tem-se a sensação de que se pode ser nomeado subsecretário de Estado sem necessidade de experiência alguma (pegue-se neste exemplo só como um exemplo, não como um boato). Ou que seremos irresistíveis em qualquer sítio e com qualquer pessoa, é um facto que devemos acreditar quase cegamente na experiência médica e nas autoridades sanitárias para nos podermos solidarizar com a perseguição implacável que se faz à venda legal deste produto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu efeito energético parece tão perfeito que não se compreende onde está o mal. O certo é que a velha maneira de fugir enfrentando taurinamente as campinas encarnadas dos nossos desafios sem pensar duas vezes ainda funciona, e a coca está feita exactamente para isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu efeito é descritível. Ao cheirá-Ia, quando é mesmo boa, sentimos primeiro um frio anestésico nas narinas. Logo a seguir uma sensação speedygonzaliana tipo de gritar andale, andale. E pronto, estamos preparados, com coragem e decisão, para enfrentar as vicissitudes que a vida nos coloca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em termos estritamente económicos, feitas as contas, não é tão caro como tudo isso. Uma garrafa de whisky novo numa discoteca custa cerca de quinze contos.&lt;br /&gt;O que dá, pouco mais ou menos, um conto por copo. Uma grama pode dar, dependendo da sua pureza, mais de doze linhas, o que a equipara ao preço do whisky - menos a ressaca, claro. A coca, quando não misturada, não dá ressaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O efeito gingão e grosseiro que o álcool provoca não se sente com a cocaína. Contudo, têm em comum uma verdadeira vocação social. A conversa fácil e uma certa diminuição da timidez são notáveis. A sensação da omnipotência dura pouco, e a repetição da dose é necessária. Com 1/3 de grama um cidadão bem nascido faz uma noite, o que dá quatro ou cinco contos. Estas previsões variam de acordo com a utilidade que se queira dar a este produto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se se trata de terminar um trabalho, a maior ou menor disposição para o dito pode sugerir uma necessidade também maior ou menor da quantidade a consumir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todas as coisas, a assiduidade de consumo influencia também as quantidades necessárias. Claro que se pode falar de coca como a droga abrangente por excelência. Não nos desvia dos nossos objectivos nem distorce a realidade. Só as nossas potencialidades são artificialmente exageradas. Em qualquer situação em que nos encontremos parece que funciona em cheio. O incrível é que é verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vamos falar aqui se com o tempo faz mal ou não, mas certamente aquele efeito eufórico faz muito bem. Não nos enganemos. O êxito da droga reside no seu efeito imediato. A longo prazo, tomado abusivamente ou sem períodos de recuperação, deve, provavelmente, fazer mal. Aliás, tudo faz mal nessas condições. Até a aspirina ou o camembert. Mas esse é outro problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COISAS QUE ESCAPAM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Alentejo&lt;br /&gt;A Obesidade&lt;br /&gt;As Paciências&lt;br /&gt;Chernobyl&lt;br /&gt;O Passado&lt;br /&gt;Os Naufrágios&lt;br /&gt;O Terrorismo&lt;br /&gt;Os Sonhos&lt;br /&gt;A EN 1&lt;br /&gt;Os Iates&lt;br /&gt;As Pousadas&lt;br /&gt;As Gripes&lt;br /&gt;«A Bola»&lt;br /&gt;O Mónaco&lt;br /&gt;O Estrangeiro&lt;br /&gt;A Arte em Geral&lt;br /&gt;A Filosofia&lt;br /&gt;A Prisão&lt;br /&gt;As Motas&lt;br /&gt;A Publicidade&lt;br /&gt;A Sida&lt;br /&gt;Alguns Portugueses&lt;br /&gt;A punheta&lt;br /&gt;Sintra&lt;br /&gt;As Anedotas&lt;br /&gt;A Idade&lt;br /&gt;O fogo posto&lt;br /&gt;Os pais&lt;br /&gt;O PSR&lt;br /&gt;O Saudosismo&lt;br /&gt;O Benfica&lt;br /&gt;As Directas&lt;br /&gt;Os Correios&lt;br /&gt;As Indirectas&lt;br /&gt;A Sabedoria&lt;br /&gt;As Brasileiras&lt;br /&gt;O Edredon&lt;br /&gt;A Puberdade&lt;br /&gt;O Vinho&lt;br /&gt;O Snooker&lt;br /&gt;Bater com a porta&lt;br /&gt;A Leitura&lt;br /&gt;Os Palavrões&lt;br /&gt;As Ordens Religiosas&lt;br /&gt;Os Percebes&lt;br /&gt;A Pornografia&lt;br /&gt;Os Nossos amigos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 15&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Portugal como dar o salto: Cocaína / Coisas&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Alberto Castro Nunes et alii&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Dezembro 1991&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106673196496114397?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106673196496114397/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106673196496114397&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106673196496114397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106673196496114397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/fugir-de-portugal-parte-4-coca.html' title='Fugir de Portugal - Parte 4 -A Coca'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106660319303282407</id><published>2003-10-19T23:34:00.000+01:00</published><updated>2005-09-23T13:48:21.376+01:00</updated><title type='text'>Fugir de Portugal - Parte 3 - O Haxe</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/haxixe-764893.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/haxixe-763862.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Fotografia: Pedro Cláudio&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;AS DROGAS NATURAIS estão a fazer um repentino comeback depois do último Verão, com o reflorescer de milhares de novas plantações domésticas em marquises disseminadas pelo País Real, em vasos de terraços e nos próprios canteiros da GNR de Vila Nova da Zambujeira. Não se trata de um renascimento neo-hippie, à semelhança do que se pode observar em Londres e noutras capitais europeias. Longe de qualquer onda saudosista, o renascer do consumo do haxe e da erva é apenas o grito de revolta dos mais desfavorecidos perante o insuportável tédio que impregna a vida quotidiana dos portugueses. É que nem todos podem esportular as maquias exigidas pelos produtores das pastilhinhas coloridas que se tornaram moda nos últimos tempos entre os escapistas ricos deste nosso País Real. Como alternativa às multinacionais do crack e da ecstasy, ao luxo da coca e do cavalo, resta-nos o retorno aos bons velhos produtos naturais, que entorpecem sem causar dano, que entontecem sem fazer cair, que adormecem sem fazer sono. Que dão muito pouca ou nenhuma ressaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fumar uma passinha é um hábito inofensivo enraizado em muitos milhares de portugueses e que a negrura dos tempos que se avizinham irá provavelmente expandir a muitos outros, que não encontram melhor alternativa ao tédio quotidiano. Um charro começa por bater com uma tontura suave, depois uma sensação de «altura» e euforia controlada. Se o produto for de qualidade, pode passar a uma fase em que se perde a noção do tempo, a ponto de em dado momento e em relação a dado acontecimento não se saber se passou um minuto ou meia hora. Existem relatos de ocorrência de alucinações, mas atenção, que na maioria dos casos o abuso conduz ao enjoo e vómito subsequente. Com cuidado e moderação, um bom escapista pode atingir um estado de indiferença controlada em relação ao quotidiano, com o único senão de uma leve ressaca no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os que já esqueceram, ou ainda não experimentaram, lembramos que a Cannabis Sativa se dá esplendidamente no nosso clima temperado. Embora os manuais rezem que as sementes degeneram ao fim de duas ou três gerações de cultivo fora dos trópicos, tal não se verifica se forem seguidas precauções mínimas, e de um modo geral, a produção doméstica e urbana portuguesa, cultivada em marquises soalheiras, é comparável, ao que de melhor se consegue em zonas tropicais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convém dispor as sementes em terra arejada, no princípio da Primavera, e fazer o transplante quando os rebentos atingirem 2 a 2,5 cm, para vasos de bom porte e terra barrenta, rica em argilas sílico aluminosas, onde as plantas jovens possam crescer sem entraves físicos, buscando a Iuz do sol, na vertical até ao terceiro mês. Quando, depois da inflorescência, a altura atingir os 2 a 3 metros, cortam-se e secam-se os pés com as cabeças para baixo, tendo o cuidado de aparar a seiva que eventualmente exsude das extremidades da planta, que produzirá um haxe de primeira qualidade. As flores e folhas secas serão trituradas e fumadas tal qual, em mortalhas de papel de arroz, sendo proverbiais os efeitos hilariantes da generalidade das ervas de fabrico nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O haxe pode ser fumado em tabaco, em cachimbos, ou até ingerido em bolos. O que interessa é que esta droga é inofensiva, não vicia e já pouco interessa à Polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os que não disponham de espaço para cultivo, lembramos que pode ser adquirida com facilidade nalguns dealers mais idosos da generalidade das Capitais de Distrito do Continente e Ilhas Adjacentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cannabis e os seus derivados são de longe as melhores alternativas ao País Real que um português de posses limitadas pode encontrar. Sejam de produção própria ou de importação, estas drogas naturais estão em vias de reencontrar o lugar que lhes cabe no coração dos escapistas nacionais. Sobretudo entre os que rejeitam a produção intoxicante das drogas químicas produzidas pelas autênticas multinacionais, que hoje em dia inundam o mercado de alucinogéneos, entorpecentes ou euforizantes químicos de consequências sempre nefastas para a saúde dos consumidores. E se marimbam para o ultrapassado snobismo yuppie dos que se riem dos charros, só para snifarem drogas caríssimas e aldrabadas, que na maior parte das vezes só servem para anestesiar as gengivas do maxilar superior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K, nº15&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Portugal: Como dar o salto – Haxe&lt;/em&gt;,  &lt;strong&gt;Alberto Castro Nunes et alii&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Dezembro de 1991&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106660319303282407?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106660319303282407/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106660319303282407&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106660319303282407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106660319303282407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/fugir-de-portugal-parte-3-o-haxe.html' title='Fugir de Portugal - Parte 3 - O Haxe'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106643279237096843</id><published>2003-10-18T00:15:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T19:58:26.283+01:00</updated><title type='text'>Faire-plaie</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Faire-plaie-782918.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Faire-plaie-781276.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Faire-plaie1-761004.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Faire-plaie1-759671.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº20&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Faire-plaie&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Produções Jesus&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Maio de 1992&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106643279237096843?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106643279237096843/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106643279237096843&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106643279237096843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106643279237096843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/faire-plaie.html' title='Faire-plaie'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106642168053715917</id><published>2003-10-17T21:14:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T19:51:41.676+01:00</updated><title type='text'>Fugir de Portugal - Parte 2 - O Ecstasy</title><content type='html'>&lt;p align="center"&gt;&lt;img src="http://kapa.blogspot.com/ecstasy.jpg" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;Fotografia: Pedro Cláudio&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MINUTO ZERO &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É UM COMPRIMIDO cor-de-rosa, sabe a aspirina e deve engolir-se com água. Custa entre 5 e 10 contos, ninguém sabe onde se vende nem quem vende - mas que ele existe em Portugal, existe. Não nos perguntem mais nada.&lt;br /&gt;Esta revista mostra mas não tem de ensinar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MINUTO DEZ &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO SE PASSA NADA e achamos que fomos enganados. O mundo continua real e continua realmente triste. Os chatos insistem em aproximarem-se à velocidade da luz. Os bares já não dependem da música, nem das mulheres, nem do ambiente: dependem apenas do número de chatos por metro quadrado e das possibilidades práticas de podermos fugir a sete pés. Ao décimo minuto temos a sensação de que nada, realmente nada, nos pode fazer afastar da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começamos lentamente a pensar no momento em que, regressados a casa, teremos algum prazer em rasgar todas as revistas que descreveram, com rigor científico e em monumental delírio, os efeitos do comprimido que os holandeses decidiram criar para a nossa felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MINUTO VINTE &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRIMEIRO é uma estúpida tontura que nos obriga a parar, que nos faz pensar se não nos enganámos no comprimido, e qual é o caminho mais próximo entre o lugar onde estamos e o serviço de desintoxicação de um hospital qualquer. Essa tontura, parecida com o momento em que nos deitamos depois de um realíssimo abuso de álcool, dura exactamente dois minutos. E passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MINUTO 30 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUANDO a tontura desaparece, morre com ela o país real, os chatos, as distâncias, os medos, os desgostos. Morre tudo. Nasce por sua vez uma sensação de felicidade e bem-estar totais. O ar fica doce, a respiração é sempre funda e agradável, o mundo fica estúpido, como acontece com o álcool. Criam-se no nosso horizonte dois planos: num primeiro plano, existe a consciência do que fazemos, o lugar onde estamos, as pessoas com quem falamos e o que dizemos; num segundo plano, sobreposto e complementar, nasce uma estranha e oportuna capacidade de compreensão do outro, uma noção real de efemeridade da vida, e uma dose de sincera alegria. A palavra mais próxima deste efeito é mesmo essa: alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como nas canções das seitas religiosas, acreditamos nos outros homens, no amor, na capacidade de amar: temos vontade de ajudar, de falar sem medos nem remorsos nem vaidades. Dizemos tudo sem enrolar a língua - não andamos aos tombos nem ganhamos aquela estupidez própria do tradicional «charro». Pelo contrário, a lucidez é total, a paisagem ganha apenas brilho - e jamais contornos enevoados - e até Cavaco Silva, repentinamente, nos parece um homem bondoso e honesto. Acreditamos em tudo sem perder a noção de que tudo à nossa frente é mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;UMA HORA &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;APETECE dançar mais tempo do que podemos, e dançamos. A boca seca mais rapidamente do que é costume - porque falamos mais do que é costume. Aliás, tudo é geometricamente ampliado à nossa frente: os lugares crescem e a discoteca parece-nos absolutamente respirável. As pessoas ganham a importância que nunca tiveram e os problemas transformam-se em simpáticos exercícios mentais sobre «como convencer o parceiro de que este problema não existe?». O pior é que o parceiro acredita em nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DUAS HORAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARA NÓS, toda a gente à nossa volta está sob o mesmo efeito, todos tomaram aquele comprimido cor-de-rosa. Continuamos a respirar fundo, suamos mais do que é normal. Mas não interessa nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;TRÊS HORAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONHECEMOS pelo menos uma pessoa por cada quarto de hora que passa. A consciência nunca se perde, o que permite conversar com os desconhecidos «certos» e perceber logo com quem não se deve falar - e descobrir que, afinal, as pessoas do Algueirão não são tão desinteressantes quanto julgávamos. O efeito do Ecstasy não abranda com o passar das horas, parece que se alimenta de si próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;QUATRO HORAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO INTERESSA para onde se vai, nem com quem se vai, nem o que se vai fazer. O efeito é o de uma festa de aniversário aos 12 anos: o momento é único e deve ser marcado pela liberdade total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desaparecem compromissos para o dia seguinte - achamos sempre que cumprimos tudo porque compreendemos tudo e todos nos compreendem - e o único compromisso que resta é com o bem-estar. Alinhamos na festa sabendo que este dia é uma excepção, sempre uma excepção, e não se vai repetir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CINCO HORAS &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LENTAMENTE, voltamos à terra. Não sobram dores de cabeça nem más disposições, apenas a vaga sensação de que a festa chegou ao fim e talvez tenha chegado a hora de dormir. Sabemos que devemos dormir profundamente, pelo menos oito horas, sob pena de acordarmos com uma ressaca que nos acompanhará durante 12 horas. Ao contrário do que escreveu o especialista do jornal Público, inspirado nos freaks da revista francesa Actuel, o comprimido não oferece orgasmos em pó nem constitui um afrodisíaco em potência: é apenas «3,4 metilenedioximetanfetamina». O que pode significar que a simpatia que repentinamente se ganha pelo mundo resulta, se for caso disso, numa madrugada melhor acompanhada. Mas essa é a parte menos interessante da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA SEGUINTE &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ACORDA-SE e nada do que aconteceu na noite anterior é claro e transparente. Falta sempre um dado qualquer - e o dado que falta é justamente o da diferença entre o plano da realidade e o plano complementar do efeito do comprimido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resta uma dor de cabeça muito fininha e profunda, a noção de que Ecstasy não é uma droga repetitiva, pelo facto de constituir uma festa e, como todas as festas, não apetecer todos os dias. Não apetece fazer anos a toda a hora, não apetece fazer uma despedida de solteiros todas as noites, não apetece viajar eternamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que sobra, no dia seguinte, é essa sensação adolescente de «ontem foi do caraças», sem nunca se perceber muito bem até onde fomos com o «caraças», nem que «caraças» se passou. Eficaz, a droga apaga-se sem deixar rasto. Como compete a uma droga que se preze.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 15&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Portugal: Como dar o salto; Ecstasy&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Alberto Castro Nunes et alii&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Dezembro de 1991&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106642168053715917?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106642168053715917/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106642168053715917&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106642168053715917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106642168053715917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/fugir-de-portugal-parte-2-o-ecstasy.html' title='Fugir de Portugal - Parte 2 - O Ecstasy'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106633536077962525</id><published>2003-10-16T21:06:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T19:50:24.983+01:00</updated><title type='text'>Fugir de Portugal - Parte 1 - O Mezcal</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/mezcal-785704.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/mezcal-784735.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Um interessante artigo sobre como "fugir" de Portugal, escrito por Alberto Castro Nunes, Carlos Quevedo, Nuno Miguel Guedes, Miguel Esteves Cardoso e Pedro Rolo Duarte. Imaginamos perfeitamente o gozo que deve ter dado escrevê-lo. O artigo vai ser dividido em quatro partes, sendo esta a primeira, e será publicado na sua totalidade ao longo desta semana.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;Felizmente o País Real não exige a comparência de todos os portugueses. Podemos não comparecer. Não ligar. Fugir: Não querer saber. Podemos emigrar. Podemos dedicar-nos ao trabalho. Podemos tentar a droga. Podemos enriquecer. Podemos pensar, mesmo erradamente, que a política não é muito importante. Podemos dedicar-nos à família, ao álcool, à vela. Com dinheiro e boa vontade, não é difícil fingir que Portugal é independente do PSD.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nos países mais civilizados, as pessoas mais civilizadas conseguem comportar-se e divertir-se como se outras não existissem. A melhor fuga de todas é aquela que nem sequer admite que anda a fugir. Os mundos herméticos vão voltar. Vêm aí os casulos novos e novas borboletas. É no país real que as pessoas se lembram de criar as maiores irrealidades&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O MEZCAL&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O MAIOR PROBLEMA é quando surgem as questões verdadeiramente importantes, os problemas que não têm (nem devem ter) solução. Qualquer português minimamente decente já se deve ter confrontado com as quatro perguntas irresolúveis, a saber:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Quem somos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Para onde vamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Deus existe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Em caso afirmativo, expliquem-nos Leiria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é fácil, nem é possível. Sobretudo, a resposta à última. Tudo se complica, porque nos vem à memória o nosso primeiro-ministro, os cinquenta e tal por cento que nele votaram, o Dias loureiro, o dinheiro recente e a revista Sábado. Em resumo, Portugal. Por isso, fugir para outro país faz bem. E a melhor maneira de poder fugir sem mudar de sítio é beber álcool mexicano, talvez o melhor do mundo e sem dúvida o mais forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se trata de vício, mas de bom gosto. Não há nada no mundo que se compare a um bom mezcal anêjo (ou envelhecido). Natal é quando um homem quiser, e com três ou quatro tequilas blancas é todos os dias. E com o festivo levantamuertos - versão masculina (discutivelmente a bebida mais perfeita da galáxia), Cavaco Silva nunca existiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se lixem os Fernandos Páduas, desta vida, porque houve quem falasse mais e melhor. Sobre o mezcal, diziam os médicos espanhóis do século passado: «abre o apetite, favorece a digestão, acelera a cicatrização das feridas, acalma a dor, revigoriza, acalma a sede provocada pelas insolações, provoca alucinações agradáveis, faz desaparecer a fadiga, estimula a aviva a inteligência». Não é uma opinião embriagada, é uma certeza provocada por alguns séculos de ocupação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não acredite que consulte os canhanhos ou, melhor ainda, que experimente.&lt;br /&gt;Um bocadinho de história mezcaliana, só para impressionar e convencer: tudo começou na era pré-colombista (bocejo). Os índios descobriram que pela fermentação da seiva do fruto de uma planta (ressonar) - o maguey, espécie de agave, seja lá isso o que for - podiam ter o paraíso num instantinho (pausa para digerir a metáfora). Chamaram-lhe metl ixcalli (maguey cozido, mais- ou menos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No século XVII, os Espanhóis, entre uma chacina e um massacre, acharam por bem exportar a aguardente que se fabricava nas colónias, e começaram a destilá-la por alambique. Em 1785 a corte castelhana resolveu proibir a fabricação, para evitar que a bebida concorresse com os álcoois europeus. Foi tarde: toda a gente já se embebedava alegremente com o mezcal, como passou a ser conhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mezcal é uma bebida culta e de culto. É célebre a preferência de Malcolm Lowry por este LSD dos pobres. Tanto que muita coisa escreveu em solene homenagem. Por exemplo, e a propósito, o cônsul de «Debaixo do Vulcão» diz assim: «é a bebida que, mesmo quando a levo aos lábios, não consigo acreditar que seja real». Cavaco, quem és tu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fuga oferecida pelo mezcal é das mais saudáveis. Não dá ressaca; não dá remorsos; não dá hipóteses. Deverá ser servida em copo estreito e curto, acompanhado de pimenta e sal. Deverá ser bebido - como a tequila - de um só trago. A primeira sensação é de ausência qualquer, geralmente compensada por uma segunda dose. A segunda sensação é de uma presença qualquer, e nessa altura já deixámos Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem dois tipos de mezcal, o anêjo, envelhecido e sofisticado, e o jovén, novo e aventureiro, todos produzidos em Oaxaca, capital do estado onde nasceu Benito ]uarez, libertador do México. Recomenda-se o primeiro, pelo sabor e pelos efeitos.&lt;br /&gt;Os Portugueses, entretanto, já não se podem queixar: as importações estão a caminho e nos círculos esclarecidos já se comparam as virtudes de um Montc Alban com as de um Ultramarinc (nome retirado de um livro de I.owry). Em Lisboa, os bares mexicanos estão a proliferar, mas consulte um especialista antes de cometer uma loucura: é que não há nada pior do que um mezcal adulterado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois há a tequila, nome de bebida e cidade e nascida para o mundo por volta de 1920 no estado Jalisco. É uma parente pobre do mezcal - também é feita a partir do maguey, mas é fermentada por vaporização - mas o efeito base aproxima-se muito do familiar rico. A variedade blanca é a mais popular e, quando bebida pura, deverá ser convenientemente escoltada por sal e limão. A «tecas» - como é conhecida pelos iniciados - é mais lenta a actuar, mas não é menos infalível. O resultado será tanto melhor quanto maior o calor sentido no local onde é bebida. A ideia é viajar até Sierra Madre em 1940, com suor e barba por fazer. Deverá ser consumida exclusivamente entre homens, para se poder discutir o passado amoroso sem grandes inibições e chamar as coisas pelos nomes próprios. Um conselho: os adolescentes devem-se abster.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra grande vantagem é que permite apagar do estômago qualquer vestígio de uma refeição leve como o cozido à portuguesa ou arroz de cabidela. A «tecas» é a pastilha Rennie dos iluminados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, o levantamuertos. É uma bebida típica do Dia dos Mortos mexicano, que coincide mais ou menos com o nosso Dia de Finados. Segundo a tradição, é bebida em pleno cemitério, como celebração das almas que se passaram para o outro mundo e que um dia ressuscitarão. Tem uma versão masculina - amarelada e suave - e outra feminina - transparente e excessivamente doce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A versão masculina é a melhor, tanto para rapazes como para raparigas. A composição permanece um mistério, mas sabe-se que uma gema de ovo é fundamental para um bom levantamuertos. É talvez a melhor e mais perigosa bebida à face da Terra, porque é fortíssima e tem um sabor divino. Aliás, os mais puritanos pediram já a sua classificação como «arma branca». O nome diz tudo. O efeito do levantamuertos é conhecido nos meios científicos como «efeito Yiihaa!», que se traduz basicamente por um trago e depois Yiihaa! (do mexicano «seja o que Deus quiser»). Tudo pode acontecer depois de alguns levantamuertos: insultos à paternidade dos melhores amigos, uma estadia nas Taipas, filhos, confissões de homossexualidade, condução de veículos tipo Poço da Morte ou pura e simplesmente uma alegria que dura semanas. É a fuga ideal da realidade Silva que temos que aturar todos os dias e recomenda-se a quem ainda não tenha ido (nem queira ir) ao «Preço Certo». E não há ressaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que mais se pode pedir quando se quer escapar do Colditz - Cavaco, do sorriso do Joaquim Letria, da democracia de sucesso, da CEE, da Europália, do Henrique Diz, da estabilidade, das vivendas à beira da estrada, dos hipermercados Recheio, dos fatos de treino ao domingo, do recolher obrigatório das 4 da manhã, do totoloto na repartição, de Portugal? Viva Zapata!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, nº 15&lt;/strong&gt;, &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Portugal: Como dar o Salto&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Alberto Castro Nunes et alii,&lt;/em&gt; &lt;strong&gt;Dezembro de 1991 &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106633536077962525?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106633536077962525/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106633536077962525&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106633536077962525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106633536077962525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/fugir-de-portugal-parte-1-o-mezcal.html' title='Fugir de Portugal - Parte 1 - O Mezcal'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106624818813381022</id><published>2003-10-15T20:55:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T18:47:58.990+01:00</updated><title type='text'>As Culturistas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/culturista-702958.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/culturista-700426.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;HÁ UM GINÁSIO encantador na Praça das Amoreiras, o Ginásio Jardim, de ambiente familiar e soalhos luzidios. É lá que se juntam todos os dias alguns rapazes e uma mão-cheia de senhoras casadas com aquele ar eterno de quinze anos. O ginásio é um oásis de saúde, com a luz entrando a rodos e janelas abeirando-se das copas das árvores. Apesar de ser um local onde as pessoas devem exercitar os músculos e soar as estopinhas, o Ginásio Jardim é um repouso. A rotina de quem o frequenta inclui movimentos de aquecimento e, se houver energia, passagem pela sala das máquinas. A sala das máquinas é uma coisa intimidante, com pesos, bicicletas que não vão a lado nenhum e espaldares encostados às paredes. Há lá tudo para tornar as praticantes naqueles seres duros e musculados com braços do tamanho de pernas e pernas do tamanho de torsos. Mas o mais interessante é que nenhuma das senhoras pretende chegar a esse estado, porque, dizem, os músculos são pouco femininos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acrescentam que não é só a estética que não as atrai, é a forma musculada que as desencoraja, não se sentiriam bem dentro do seu próprio corpo. Pergunto-lhes que acham das mulheres culturistas e do sucesso que têm em certos círculos masculinos. Demitem a minha pergunta com um simples e sorridente «mulheres cheias de músculos são horríveis, não compreendo que possam ser atraentes». Quanto à atracção que por elas têm certos homens, dizem que o melhor é perguntar-lhes a eles. Mas há quem arrisque adiantar a seguinte ideia: os homens que gostam de mulheres culturistas devem ter tendências homossexuais. Deixei-as ocupadas no controlo da anca e do abdómen, no fortalecimento do corpo e firmeza da carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se é verdade que a sabedoria comum exige da mulher mais curvas do que rectas enrijecidas., mais ombros amaciados do que coxas de ciclista, também é verdade que nem toda a gente pensa e age da mesma maneira. Há por esse mundo fora quem tenha opinião oposta, e actue em conformidade com ela. De facto, cada vez mais os ginásios estão a ser invadidos por uma horda de mulheres que não querem ter pezinhos de Ava Gardner, mas sim uma grande peitaça copiada do Schwarzenegger. Ou seja, não se conformam com as regras clássicas, segundo as quais a mulher terá obrigatoriamente de ser bem torneada se quiser atrair o homem dos seus desejos. O body-building feminino é um misto de vários contorcionismos psicológicos: narcisismo extremo, vontade de obter reconhecimento social, superação de fraquezas interiores pela exacerbação visual da superfície pessoal, recusa do comum e do mundo normal, busca da sensualidade feita de suor e castigo, obtenção do prazer através do cansaço repetido, um pouco como nas práticas sexuais sadomasoquistas, diga-se. Os detractores mais agressivos desta filosofia avançam mesmo com a ideia segundo a qual os culturistas dão corpo, através do exagero nos tendões, às suas motivações obscenas ligadas a frustrações mais profundas, que têm a ver com um gosto recalcado pela violência. Ou, como dizia Lisa Lyon, a primeira e mais importante mulher culturista da era moderna, o que se procura é a obtenção de um corpo «nem masculino, nem feminino, mas sim felino».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem não está habituado à ideia de as ver todos os dias, sentadas na cadeira do cabeleireiro ou calcorreando os empedrados da baixa, a visão pode ser chocante: em vez de dedos há garras, no lugar dos pulsos há armadilhas, os braços são guindastes, o pescoço erguendo-se no meio dos ombros assemelha-se a uma versão ambulante da ponte sobre o Tejo, o peito é uma estante, o estômago um campo de minas e por aí abaixo passando pelos tornozelos, verdadeiras fundações de aço e betão enfiadas nuns sapatitos de salto alto. Ainda está para se saber o que pode ver de desejável numa senhora de pernil maciço e pescoço taurino. Para quem as namora e as massaja no calor dos lençóis, a resposta é bastante simples. A culturista encarna o que de mais desejável existe no universo selvagem das nossas fantasias: uma feminidade compacta e férrea que se recusa a ser dominada, um corpo elástico e animal que abraça sem piedade, uma capacidade de comando que obriga o companheiro a dirigir-se inexoravelmente para a zona labial inferior, essa sim, que nenhum exercício poderá jamais modificar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cavalgadas nocturnas passam então a ser mais intensas, porque em vez de um pólo energético sobrepondo-se a um outro passivo, há a explosão de uma anatomia original e andrógena, permanentemente dominadora, à maneira das antigas gladiadoras espartanas que semeavam temor e indizível desejo à sua passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, quem sabe, acordando um dia cansados e doridos mas satisfeitos, esticaremos o braço para dar um mimo. Pensando ser a coxa, estaremos a acariciar o braço. Ela, para agradecer a festinha, pegar-nos-á na mão. Os nossos ossos estalarão, mas não faz mal. Como é bom sentirmo-nos amados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K, n.º 19&lt;/strong&gt;, &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Há gente para tudo, Hoje: As culturistas&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;A. J. Rafael,&lt;/em&gt; &lt;strong&gt;Abril de 1992&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106624818813381022?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106624818813381022/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106624818813381022&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106624818813381022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106624818813381022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/as-culturistas.html' title='As Culturistas'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106617576566381640</id><published>2003-10-15T00:50:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T18:45:35.780+01:00</updated><title type='text'>Kane Pela Graça de Kane</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Kane-799968.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Kane-797581.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;SAIA um Kane à pressão para a mesa do kanto, pediu a Kapa pelo telefone. Alegadamente, a voz off era do Direktor. Não exagero ao pensar que milhares de direktores devem ter feito pedido semelhante a milhares de kriaturas como eu neste mês de Maio de 1991. Komemorar o 500 aniversário da estreia de Kane é koisa que não vai eskapar a muitos. Só mesmo, talvez, em 28 de Dezembro de 1995 - quando se comemorar o centenário das sessões dos Lumiere - tantos se vão lembrar ao mesmo tempo do mesmo. É justo? Godard rebola-se no túmulo e do fundo dele - há vinte e sete anos e pikos - responde ke sim: "Malditos sejamos todos se esquecermos, nem que seja por um segundo, que, além de Griffith, Welles foi o único - um para o mudo, outro para o sonoro - que fez avançar este maravilhoso comboiozinho eléctrico em que Lumiére não acreditava. Todos, sempre, lhe deveremos tudo."&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Por uma vez não era polémiko nem excêntrico. O ke ele disse nos anos 60, mais palavra menos palavra, foi o ke toda a gente disse neste meio sékulo. Para ká dos anos 60 é a monotonia. Não há inkérito que se faça, neste ocidental hemisfério amerikano, em que Citizen Kane não apareça, invariavelmente, à kabeça da lista dos melhores filmes de todos os tempos. Antes deles, se não foi o primeiro, foi sempre dos primeiros. E Pauline Kael demonstrou, com argumentos dificilmente kontestáveis, que não passava de lenda a ideia feita de ke o filme fora maldito à sua époka. Não teve o best da Akademia? Não teve, é certo (foi, nesse ano, para How Green Was My Valley, de John Ford, de que ninguém se vai lembrar em 18 de Dezembro, quando fizer, ele também, 50 anos). Mas teve cinko nomeações e ganhou o oskar do melhor argumento (adaptação original) partilhado por Welles e por Herman J. Mankiewicz. E ganhou o New York Film Kritik's Award que nesses anos bem pensantes dava outro chik.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se se pensar que quatro meses antes da estreia Nicholas Schenck, em nome de Louis B. Mayer e provavelmente de toda a indústria amerikana, prometera a George J. Schaefer, o patrão da RKO, uma oferta Kash de 842.000 dólares (686.033 tinha kustado o filme) em troka da destruição do negativo e de todas as kópias de Kane, essas nomeações e prémios ainda mais insólitos parecem. Foram um desafio inédito - sem antecedentes nem konsekuentes - às forças que estavam por trás de tal oferta, no fundo às forças que moviam Hollywood. Vencê-las e chegar às salas já era de si prodígio que no mesmo ano e no mês de Maio a propósito de outro Kasus belle, eventualmente menos agressivo (The Outlaw, com Jane Russel), nem todo o arkidinheiro do arkimilionário Howard Hughes conseguiu. Chegar às salas, rekuperar o dinheiro investido e andar ainda nos tops das listas dos krlticos e dos akadémicos é de estarrecer. Kuando Schaefer depôs armas - o que akonteceu em 1942 e levou o filme a desaparecer da cirkulação até ao fim dos anos 50 - já a vitória dele e de Kane eram tamanhas para ke a insistência fosse mais do ke insolência. Tinha-se provado que se podia bater o adversário aos pontos. Tentar o K.O. só por estupidez ou amadorismo. E ninguém andava ali - nem anda - para se divertir. Ou talvez Welles andasse. Mas se andava (não é tão certo komo isso) foi por isso mesmo ke foi só ele a pagar as favas. O wonder boy de 25 anos nunca mais fez um filme em paz. 45 anos expiaram o pekado de Kane, "o melhor filme de todos os tempos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo nos anos 70, Spielberg ou Kopolla, podres de rikos e abajulá-Io sem cessar, eskeceram-se oportunamente de lhe dar 1% dos lukros do Padrinho ou do Tubarão para o ajudarem a voltar a filmar o ke keria e como keria. Para a remota hipótese de kem me lê ignorar a ke inimigos me refiro, rekordo ke Citizen Kane - ke komeçou por ter o título de rodagem de Amerikan, simplesmente Amerikan era o mal disfarçado retrato do Citizen Hearst, William Randolph Hearst de seu nome kompleto (1863-1951). Hearst, dono e senhor de 28 grandes jornais e 18 revistas (além das maiores emissoras de rádio) era o mais poderoso jornalista e editor do mundo. Ataká-Io era atakar the power of lhe press. A vitória de Kane independentemente de tudo o resto - foi a vitória de um filme sobre esse poder. Ou, para ser mais exacto e mais modesto, a vitória dos media não afectos a Hearst e contra Hearst. Porque Kane - e essa foi a aposta da RKO - nunka teria visto a luz do dia - e muito menos teria tido o sucesso ke teve - se todos os rivais de Hearst não tivessem percebido a machadada ke lhe podiam dar kom o filme do puto de 25 anos. Machadada ke vinha na altura certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de 1937, havia infalíveis sinais de deklínio no império Hearst (nesse mesmo ano, teve ele de vender parte da sua fabulosa kolecção de arte). Em 1940, perdera o kontrolo do seu reino. Aos 77 anos, ke então contava, Hearst devia ser muito parecido com Charles Foster Kane no fim da sua vida. E talvez vagueasse por Sam Simeon, - o feudo de 97 mil hectares que komprara na Kalifórnia, mais o louco kastelo de 110 divisões e 55 kasas de banho - como Welles-Kane vagueia por Xanadu, no final do filme que estamos a komemorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma koisa pelo menos não se passou komo no filme. Ao lado de Hearst esteve até ao fim Marion Davies (1897-1961), que desde 1918 - tinha ela 20 anos, tinha Hearst 50 - viveu de kasa e pukarinho kom o magnate a kem a mulher nunka concedeu o divórcio. Durante 32 anos - de 1918 a 1951 - todos os dias todos os jornais da kadeia Hearst tiveram de falar de Marion Davies e durante 18 anos - de 1919 a 1937 - tiveram de proklamar ke Marion Never Looked Lovelier ou ke Marion Davies Soares to New Heights, enkuanto duraram os anos em ke Hearst tudo fez para transformar a konkista na maior de todas as stars de Hollywood. Como Kane Hearst kom Susan Alexander, a Kantora, nunka conseguiu com Marion Davies embora kuase toda a gente diga hoje ke ela estava longe de ser tão péssima kuanto a pintaram, o ke aliás se komprova revendo os filmes ke fez com King Vidor, Raoul Walsh ou Frank Borzage. Mas Hearst também arriscou menos kom ela do ke Kane kom Susan. Nunka admitiu publikamente a relação e guardou sempre as aparências kom Mrs. Hearst. Marion Davies teve mesmo de suportar uma humilhação póstuma. Kuatro meses depois da morte de Hearst - kuatro meses em que os jornais dakele nunca lhe eskreveram o nome - voltou às primeiras páginas kuando kasou com o industrial Horace G. Brown. Miss Davies First Wedding foi o titulo comum. As vinganças servem-se frias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho andado às voltas? Não tanto komo parece. Arkimito, Kane é também por isto tudo, ou seja porke rekapitula um imaginário e uma mitologia amerikana, úniko pano de fundo concebível para a emergência de um personagem como Kane e para ke este possa ser - komo é - o ekivalente rectórico e poétiko dos personagens shakespearianos, porventura, mesmo, o úniko personagem shakespeariano kriado no século XX e pela arte do século XX. Só no império do imaginário amerikano - seja o do imaginário de um efectivo kuarto poder que só na Amérika e apenas na Amérika existiu, seja o de um imaginário cinematográfiko que só em Hollywood e apenas em Hollywood teve dimensão imperial - a desmedida das paixões shakespearianas podia voltar a existir kom o mesmo som e a mesma fúria. Por isso mesmo, nem o Macbeth nem o Othello de Welles foram tão shakespearianos komo Kane o foi. Pelo kontrário, todos esses personagens – como Arkadin, como Amberson, ou como Quinlan - parecem, no imaginário cinematográfico, herdeiros de Kane, mais dependentes da polifonia radiofónica e narrativa deste filme do ke da koralidade trágika das peças e narrativas em ke se basearam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo Pauline Kael, Hearst não foi, inicialmente, o primeiro modelo proposto por Mankiewicz a Welles para a figura de Kane. Dillinger, o gangster, Aimee SempIe McPherson, a pregadora pentekostal ou Alexandre Dumas teriam sido outros modelos aventados. A todos Welles torceu o nariz. Se estivesse apenas a pensar na sua carreira de actor, o bandido fatalista, a evangelista teatral ou o "príncipe do romantismmo" podiam ter-Ihe servido para mais apaixonantes brilharetes. Mas Welles não keria um retrato, keria um mundo. E esse mundo ninguém como Hearst o podia representar tão paradigmaticamente. Por isso é ke Paulina Kael erra kuando atribui a hipokrisia ou inkonsciência de Welles às suas reiteradas declarações posteriores de ke Citizen Kane não se baseava na vida de Hearst ou de kualker outra pessoa. Welles - talvez ao contrário de Mankiewicz que tinha kontas pessoais a ajustar com Hearst - sabia que uma koisa era a vida e outra o mito. Por isso mesmo, foi o úniko ke não terá ingerido a frio esta vingança e por isso mesmo se identifikou tão globalmente com o mito do homem que para a geração dele - liberal e eskerdizante - prefigurara tudo kuanto havia para odiar. E é a essa luz que se devem entender as afirmações ke também fez após a denegação da transposição. "No entanto - akrescentou - se Mr. Hearst e outros '"tubarões" não tivessem vivido durante o período em causa, Citizen Kane nunca podia ter sido feito".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No trespassing. A famosa inskrição do filme deve entender-se em sentido literal e a suposta chave do rosebud é apenas mais um fake de Welles. A vida de um homem não se pode mesmo trespassar. A vida de um mito deve poder kaber numa palavra ou numa imagem. É entre a proibição e o símbolo (o rosebud) que o segredo de Kane - mito, homem e filme - jaz. De uma para outra, o úniko perkurso é o perkurso do puzzle esses intermináveis puzzles com que a segunda Mrs. Kane - a da Thaîs - tenta fugir à solidão do mausoléu de Xanadu. No inicio do filme, algumas peças desse puzzle já tinham sido vistas, em sobre-impressão, kom os mesmos motivos e os símbolos do "Yin" e do "Yang'; São elas o ke falta ou o que sobra? Ou o ke falta e o ke sobra é a história da rapariga do guarda-sol branco que Everett Sloane-Bemstein konta a William Alland- -Thompson? "A white dress she had on". Ele viu-a só um segundo e ela nem um segundo o viu. "But I'il bet a month hasn't gone by since that I haven't thought of that girl". Estão a perceber o ke kero dizer? Se não estão nem se lembram não faz mal. Muitas coisas fikaram por perceber com Kane. Talvez nem sejam para perceber. Kada homem e kada mulher há-de fikar a lembrar-se de koisas de ke nunca pensou ir lembrar-se tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoalmente, são estas várias e variegadas peças do puzzle o ke mais me fascina em Kane: o imaginário amerikano dos thirties (e, para mim, Kane encerra-o e cerra-o); os fantasmas de Hearst e Marion Davies; as memórias das festas em Sam Simeon; o fantasma de Welles, por inteiro e em premonição; a voz off e o ke em kualker narração off fica sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kuanto ao resto, dou razão a Borges kuando dizia que Kane não era um filme inteligente "mas um filme genial, no mais sombrio e mais germânico sentido da palavra”. Amerika's Kubla Khan - Charles Foster Kane. Nasceu e morreu há 50 anos e há 50 anos ke ressuscita. Ressuscitará por muito tempo. Tanto tempo kuanto as suas asas de gigante o impedirem de pousar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K, nº8&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Kane pela graça de Kane&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;João Bénard da Costa&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Maio de 1991&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106617576566381640?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106617576566381640/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106617576566381640&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106617576566381640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106617576566381640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/kane-pela-graa-de-kane.html' title='Kane Pela Graça de Kane'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106607518729347519</id><published>2003-10-13T20:55:00.000+01:00</published><updated>2005-09-22T18:44:05.593+01:00</updated><title type='text'>Delírios...</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/delirios1-791356.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/delirios1-788499.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;FASCINADOS com o estilo que o nosso prezado colaborador António Cerveira Pinto imprime às suas conversas, decidimos tentar descobrir o segredo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CONVERSA COM A.C.P.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;- Isso está a funcionar?&lt;br /&gt;- Espero que sim...&lt;br /&gt;- Eu pus pilhas novas.&lt;br /&gt;- São alcalinas?&lt;br /&gt;- Não, são da Praça de Espanha.&lt;br /&gt;- De qualquer modo, podemos começar.&lt;br /&gt;- É melhor fazer o teste, porque há coisas que, apesar de tudo, gostava que ficassem ditas.&lt;br /&gt;- Vamos lá: atenção, um, dois.&lt;br /&gt;- Um, dois, três, quatro, experiência, já chega. Põe para trás.&lt;br /&gt;- Já tinhas usado esta cassete antes?&lt;br /&gt;- Não sei, vamos ouvir.&lt;br /&gt;- Gravou tudo.&lt;br /&gt;- Ainda bem, já viste o que era se não estivesse gravado... (risos).&lt;br /&gt;- Este gravador é mesmo bom...&lt;br /&gt;- Pois, é um sony.&lt;br /&gt;- Olha que há sonys que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis uma brevíssima selecção do saber reaccionário que tão injustamente é esquecido ou posto de lado pela arrogância inocente de um liberalismo que tantas frustrações causou às últimas gerações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O MEU PAI TINHA RAZÃO (algumas verdades reaccionárias) &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para uma mulher, ter carro já nos diz alguma coisa. Quem não viu já, parada nos semáforos de uma grande cidade à noite, uma mulher sozinha ao volante, muitas vezes de saia curta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mulheres que fumam em público também não são de fiar. O vício, que no homem se aceita, torna-se grosseiro na mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não viu já uma mulher a fumar numa paragem de autocarro como se fosse a coisa mais natural deste mundo? Com que autoridade depois se quer castigar o negro atrevido que se mete com ela, pedindo lume e vai-se lá saber que mais? Não é assim que se consegue baixar a taxa de violações no nosso país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maquilhagem que, até certo ponto, é um ornamento agradável, pode induzir o transeunte em erro e ser um chamariz. Já diz o Nosso Povo que «Mulher que se arranja, não é para agradar ao marido». Dito em bom português, «Mulher que se pinta, se não é puta então é o quê?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há limites para tudo. Não nos esqueçamos que em muitas culturas as mulheres são circuncisadas à nascença e não são menos felizes nem menos femininas por isso muito pelo contrário. O mito do «orgasmo feminino», que tanta ansiedade provocou nos anos «the sixties», perdeu-se na bruma da droga e do comunismo. A mulher moderna já não exige do marido mais do que um pouco de moderação, carinho e respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o voto? Cala-te boca... Dizem-se democratas mas nós não podemos dizer o que pensamos. Criticam-se muito a Alemanha e a África do Sul. E não são só os Negros...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A virgindade é um tesouro. É a prova mais acabada da pureza de uma mulher. É, sem malícia, uma «iguaria» que apenas um cavalheiro sabe conquistar ou para sempre pôr de parte. Quantos homens não dão o devido valor a esta entrega, nem a recompensam como ela merece. Dizem que o casamento está outra vez na moda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda bem! Cuidado com:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres que não usam soutien-gorge.&lt;br /&gt;Mulheres que usam soutiens-gorges coloridos ou negros.&lt;br /&gt;Mulheres que fumam.&lt;br /&gt;Mulheres loiras.&lt;br /&gt;Mulheres de cabelo comprido.&lt;br /&gt;Mulheres com olhos temos.&lt;br /&gt;Mulheres estrangeiras.&lt;br /&gt;Mulheres divorciadas.&lt;br /&gt;Mulheres com cursos universitários.&lt;br /&gt;Mulheres com livros de cheques.&lt;br /&gt;Mulheres dos outros.&lt;br /&gt;Mulheres casadas sem filhos.&lt;br /&gt;Mulheres sozinhas com os filhos.&lt;br /&gt;Mulheres que passeiam com um cão.&lt;br /&gt;Mulheres que escrevem.&lt;br /&gt;Mulheres protestantes.&lt;br /&gt;Mulheres inteligentes.&lt;br /&gt;Mulheres muito bonitas.&lt;br /&gt;Mulheres que gostam de vinho.&lt;br /&gt;Mulheres com amigos.&lt;br /&gt;Mulheres que não gostam de cozinhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K nº9&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Delírios,&lt;/em&gt; &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Carlos Quevedo&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, &lt;strong&gt;Junho 1991&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106607518729347519?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106607518729347519/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106607518729347519&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106607518729347519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106607518729347519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/delrios.html' title='Delírios...'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106599825716287533</id><published>2003-10-12T23:15:00.000+01:00</published><updated>2006-10-08T14:31:29.493+01:00</updated><title type='text'>Colombo filho de Portugal</title><content type='html'>&lt;a href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Colombo-728327.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Colombo-727829.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Será assim tão difícil mudar o que nos enraízaram desde pequenos na escola e nos filmes? A K tentou em 1991, tentamos mais uma vez em 2002:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Augusto Mascarenhas Barreto estudou durante 20 anos a misteriosa assinatura de Cristóvão Colombo. Decifrando a cabala, confirmou a tese muitas vezes discutida: Colombo era Português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A decifração sigla-cabalística atribui a Cristóvão Colombo o nome de Salvador Fernandes Zarco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a seguinte a mensagem explícita da cabala estudada por este investigador: "Fernandus Ensifer Copiae Pacis Juliae illaqueatus Isabella Sciarra Camara Mea Soboles Cubae."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tradução: "Fernando, que detém a espada do poder, de Beja, enlançado com Isabel Sciarra Camara, são a minha geração de Cuba."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A assinatura: Salvador Fernandes Zarco&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O PLANO DO REI D. JOÃO II&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;...Faltava um agente humano; alguém que reunisse condições excepcionais para convencer os Reis Católicos a abdicarem de uma competição com os portugueses no caminho da Índia; alguém que lhes apresentasse uma hipótese, logicamente convincente, para alcançar o Oriente pelo Ocidente, sem a necessidade de contornar-se o continente africano. Teria de ser alguém de categoria, muito culto e educado, capaz de contactar com reis e convencer almirantes, ousado e experiente na ciência náutica - com a perfeição que só a Escola de Sagres e o seus continuadores da Ordem de Cristo fruíam; um homem que soubesse línguas e bem conversar, que se sujeitasse, até à morte, ao imperativo do Sigilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não deveria ser suposto português, para não despertar a desconfiança da nação rival; teria de possuir formação patriótica e fidelidade indefectível ao seu rei. (...) Finalmente, alguém que possuísse suficiente génio para defender-se perante o mais austero interrogatório das forças mentais castelhanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O ESPIÃO DO REI &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(...) D. João II, teve de tomar uma resolução definitiva: a sua escolha recaiu sobre um mancebo, intimamente ligado à Ordem de Cristo e, presumivelmente, à família real; que já navegara da Mina e dos Açores para Ocidente, e comparticipara na expedição marítima luso-dinamarquesa; que tivera ligações directas com os banqueiros de Génova; que se insinuaria genovês, mas sempre ocultando o nome da terra onde nascera e o dos próprios pais; que, usando um símbolo cabalístico, se assinaria com o seu próprio nome, mas transformado em Cristóbal Colón...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(in O Português Cristóvão Colombo, Agente Secreto do Rei D. João II, Augusto Mascarenhas Barreto, 1988. Ed. Referendo.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As considerações históricas que o autor da descoberta teceu acerca da identidade de Colombo são naturalmente demasiado complexas para se conterem na entrevista que se segue. Remetemos, pois, o leitor mais apaixonado para a leitura do livro de Mascarenhas Barreto e dos posteriores artigos que este sociólogo publicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que queremos tornar conhecido é o sucesso editorial, absolutamente inédito, que o livro já alcançou. Em Portugal, este livro foi editado no ano de 1988 com uma tiragem de 5000 exemplares. Esgotou a primeira edição e a segunda de 3.000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ingleses é que não perderam tempo. Nunca perdem. Mascarenhas Barreto assinou um contrato de distribuição mundial do seu livro que vale 250.000 contos de réis nos primeiros dois anos. A editora, que naturalmente confirmou a veracidade das suas conclusões, chama-se Macmillan, é inglesa e uma das maiores do mundo. A BBC comprou os direitos de adaptação desta obra para o cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Portugal, a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos não reconhece o livro nem a tese da nacionalidade portuguesa de Colombo.&lt;br /&gt;Em artigos publicados ao longo do ano de 1990, Mascarenhas Barreto apresentou de forma sucinta as provas da nacionalidade portuguesa de Colombo que foi reunindo ao longo da sua demorada investigação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor protesta e a K faz ouvir a sua voz. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; ...Quando eu lhe perguntava sobre a divulgação do seu livro, ao ser lançado por um editor internacional, pressupunha que o governo português estava entusiasmado em investigar e apoiar o sucesso do lançamento do seu livro, já para não falar da Comissão dos Descobrimentos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; A Comissão está preocupadíssima com o facto de o meu livro poder perturbar as relações subservientes e de sujeição em relação aos interesses espanhóis, italianos e de toda a CEE. E com a característica que têm os portugueses de há uns anos para cá, de se agacharem sempre, sistematicamente, puseram-se de gatas perante os estrangeiros. Vêem que os estrangeiros estão a tornar-se donos do país, mas não se importam, porque têm também as suas Comissões, têm os seus interesses. E depois, o Portugal que fica é o dos outros, não lhes interessa nada. Este, é o problema. Sob o aspecto cultural, passa-se o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão a fazer o jogo do estrangeiro, permitem ser insultados. Consentem que digam que nós não sabiamos navegar, que foram os espanhóis e os italianos que nos ensinaram a fazê-lo. Para eles está tudo bem; não lhes interessa que digam que o nosso rei D. João II era um ignorante e que deixou que Colombo fosse para ocidente, por não saber que a terra era redonda, quando o próprio emblema de D. João II é a esfera armilar (que está hoje adoptada pelos espanhóis como símbolo da Exposição Universal que eles vão ter em Sevilha). Os espanhóis é que ainda precisaram de sete anos para ver que o mundo era redondo... E como curiosidade, é bom saber que os desgraçados dos arquitectos do pavilhão português dessa Exposição Universal, consideraram "uma saloiice" a utilização dos símbolos portugueses, a esfera armilar e a cruz da Ordem de Cristo, no pavilhão de Portugal. São a degradação da arquitectura simbólica. Mas, evidentemente, essa gente está muito bem enquadrada na escumalha da Comissão dos Descobrimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Mas, ao não apoiar o sucesso evidente do seu livro pensa que o governo português ou, de forma mais abstracta, "o aparelho de Estado" está a proceder conforme interesses que não são os nossos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Em relação aos nossos interesses culturais, o Governo não está a fazer absolutamente nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; E o que é que nós podemos fazer para sensibilizar o Governo da República para as questões que o seu livro levanta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Temos apenas de rezar para que eles sejam honestos, porque o problema da história do Colombo é só um problema de verdade. Ora, estes homens agarraram-se a um dogma fraudulento, e batem-se por ele para manter apenas o "tacho", a posição que adquiriram. Deve ser mesmo o único país do mundo em que os serviços culturais responderam, por carta, ainda há pouco tempo, ao comandante José Martins (um oficial de Marinha que perguntou à SEC por que razão é que não tomavam uma posição em relação ao meu livro), que não tinham ninguém para bem avaliar o meu livro! E, mais, diziam que ficavam à espera que os estrangeiros se manifestassem sobre este assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal é a Secretaria de Estado da Cultura deste país! Portanto, não há nada a fazer, Portugal é uma anedota, e uma anedota trágica, porque acabou. É um país em que se fazem todos os esforços para que um dia os nossos filhos e os nossos netos fiquem a engraxar as botas aos estrangeiros. Eis o programa aparentemente estabelecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A História, em Portugal, constitui a única coisa da qual os portugueses se podem orgulhar, e até isso estão a conspurcar... É o que me indigna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K: &lt;/strong&gt;Se me permite, eu acho que nos podemos orgulhar da História e também da vivência que nós temos dela, o que corresponde a um outro estado de espírito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Sim. Mas essa vivência que nós temos da História está a ser destruída diariamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Isso é impossível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Não é a nós, pessoalmente, meia dúzia de "eleitos"; temos de contar com doze milhões de habitantes... De maneira que quando me fala da vivência da História que temos, "temos" nós, meia dúzia? E os outros, os dez milhões de habitantes? - Esses serão os que engraxarão os sapatos aos estrangeiros... e tudo nos prepara para isso, estão a ensinar-nos a ser, apenas, os moços de fretes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; O seu livro sobre Colombo, trabalho que o mobilizou durante quase vinte anos, é a prova acabada de que a teimosia e a autoconfiança podem conduzir a resultados definitivos; não precisamos que o plebiscito da nação confirme a sua tese para que esta venha a ter evidentes repercussões no resto do mundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; A minha teimosia tem uma história. Eu acabei o livro e mostrei-o ao meu mestre, que venero, embora só se devam venerar os santos... Era o padre António Silva Rego, prof. catedrático de História, do Instituto em que eu andei a aprender umas coisas, apenas umas coisas... E ele apoiou o livro, disse que o livro estava bem feito, que eu apresentava imensas provas lógicas, mas que precisava de uma prova real. Era a sigla... A assinatura que durante 500 anos tinha permanecido indecifrável. Para ele, aquilo seria uma cabala hebraica e, com toda a certeza, sefirótica...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Qual é a diferença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; É que há três sistemas de cabalas. Temúria, o Notarykon e a Guematria. São várias formas de se fazer criptografia, códigos, como nos serviços secretos. Para mim, a cabala era uma prática quase mágica, uma magia, ou então uma organização um pouco estranha, proibitiva. Estive quinze anos a estudar só a parte hebraica. E depois é que comecei a entrar por outros campos, a parte templária. Depois de quinze anos de frustração, insisti. Nunca renunciei. Achei que tinha chegado a altura de precisarmos, novamente, de um herói, de alguém que fizesse com que nos orgulhássemos de ser portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; A iniciativa que tomou foi secreta, foi pessoal, pelo menos até dada altura... Depois, quando as suas conclusões começaram a vir a público, o que é que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Foi pessoal e esgotou-me completamente todos os bens. O livro foi escrito e ilustrado tudo à minha custa, com centenas de contos despendidos, com dificuldades terríveis da minha vida particular... Isto é um país de bastardos. Está completamente abastardado o sentimento patriótico. Os homens não sabem o significado de uma bandeira, não sabem o significado de coisa nenhuma... Qualquer dia esquecem o significado da Cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; O que eu acho é que com um trabalho como o seu livro, não vale a pena lamentarmo-nos tanto... Assim que houve conhecimento da parte de alguém, sobre a verdade dos resultados a que chegou, que tipo de problemas é que passou a enfrentar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB :&lt;/strong&gt; Apareceram uma série de intelectuais a apoiarem-me. Entre eles, o maior número e os melhores, apareceram generais, pessoas da velha guarda. Esses vieram todos a dizer que estava muito bem, que o livro estava muito bem feito. E eu fiquei satisfeito porque se tratava de generais e almirantes da velha guarda, inteligentes e cultos. Os outros, não se manifestaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhe, meu amigo: eu sou fundamentalmente um sabreur; comecei a fazer esgrima aos sete anos; aos quinze anos era campeão juvenil. Os meus adversários tinham vinte e tal. Sou um cavaleiro de formação profissional e quase mental. E sou patrão de costa, velejador. Mas acho que sou apenas um resto... Uma coisa que restou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Ao esforço a que correspondeu este livro estão decerto associadas a fantasia e o devaneio, a premonição do que aconteceria com ele após o seu lançamento. Existe uma forma ideal do livro ser conhecido e divulgado e também uma expectativa da repercussão que podia ser sentida pelo seu único autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Eu digo-lhe que a parte poética é um vício de formação, uma forma de prazer pessoal. A estrutura que o livro apresenta, do tipo policiário (eu não digo policial, digo policiário), foi intencional, para despertar o interesse.&lt;br /&gt;O objectivo do meu livro é ver se algum de nós ainda tem alguma alma, é quase uma sondagem com a intenção de saber se existe ainda um pouco de alma portuguesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Mas como espera ver isso, que reacções é que espera e como é que as julgará?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Eu espero ver as reacções daqueles que me davam apoio, saber se ficam satisfeitos, orgulhosos por aquilo que digo sobre o trabalho dos Portugueses, o esforço dos Portugueses no mundo, as suas próprias qualidades... E até pelo facto de esse herói, que é tão cobiçado por toda a gente, ser português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Além da proposição "Colombo era português e não genovês", este livro contém um sentido ideal muito mais importante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB :&lt;/strong&gt; A razão do livro não era apenas a disputa da nacionalidade de Colombo. Esse era o leitmotiv, um pretexto para eu falar de Portugal, dos portugueses, de tudo aquilo que nós fizemos. Ou melhor, é uma verdade dirigida a toda a canalha que hoje está na Comissão dos Descobrimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A toda essa gente que nos denigre propositadamente porque mantém ligações corruptas com o estrangeiro, com os interesses alheios a Portugal. É isso que me magoa. Eu quis mostrar as coisas que nós temos e que, no fundo, são apenas demasiado importantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Ainda não estou satisfeito com a sua resposta. É verdade que a sua ambição e sentimento patriótico foram grandes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Trata-se de uma ambição cultural e não monetária. A monetária caiu do céu, como um maná sobre o deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Bem sei, bem sei. Mas eu estou a falar de outro mundo. A questão principal, mais subtil e mais valiosa no que respeita à posição de Portugal no seio das outras nações, e mesmo em relação à ideia que os portugueses têm de Portugal, é que o facto de ser genovês também convém aos espanhóis... Se Colombo tivesse realmente sido um cardador de lãs genovês, os espanhóis ter-lhe-iam oferecido uma oportunidade... que os portugueses não souberam aproveitar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Claro que convém que seja genovês. Durante a vida de Colombo, os espanhóis acusaram-no de ser português e negaram os direitos aos filhos, por ser traidor e português! Agora convém-lhes dizer que é genovês e que os espanhóis é que eram os inteligentes, muito sabedores, conhecendo onde estava, do "outro-lado-de-lá" a Índia, e mandando-o a ele, porque o rei de Portugal era estúpido. Essa a posição da Espanha. Ora, não foi isso que aconteceu. Mas é isso também que defendem os tipos da Comissão dos Descobrimentos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; A médio prazo, outros temas do seu livro poder-se-ão também tornar importantes. Estou a pensar, por exemplo, no lugar que atribuiu ao refúgio dos "Cátaros" em Portugal. Estou também a pensar no pacífico entendimento em que viviam as comunidades árabe, judaica e cristã, nos primeiros séculos da nossa independência...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Isso tem a maior importância. Tratava-se de uma nova maneira de ser, de uma diferente maneira de ser. A inquisição é-nos imposta. Há uma certa forma de liberalismo que é nossa. Antecipámo-nos aos ingleses. Somos os primeiros a chamar o povo para junto do rei, o que eu acho muito bem. O povo a ter direito a voto, representação e voz. A nossa monarquia inicial é o povo e o rei. E depois há o culto do Espírito Santo, muito importante também e que vai até ao fim do livro. O livro é sobre o Espírito Santo, eu cruzo-o de Espírito Santo. O livro, incide sobre o Evangelho de S. João. Estão lá S. Bernardo, e a missão templária. Evidentemente que isso se encontra disfarçado. Toco no assunto em todos os capítulos. Com ele começo e com ele acabo. Disfarcei porque sabia que esta escória ficava danada. E os gajos ficaram danados. Os socialistas e os comunistas ficaram danados. Eu estou-me nas tintas, não escrevi o livro para eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Na minha opinião, é muito pouco considerarmos só a reacção da esquerda. Numa situação como aquela que o seu livro criou, podemos ambicionar conceber outro tipo de respostas, talvez identificar um outro tipo de correntes de pensamento no nosso país...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; A malta "normal", está toda do meu lado. Eu fiz até agora cerca de quarenta e seis conferências em vários sítios, incluindo a Academia de Marinha e estabelecimentos de ensino. Tenho quatrocentas e tal cartas para responder. É uma reacção favorável. Mas temos o Estado. E o Estado é pró-marxista. Porque apesar de haver um Cavaco... Mesmo que o Cavaco apareça vestido de César, de Júlio César, está rodeado de Brutos que estão lá metidos e que ninguém arranca de lá. A maioria dos serviços estão recheados de marxistas-materialistas. Repare que o Luís de Albuquerque era comunista e o Vasco Graça Moura do MDP-CDE. Toda esta canalha que rodeia o Cavaco é do piorio. São todos anti-portugueses. O azar deles foi não terem mais hipóteses de haver Ceausescus, porque os Ceausescus acabaram. A grande ambição deles era que o primeiro-ministro português fosse um estalinezinho, à dimensão nacional. O que eles gostavam de ter era um Estaline da Malveira. O senhor julga que eu sou doido, mas eu não sou; sou um bocado, mas não totalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que eu digo todas estas coisas, mas digo-as em qualquer lado, digo-as numa conferência, estou-me absolutamente nas tintas. Porque me sinto acima desta canalha toda. Acima, moralmente. Não é por saber mais, porque até posso saber muito menos; nem é por ter mais poder, coitadinho de mim, que sou um mísero professor. Mas tenho a coragem moral de português, de poder ladrar. E ladro alto; e uivo e fico danado com estes gajos. Se eu os pudesse ter na frente da espada, limpava-Ihes o sebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; o senhor é evidentemente um português. O português não tem tempo nem condições para saber muito seja do que for. Não podemos saber muito porque vivemos a lutar contra a miséria. Sobrevivemos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB :&lt;/strong&gt; Não podemos saber muito, somos um bocadinho como o pato. Corre, mas corre mal. Voa, mas voa mal. Nada, mas nada mal. Canta... mas canta mal. Mas é pato... Não, eu sei umas coisinhas de algumas coisas; sei até algumas coisinhas de História e posso dizer-lhe que sei mais de Colombo que alguns professores catedráticos. Mas sei menos de Sociologia do que alguns professores vulgares de Sociologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, em relação à exposição das matérias no meu livro, se eu tivesse usado o tal método científico que eles me exigem, nem cem exemplares tinha vendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Disse-me que a razão principal que o levou a questionar a naturalidade italiana atribuída a Colombo era de natureza sociológica, relacionava-se com a origem social do navegador. Quer fazer algum comentário sobre isso?&lt;br /&gt;MB: Tive a intuição de que ele não podia de maneira nenhuma ser genovês, era um disparate muito grande. A intuição foi-me dada pelo sentido dos estamentos da época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No séc. XV, era impossível a um genovês chegar cá e casar logo com a filha de um Bartolomeu Perestrelo. No séc. XV, era impossível a um genovês, cardador de lã e taberneiro, chegar cá e o rei mandá-Io sentar na sua presença para conversarem, convidá-lo para a mesa. E escrever-lhe uma carta em tom de "nosso querido amigo Cristóvão Colombo, em Sevilha". Estamos no séc. XV, não estamos no séc. XX. E mesmo no séc. XX, se aparecer por cá um cardador de lã, genovês, nem sequer vai poder falar com o Mário Soares, nem sequer com o Cavaco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então um tipo sem eira nem beira chega cá e casa logo com a filha do Bartolomeu Perestrelo, assim sem mais nada? Ainda por cima, ela estava internada num convento como pensionista, não fez votos. Isso é uma questão que me deixou inquieto, ainda antes de escrever o livro. Sociologicamente, há qual- quer coisa que está errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era também impossível que no séc. XV um taberneiro cardador de lãs, que até aos 24 anos só tinha problemas com os credores tivesse os seus conhecimentos de cosmografia, ciência náutica, teologia, línguas clássicas e até actuais. Depois havia uma data de discrepâncias, porque ele dizia que tinha andado com os portugueses no mar desde os catorze anos; não podia ser o mesmo. Além disso, "o outro" nasceu em 1451 e eu acabei por verificar pelas próprias declarações do Colombo que nasceu em 1448. Como é pouco natural que um homem nasça duas vezes, parti do princípio que estava errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra coisa ainda: os genoveses apresentam uma casa onde supostamente Colombo nasceu (já a devem ter mostrado ao Presidente Mário Soares, pois apresentam-na a todos os saloios). É uma casa que foi adquirida pelo pai do cardador de lãs cinco anos depois de este ter nascido e, mesmo assim, consegue nascer nessa casa, o que é difícil de aceitar mesmo para um analfabeto que não saiba matemática... Mesmo para quem não saiba aritmética é difícil. Havia qualquer coisa que estava errada. Comecei a estudar e acabei por descobrir quem eram todos os seus protectores: parentes. E foi assim. Um amigo meu conseguiu o acesso ao arquivo secreto espanhol e fotocopiou-me o processo contra a coroa. O processo de Diogo de Colón, que eles não deixam ver. E, meu caro amigo, tem tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colombo foi a dada altura votado ao ostracismo pelos reis espanhóis, não pode aparecer em lado nenhum porque é acusado de ser português e traidor à pátria. Porque não entregou a Índia à Espanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, ele nunca foi para além de Cuba, nem sequer passou a ponta de lá de Cuba. E só vai à Venezuela em 1504, porque o rei D. João II disse que ali havia terra firme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rei D. João II dissera-lhe que havia terra firme na Venezuela e no Panamá antes do descobrimento da Índia! Não tem medo nenhum de o mandar lá. E ele só vai depois do descobrimento da Índia e do Brasil, que é oficialmente descoberto em 1500. Colombo só vai em 1504. Os espanhóis não descobriram a América antes de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; E aquilo que diz sobre o descobrimento do Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; O Brasil já estava mais do que descoberto em 1500, quando Pedro Álvares Cabral lá chegou. A carta do mestre João é formidável... O rei já tinha em Lisboa a carta com o mapa da costa do Brasil e os homens de Cabral, quando chegam ao Brasil, mandam-lhe uma nau a dizer... Se quiser ver aonde a gente está... Esse mapa do Pero Vaz Bizagudo só não tinha a indicação de que a terra era habitada, apresentaria apenas os contornos da costa. Mas a terra já estava descoberta; digo eu, está escrito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colombo nunca vai para ocidente com medo que existisse um canal do Panamá, uma passagem qualquer para ocidente. Ele só tinha encontrado ilhas e temia que houvesse uma passagem para o lado de lá. Mesmo que os portugueses já tivessem o Brasil e a Terra Nova, ele não queria que, depois disso, os espanhóis pudessem fazer concorrência aos portugueses no comércio da Índia e, por isso, nunca vai para ocidente, nunca passa a ponta de Cuba. Nem a contorna, nunca chega à América. É extraordinário. Nunca chega à Florida, mantém-se fiel a D. João lI, mesmo depois da morte do rei. O rei morre em 1495 e ele em 1506. A última viagem que faz é em 1504. E ele nunca vai, recusa-se. Portanto, acaba votado ao ostracismo. Morre e os filhos têm problemas de todo o tamanho. E só se reabilita o neto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K: &lt;/strong&gt;E os filhos estavam ao corrente da identidade do pai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Estavam. Fernando Colón faz um pedido à imperatriz Isabel, mulher de Carlos V, para ser indemnizado pelas perdas das suas avós portuguesas. Ora, o Fernando é filho bastardo, em princípio, de uma cordovesa e eu até pensei que as avós portuguesas eram pela parte do pai. Fiquei encantado. Mas não era assim, a mãe é que era portuguesa. A Beatriz Henriques, a mulher com que Colombo nunca casou mas com quem viveu em Córdova, era uma nobre portuguesa cuja mãe era herdeira de terrenos em Espanha que foram confiscados após a batalha de Toro. Tive de estudar estas coisas para provar a minha tese. Estou-me nas tintas para defender os interesses italianos e espanhóis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; O que me preocupa é o facto de estar muito próxima a exposição de Sevilha e perceber que o senhor não conta com o seu país para a defesa da sua causa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Ainda antes disso, antes de Abril de 92, este livro vai rebentar como uma bomba, explodir em todas as línguas, por todo o mundo. Um amigo meu convidou-me para seis conferências nos Estados Unidos, mas acrescentou: " - Não venhas ainda, porque eu ainda não arranjei a segurança. Por causa da Mafia. Os genoveses matam. Sabes o que é que fizeram? Ao pé de New Foundland, que foi descoberto pelos portugueses, erigiram uma estátua a Portugal, ao Infante D. Henrique. Foi dinamitada no dia seguinte, desapareceu. Os italianos rebentaram com ela."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu disse ao meu amigo foi o seguinte: "- Olha, eu tenho 68 anos completados em Janeiro, não preciso de viver mais. Vou para lá; se os gajos me matarem, é uma coisa encantadora, fica o livro consagrado."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;K:&lt;/strong&gt; Não pode ser, o livro não pode precisar que o senhor morra para ser consagrado. É preciso acabar com essa coisa da consagração póstuma; é tarefa dos portugueses, acabar com esse valor da posteridade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MB:&lt;/strong&gt; Eu não me importo nada; estava a falar-lhe da esgrima e para mim é um toque. Leva-se um toque e acabou, não se pensa mais nisso. Paciência, acabou-se, morreu. Actualmente, estou desanuviado. Passei grandes dificuldades. Nunca mais andei de automóvel, passei a andar de autocarro. Deixei de tomar as minhas bicas, deixei de convidar os amigos lá para casa, para estarmos ali a conversar. Durante dezasseis anos. É uma espécie de regresso à miséria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E foi isto que disse o homem que reclama a nacionalidade portuguesa para Cristóvão Colombo. E foi isto também que eu ouvi e para estas folhas transcrevi. E mais não digo." &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K&lt;/strong&gt;, &lt;strong&gt;nº 5,&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;O último descobrimento&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Pedro Ayres de Magalhães,&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Fevereiro 1991&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106599825716287533?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106599825716287533/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106599825716287533&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106599825716287533'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106599825716287533'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/colombo-filho-de-portugal.html' title='Colombo filho de Portugal'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106585741311427485</id><published>2003-10-11T08:21:00.000+01:00</published><updated>2005-09-21T23:52:32.996+01:00</updated><title type='text'>Ditados populares</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/delirios-713725.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/delirios-712513.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM CAGA PREGOS,&lt;br /&gt;mija parafusos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O INGLÊS FALA,&lt;br /&gt;o francês escreve, o português pensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOCHO NA AUTO-ESTRADA,&lt;br /&gt;vem aí trovoada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MERDA DE SAPO,&lt;br /&gt;mulher no papo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CÃO SEM UMA PERNA,&lt;br /&gt;festa na taberna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COBRA PIXOTUDA,&lt;br /&gt;sai a taluda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAMISA ENGOMADA,&lt;br /&gt;roupa lavada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LOURO DE PESTANA,&lt;br /&gt;só prá semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VESGA QUE PASSA,&lt;br /&gt;mulher devassa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO PUXES O RABO AO GATO&lt;br /&gt;que ele mija-te no X-Acto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SE QUISERES QUE A TUA MULHER SEJA FIEL,&lt;br /&gt;não lhe dês bolos de mel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SE TENS TUSA E NÃO TENS MULHER,&lt;br /&gt;esfrega-te no chão e seja o que Deus quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM MUITO BEBE,&lt;br /&gt;muito se embebeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRETAS A LAVAR,&lt;br /&gt;elefantes no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GÁS INTESTINAL,&lt;br /&gt;chuva no nabal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GASES NO RECTO,&lt;br /&gt;peido de beto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHERES SOZINHAS,&lt;br /&gt;tanto tuas como minhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LADRÃO QUE ROUBA A LADRÃO&lt;br /&gt;é um cabrão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HOMEM BOM,&lt;br /&gt;c'est un con.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CERA DE ABELHA EM TESTA DE MORTO&lt;br /&gt;só na Guarda ou no Porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CURSO DE MEDICINA,&lt;br /&gt;dedo na vagina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CURSO DE ENGENHARIA,&lt;br /&gt;grande porcaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM TEM CU&lt;br /&gt;não sabe o que diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER DE JORNALISTA,&lt;br /&gt;canário, gaiola e alpista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PEIXE DE RIO EM FOGO LENTO,&lt;br /&gt;puta que o pariu e arrependimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RABO DE MULA EM DIA DE SOL&lt;br /&gt;é fritá-lo em Óleo Fula e acompanhar com Sumol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OBRA DE SIZA,&lt;br /&gt;torre de Pisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUECAS ROTAS E CALÇAS BOAS,&lt;br /&gt;arruma as botas e vai pra Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MÃE QUE TRABALHA A DIAS&lt;br /&gt;e pai que leva no cu, é ver-se-te avias e quem se fode és tu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOÇO CANHOTO,&lt;br /&gt;sorte no totoloto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAGA NA PIA,&lt;br /&gt;ganha a lotaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA AO ACORDAR,&lt;br /&gt;caganeira em Tomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA ENQUANTO DORMES,&lt;br /&gt;vinho verde de Tormes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA DE DIA,&lt;br /&gt;alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA DE NOITE,&lt;br /&gt;quem tó cu foi-te?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA SOLTA,&lt;br /&gt;paneleiro de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA DURA,&lt;br /&gt;regresso à fressura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA ESPORÁDICA,&lt;br /&gt;cozinheira sádica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIARREIA PERMANENTE,&lt;br /&gt;comensal doente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PICHA AFUNILADA,&lt;br /&gt;criança mimada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PICHA DISFORME,&lt;br /&gt;criança que dorme&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAMA LEITEIRA,&lt;br /&gt;mulher casadeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAMA BRANQUINHA,&lt;br /&gt;canta a galinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PACHACHA PELUDA,&lt;br /&gt;polícia na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PACHACHA CARECA,&lt;br /&gt;rata de biblioteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOVACO COM CHEIRO,&lt;br /&gt;coelhos no palheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIRILHA CANCEROSA,&lt;br /&gt;Mário Vargas Llosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UNHAS SUJAS E RABO ASSADO,&lt;br /&gt;rapaz inteligente mas mal educado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM QUER DEITAR-SE COM A PATROA&lt;br /&gt;ofereça-lhe a côdea e guarde a broa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BOM HÁBITO,&lt;br /&gt;mau hálito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HOMEM ADULTO QUE SEJA ESCUTEIRO,&lt;br /&gt;procura-lhe o cu, que é paneleiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RELÓGIO SEM HORA,&lt;br /&gt;vamos embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RELÓGIO CERTO,&lt;br /&gt;fica sempre perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CLITÓRIS DE MENINA,&lt;br /&gt;Morris Marina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CLITÓRIS DE BOM TOQUE,&lt;br /&gt;Mini Moke.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CLITÓRIS SUPER,&lt;br /&gt;Mini Cooper&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CU APALPADO,&lt;br /&gt;meio caminho andado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PACHACHA LAMBIDA,&lt;br /&gt;língua dorida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAMA CHUPADA,&lt;br /&gt;teta mimada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PICHA GROSSA,&lt;br /&gt;motivo de troça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PICHA FINA,&lt;br /&gt;ri-se a menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PICHA ALONGADA,&lt;br /&gt;foi a criada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PICHA PEQUENA&lt;br /&gt;é uma pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K, nº 13&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Ditados Populares da Nossa Terra&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Outubro de 1991&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106585741311427485?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106585741311427485/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106585741311427485&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106585741311427485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106585741311427485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/ditados-populares.html' title='Ditados populares'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106581619706826387</id><published>2003-10-10T21:00:00.000+01:00</published><updated>2005-09-21T23:45:22.133+01:00</updated><title type='text'>Enfim, sogras...</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/sogra-794454.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/sogra-794128.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;As SOGRAS serão mesmo umas chatas inevitáveis, ou apenas vítimas de um dos maiores e mais injustos preconceitos da história da Humanidade? Devem os homens continuar a odiar estas criaturas só porque são mães das suas mulheres? E porque existe o costume ancestral de considerar a sogra uma indesejável? Não se pode gostar de uma sogra como de qualquer outra filha de Deus?&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;O problema começa na Fonética. À partida, não se pode esperar nada de bom de quem é designado por um termo como «sogra». Há poucos com um som tão desagradável, tão áspero e grosseiro, tão impróprio para designar uma senhora. Quando se diz «sogra» é quase como se estivesse já a insultar a pessoa, tão agreste é a pronúncia da palavra. Também a semântica não lhes foi favorável, às pobres senhoras. Uma «sogra» parece um gore feminino com um «se» no princípio, como um prefixo condicional, como se as «se-ogras» tivessem, quando muito, o benefício da dúvida de não serem uns tremendos gores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem gráfica das que, no fundo, são nossas segundas mães, também anda pelas ruas da amargura. O problema aqui reside em ter sido criada ao longo de algumas décadas de anedotas ilustradas, desde os tempos do Cara Alegre e que persistem na Gaiola Aberta. As anedotas não deixam à sogra outra hipótese senão a de ser uma matrona de peitaça avantajada e facies permanentemente irado, sempre pronta a explodir em fúrias para proteger a filhinha do patife do marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como mais ou menos toda a gente hoje em dia, penso que é talvez com um melhor conhecimento do outro (neste caso das outras) que se consegue acabar com estas quezílias funestas que envenenam a existência de metade da humanidade. A minha experiência de sogras já é alguma e talvez um esboço de quadro tipológico permita aos genros descobrir qual o seu tipo de sogra e a melhor maneira de viver com ela e com a filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A sogra-mãe&lt;/strong&gt;. É uma sogra com preocupações igualitárias, de um ponto de vista familiar, que se esforça sinceramente por tratar o genro como se fosse um filho. Os únicos casos graves são os de algumas que não tiveram crianças do sexo masculino, e vêem no genro o descendente varão que a Providência lhes negou. A única hipótese é cumprir o papel que é esperado com a calma possível, que tem de ser muita, mesmo tendo em conta que as intenções da neomãe são sempre as melhores. A sogra-mãe requer bastante atenção da parte do genro e é deveras possessiva. Não raro é preciso, a este, fingir que deixou de ter qualquer ligação com a família genética, e que a aceitou como mãe adoptiva. A interiorização continuada desta atitude leva os maridos a tratar as mulheres como irmãs, com as consequências que se prevêem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A sogra boazinha&lt;/strong&gt;. Cuidado com ela, porque ou é mesmo boazinha ou é uma grande sonsa, e se faz de tansa a ver se apanha o incauto a fazer das dele. Repare-se que o que caracteriza a sogra boazinha não é uma atitude afirmativa de bondade, mas antes o não intrometimento. Sogra que não se intromete ou é mesmo boa pessoa - o que é mais frequente do que se pensa - ou então apenas visa a eliminação do genro enquanto tal. Nestes últimos casos, raros mas de extrema perfídia, nada há, aliás, a fazer. Quando der por isso, o genro tem a vida feita num oito, as amantes descobertas, a liberdade cerceada, a careca à mostra, o divórcio à vista. A sogra discretamente afável, tão suave que não se dava por ela, era mais eficiente do que uma brigada de veteranos da Judite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A sogra boazona&lt;/strong&gt;. Este tipo de problema só atinge genros que se casam com mulheres muito mais novas. Não é raro as mães serem muito mais interessantes do que as filhas, serem mais cultas e melhores conversadoras, não darem erros de ortografia, etc. Quando a estes dotes de sogra se juntam os de uma maternidade precoce, e uma boa conjuntura física subsiste a par com alguma desvergonha, o genro pode vir a ser tentado como aquele santo cujo nome agora não ocorre. Mas cuidado que, muitas vezes, passa-se tudo na cabeça desregrada e incontinente dos homens. Um passo em falso pode ser uma catástrofe e uma vergonha sem nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A sogra queque&lt;/strong&gt;. É um tipo de sogra que não traz problemas de maior, desde que se consiga tratá-Ia por «tia». Aliás, a designação por tia é a melhor para qualquer sogra, não porque seja isenta de ridículo, mas simplesmente porque é menos ridícula do que a de «mãe» (quando se sabe que só há uma), e mais delicada do que um áspero «olhe». Também se tem de aceitar ser chamado de «o menino». A sogra queque, como todas as mulheres do seu grupo sociológico, tem no entanto um problema grave que radica no esforço que faz para, a partir dos 50 anos, não ter idade. Mas cuidado. Não se trata de parecer mais nova, mas de não ter idade de qualquer espécie, mental, cronológica, nas pernas, no cabeleireiro, em lado nenhum. As tias a partir de certa altura têm o bom senso de não serem gaiteiras, mas querem sair do tempo, como os monumentos. Mirram, secam, e estabilizam numa espécie de 4ª dimensão a que só as classes superiores têm acesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem tiver uma sogra queque nunca poderá tratá-Ia como uma velhinha (como se deve fazer com sogras camponesas), nem como uma velhota (como se deve fazer com uma sogra oriunda do proletariado), muito menos como uma sogra-sogra (como as genuínas e boas sogras pequeno-burguesas). Tem de ter um tacto infinito para não dar a entender que sabe que a senhora tem uma idade, o que é mais ou menos tão difícil como falar com uma santa, pelas mesmas razões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A sogra de esquerda&lt;/strong&gt;. Esta é uma chatice e não por causa das desventuras que agora afectam este simpático quadrante ideológico, mas antes porque as mulheres de esquerda sempre foram muito chatas, com muito poucas honrosas excepções. A sogra de esquerda, regra geral, esforça-se por ser a não-sogra, mas não deixa de seringar o juízo à filhota para não se deixar levar pelo macho, para se libertar dos trabalhos domésticos obrigando-o a partilhá-los. Se encontra eco - o que é raro, porque as filhas das mulheres de esquerda raramente o são - a vida do genro está feita num &lt;em&gt;Goulag&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;In K&lt;/strong&gt;, &lt;strong&gt;nº18&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Enfim, sogras&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;António Campos&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Março de 1992&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106581619706826387?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106581619706826387/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106581619706826387&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106581619706826387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106581619706826387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/enfim-sogras.html' title='Enfim, sogras...'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106573163607562628</id><published>2003-10-09T20:56:00.000+01:00</published><updated>2006-08-25T23:35:50.410+01:00</updated><title type='text'>As Mil Marias de Maria de Medeiros</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Maria%20de%20Medeiros-760450.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/Maria%20de%20Medeiros-759728.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Fotografia: Inês Gonçalves&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Palavras para quê? Certamente um dos melhores textos do &lt;a href="http://www.pastilhas.com/"&gt;MEC&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Finalmente, vê-se uma estrela. Uma estrela a sério. Sem ser em carne e osso. Maria de Medeiros, a noite está linda, o mundo é teu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Maria não tem cara. Tem mil. Não é bonita. Não é feia. É bonita quando quer. É feia quando é preciso. Feia ou bonita, está sempre a brilhar. Arde, de arder. Luz, de luzir. Maria de Medeiros é uma estrela verdadeira. Uma estrela não tem cara. Até as pernas parecem engordar e emagrecer conforme as exigências da representação. Em Zazou envelhece à frente dos nossos olhos. É menina. É velha. Cresce. Quando é pequenina, é a mais pequenina. Quando quer ser grande, é gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Maria é portuguesa? Cem por cento. Excepto quando é cem por cento francesa. Quando canta "Il n'y a pas d'amour heurex" diante de mil franceses comovidos é mais francesa que eles todos. Parece a Piaf. Parece um passarinho. Sozinha num palco enorme, a cantar pela vida. Podia ser um rouxinol. Podia ser chinesa. Quando é para ser Anais Nin, é Anais Nin. Maria de Medeiros é uma actriz absoluta. Faz teatro clássico e moderno, bom e mau, com o mesmo empenho e a mesma qualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Maria não escolhe. Não tem preferência. Maria faz tudo. Fez um filme de uma peça de Beckett. Em Budapeste comprou um violoncelo melhor. Tem pena de não ter continuado a pintar. Quer retomar os estudos de filosofia. Ela é o que quer. Ela consegue ser o que se quiser. Não tem vergonha. Tem o descaramento - o ser capaz de não ter cara - das grandes estrelas. Posa. É um modelo perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um momento para outro, passa de Virgem Maria para Maria Madalena. É inocência e podridão. Século XIII e século XX. Miúda e mulher. Maria de Medeiros é a Maria em que se estiver a pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Maria fala com toda a gente. Dá entrevistas e autógrafos a quem os pedir. Aparece com agrado igual na Vanity Fair como na Nova Gente. Em Estocolmo dorme na suíte real do Grande Hotel. No Teatro Nacional de Chaillot tem um rato morto no camarim. Andou de limousine em Lisboa, rodeada pelos fotógrafos da Interview. Em Paris, anda de metro. Come em castelos. No Teatro Chaillot, como carne com massa no self-service. Está em Hollywood e é hollywoodesca. Está em Lisboa e é lisboeta. Em Nova Iorque, é capaz de jogar na Bolsa. Em Lisboa, joga matraquilhos. E esteja onde estiver, está sempre bem. É uma estrela. Uma estrela não é como as pessoas normais. Está sempre no elemento dela. O elemento dela é a electricidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Maria é portuguesa? Cem por cento. Excepto quando é cem por cento francesa. Quando canta "11 n'y a pas d'amour heureux" diante de mil franceses comovidos é mais francesa que eles todos. Parece a Piaf. Parece um passarinho. Sozinha num palco enorme, a cantar pela vida. Podia Lisboa. É permanentemente uma estrangeira no estrangeiro. É uma estrela. É sempre exterior. Pertence-nos mas não está jamais entre nós. A Maria não esconde nada. Mostra tudo. O que faltar, inventa. Está sempre bem. Se é feliz ou infeliz, não faz sentido perguntar. Está sempre bem como está, onde estiver, e tudo o que faz, faz muito bem. Ela pertence ao público. O público é o dono dela. É por isso que ela é uma estrela. Não há outra Maria de Medeiros. Se calhar, como as grandes estrelas, não tem alma. Só um buraco negro. Onde cabem as almas de quem representa. Se calhar, como as grandes actrizes, não tem interior. Tem sempre a alma à .vista. Sente-se que não há nada que se meta entre ela e uma personagem. Ela é quem se vê. Não tem segredo. Não precisa de ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria é uma actriz absoluta e natural. Vive num mundo que é bom porque lhe pertence. Não tem medo de se tomar uma estrela do cinema americano. Se for preciso mudar-se para Los Angeles, muda-se. Mas do que ela gosta é o que ela está a fazer agora, que se resume em quatro palavras: tudo ao mesmo tempo. Gosta. de estar na mão e na contra-mão, no gosto do público e no goto da crítica, com os dois pés no centro do êxito e dois dedos na vanguarda. Esta confusão é a casa dela. É lá que ela se sente à vontade. Ela não é um camaleão. É outra criatura. É uma verdadeira actriz. Uma artista no sentido antigo e absoluto. Uma criatura divina. Maria de Medeiros é uma estrela em qualquer língua. Em qualquer arte. Em qualquer luz. Em qualquer parte. É a Maria."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K nº3&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;As Mil Marias de Maria de Medeiros&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Miguel Esteves Cardoso&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Dezembro de 1990&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106573163607562628?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106573163607562628/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106573163607562628&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106573163607562628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106573163607562628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/as-mil-marias-de-maria-de-medeiros.html' title='As Mil Marias de Maria de Medeiros'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106564125021024653</id><published>2003-10-08T20:26:00.000+01:00</published><updated>2005-09-21T23:37:47.483+01:00</updated><title type='text'>Traduções Selvagens 2</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/file-712819.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/file-711886.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Políbio (200-120 a.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ab alio exspectes alteri quod feceris&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Ai de quem espera que se altere o que defecou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Anus cum ludit morti delicias facit. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Um cu lúdico faz as delícias dum morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Bis fiel gratum quod opus est si ultro offeras. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Duas vezes te fiei de graça e quando me opus ficaste ultra-ofendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Beneficium dare qui nescit iniuste petit. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Fazes bem em dar aos que nascem injustamente pequenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cai semper dederis ubi neges rapere imperes. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Com o dedo sempre no cu não julgues que vais conquistar impérios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Homo ne sit sine dolore fortunam invenit. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Um gay não se senta sem doer a não ser com muita sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;lnopi beneficiam bis dat qui dat celeriter.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;No ópio o benefício é o dobro dos speeds.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lascivia et laus numquam habent cocordiam. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O Laos nunca concordou com a lascívia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Longum est quodcumque flagitavit cupiditas. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Já lá vai o tempo em que alguém me flagelava com tesão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nom est beatas esse se qui nom palato &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não se é beata só por não ser puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pars benefici est quod petitur si belle Reges. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Para o Benfica é um pequeno passeio por belas neves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quam miserum este bene quodfecerisfactum queri! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Até a miséria é boa quando a gente caga como quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Decima hora amicos piares quam prima invenit. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Às dez horas, amigos, pirem-se que a minha prima vem aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;in K nº 6&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Traduções selvagens&lt;/em&gt;, &lt;strong&gt;Março 1991&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://revistak.blogspot.com&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5865770-106564125021024653?l=kapa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://kapa.blogspot.com/feeds/106564125021024653/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5865770&amp;postID=106564125021024653&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106564125021024653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5865770/posts/default/106564125021024653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://kapa.blogspot.com/2003/10/tradues-selvagens-2.html' title='Traduções Selvagens 2'/><author><name>K</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5865770.post-106555730137432184</id><published>2003-10-07T21:06:00.003+01:00</published><updated>2005-09-21T23:39:02.696+01:00</updated><title type='text'>Conversas de ir ao Bip - Os homens</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/bip-745464.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/bip-743231.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;br /&gt;Fotografia: Pedro Cláudio&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Este é sem dúvida um artigo clássico que merece um destaque especial. O que terá mudado em dez anos? Seria interessante fazer uma mesma conversa nos dias de hoje... Um artigo semelhante a este será publicado brevemente com a perspectiva feminina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;strong&gt;Os mulherengos não são uma raça extinta. Oiçam-lhes a verdade nua e crua. Sobretudo nua.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vale a pena estar com rodeios ou mentiras de ocasião: o que aqui se vai ler é absolutamente verdadeiro, retirado directamente das bocas de seis experientes exemplares do sexo masculino que discorreram livre, sincera e anonimamente - sobre todos os exemplares do sexo feminino. Se o resultado ofende sensibilidades ou choca moralidades, a culpa não é nossa: nada - mas mesmo nada - foi inventado. As mulheres podem ficar surpreendidas e escandalizadas por lerem pela primeira vez como eles falam delas: mas o homem que disser o mesmo mente, porque é impossível que ao menos uma vez na vida não tenha tido ou ouvido semelhantes conversas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os participantes desta animada tertúlia são todos senhores doutores, muito bem instalados na vida e com boas maneiras à mesa. Alguns chegam mesmo a ser casados. O que nos leva a constatar que nem os misóginos escapam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para evitar uma prematura saída de circulação desta edição e sobretudo porque ainda há gente que preza os seus empregos, decidimos substituir algumas expressões demasiado quotidianas. No seu lugar, irá apare
